Se quiser continuar existindo, a direita precisará aprender a ouvir

Resultados das eleições no Brasil e nos EUA deram um recado: não basta chegar ao poder, apoiado pela grande massa, é preciso apresentar soluções para os problemas que existem

  • Por Paulo Mathias
  • 22/11/2020 08h00
Marcos Corrêa/PRMesmo com apoio de Jair Bolsonaro, Celso Russomanno (Republicanos) não foi ao segundo turno em São Paulo

Depois dos resultados do primeiro turno das eleições municipais deste ano, ficou muito clara a ausência de estratégia da direita no Brasil, ligando um sinal amarelo para a base bolsonarista e parlamentares eleitos com base nas pautas conservadoras. Diante desses resultados, com uma elevada abstenção nas urnas e o surgimento de uma nova esquerda, vejo necessidade de uma reviravolta na postura daqueles que governam o país. O que os levou à derrota nessas eleições? Onde foi que os conservadores pecaram, contrariando a imagem fortalecida do presidente nas eleições de 2018, que encaminhou a direita ao poder por meio de uma campanha virtual, com uma vitória jamais vista? Acredito que foram várias as razões que levaram a uma fragilidade e que necessitam ser revistas. Dessa forma, para que a direita continue existindo, e de maneira renovada, precisará aprender a ouvir críticas de forma construtiva, como é a intenção deste artigo: um alerta para novos olhares que permitam mudanças de postura.

Voltando um pouco no tempo, nas eleições de 2018, o cenário era bem diferente. Os resultados em que Bolsonaro obteve a vitória confirmada por 57,7 milhões de votos, derrotando seu concorrente próximo, Fernando Haddad, do PT, em uma campanha barata, quebraram um ciclo de vitórias da oposição que vinha desde 2002. Os gastos registrados na Justiça eleitoral pelo candidato Bolsonaro foram de R$ 1.721.537, considerado um valor insignificante perante outros partidos. Porém, apesar de todas essas constatações, a vontade majoritária do eleitorado brasileiro em votar contra o establishment político, neste ano de 2020, simplesmente desapareceu. Há dois anos, a direita, mediante à vitória do presidente Bolsonaro, imbuída de um resultado positivo, trouxe consigo a certeza de novas vitórias. Dentre muitos fatores que levaram a essa vitória da direita em 2018, deve-se ressaltar a notória participação das redes sociais como impulsionadoras de mudanças. Os resultados da campanha para a presidência mostraram a articulação de um conteúdo incisivo e contínuo, que trouxe um retorno bastante positivo para a imagem de Bolsonaro. Assim, a direita foi se acostumando com essa nova realidade, talvez se esquecendo de que mudanças são contínuas e que a população enxerga fatos, que reforçam suas escolhas nas urnas.

Na sequência dos acontecimentos, em 2019, a imagem do presidente ainda obteve o apoio de seus eleitores, que, com o passar do tempo, foram se ressentindo de alguns fatos que desagradaram suas expectativas em relação à postura de Bolsonaro. O que culminou com as eleições recentes, neste ano de 2020, no qual o bolsonarismo começou a ser derrotado nas urnas. Dos inúmeros candidatos apoiados por ele, pouquíssimos obtiveram vitórias eleitorais. Faz-se necessária uma reflexão em busca das causas dessa reviravolta, e saltam aos olhos muitas delas, que precisam ser levadas em conta, como lições para uma urgente mudança de posicionamento. Um dos fatos, em meio a tantos que contribuíram para esse estado, foi a questão das “rachadinhas”, que envolveu um dos filhos do presidente, Flávio Bolsonaro. A partir dos dados das quebras de sigilo bancário e fiscal, promotores apontaram que o senador utilizou, pelo menos, R$ 2,7 milhões em dinheiro vivo desse esquema (em que um servidor público contratado pelo gabinete parlamentar repassa parte do seu salário ao político contratante). Vale destacar: ele é filho do presidente. Não há como dissociar.

Além disso, outro fato que pesou na avaliação do presidente se refere ao seu posicionamento frente a diversos temas relacionados à atual pandemia, com argumentações controversas e falas desencontradas, que confundiram o entendimento de seus eleitores e da população em geral. Conhecido por suas declarações intempestivas, Bolsonaro, diante das incertezas de dados e resultados sobre a atual crise do Covid-19, contribuiu para um maior clima de insegurança da população, fragilizada pelos atuais acontecimentos. Outra questão a ser levantada, na figura do presidente, e que contribuiu para o arrefecimento de sua imagem em 2020, foi o apoio dado por Bolsonaro a candidatos como Russomanno, em São Paulo, e Crivella, no Rio de Janeiro, ambos bastante polêmicos e com um índice crescente de rejeição em suas cidades. Assim como a não estratégia definida pelo presidente para as urnas de 2020, que mostraram uma completa e absoluta desarticulação política.

Frente a todos esses resultados, acredito que mesmo a recente eleição de Joe Biden para presidente dos Estados Unidos, como também os resultados das eleições municipais de 2020, deram um recado ao presidente: não basta chegar ao poder, apoiado pela grande massa, mas é necessário que, dia após dia, se apresente soluções para os problemas que existem. As reformas estruturais do país, tanto a administrativa como a tributária, precisam sair do papel. O Brasil, em âmbito fiscal, não suportará um 2021 sem essas mudanças e com tamanhas incertezas referentes à pandemia de Covid-19. Bolsonaro precisa entender que a agenda liberal de Paulo Guedes não acontecerá sem seu apoio político. Ela é crucial para seu projeto de reeleição. É verdade, sim, que as eleições de 2020 não ditam o resultado de 2022. Mas elas apenas acendem um alerta muito claro, para que revisões de posturas e posicionamentos aconteçam, deixando de lado pormenores e focando naquilo que interessa mesmo à população. É necessário haver humildade, neste momento, para reconhecer os erros. Ouvir é preciso, e tempo ainda há.