Bolsonaro e D. Pedro II: duas personalidades, duas escolhas inusitadas

Escolha popular do presidente para a revista Time remete a episódio de visita do imperador brasileiro aos EUA, quando conquistou votos sem querer a uma eleição de que não participava

  • Por Reinaldo Polito
  • 09/12/2021 09h00
Reprodução/Wikimedia Commons Por ser uma pessoa simples, afável e muito educada, o imperador brasileiro encantou os norte-americanos em visita aos EUA e tocou o coração dos habitantes da Filadélfia, Pensilvânia.

Os bolsonaristas estão eufóricos. A notícia que receberam esta semana os motivou a dar pulinhos de alegria. Afinal, não é todo dia que fatos auspiciosos como esse acontecem. Estou me referindo à eleição de Bolsonaro como personalidade do ano pela revista Time. O nome do vencedor, todavia, só será chancelado em votação definitiva pelos editores da publicação. Depois dessa decisão é que vão divulgar, no dia 13 de dezembro, o nome escolhido para estampar a capa. Ninguém no governo duvida que a escolha seja ratificada. A oposição não gostou nenhum pouco. Não era mesmo para um fato como esse surgir agora, às vésperas das eleições de 22. Sabem que, embora essa eleição dos leitores da revista não sirva para absolutamente nada, Bolsonaro, marqueteiro como é, vai deitar e rolar com a vitória. Vamos ao que ocorreu.

A eleição para personalidade do ano de 2021 da Revista Time foi feita por voto popular, no dia 7, terça-feira. Bolsonaro ficou em primeiro lugar com 24% dos cerca de 9 milhões de votos dos
leitores da revista. O ex-presidente norte-americano, Donald Trump obteve o segundo posto com 9% da votação. Para quem, como o chefe do executivo, tem sido massacrado com críticas de toda natureza ao longo dos últimos meses, a conquista foi extraordinária. Embora esse feito não altere o preço do petróleo, é uma vitória a ser comemorada pelo governo. Muitos tentam minimizar a conquista destacando em paralelo notícias negativas. Alguns, por exemplo, falam de sua eleição, mas imediatamente revelam que a revista menciona que ele está sendo indiciado por 9 crimes na condução do combate à pandemia. Não deixam de dizer ainda que os votos foram pela internet, e que o próprio presidente pediu para votarem nele. Independentemente da opinião daqueles que desejam combatê-lo, este mérito terá bastante repercussão e poderá acrescentar pontos positivos à sua imagem.

Já houve curiosos feitos de brasileiros em terras estrangeiras que sempre são lembrados. Um dos mais inusitados foi protagonizado por D. Pedro II em longa visita que fez aos Estados Unidos. Em 1876, ele realizou uma viagem não oficial àquele país. O imperador encantou os norte-americanos. Por ser uma pessoa simples, afável e muito educada, tocou o coração daquela gente, especialmente os habitantes da Filadélfia, Pensilvânia. Ali se realizava a Exposição Universal daquele ano, data em que os americanos comemoravam o centenário da independência. O monarca visitou todos os pavilhões do evento, testou as invenções, tomou contato com as novidades, como, por exemplo, o telefone, que havia sido inventado por Graham Bell. Como D. Pedro falava vários idiomas, teve muita facilidade para se relacionar em todos os ambientes que frequentava. E dessa forma se tornou, assim, muito popular pelas terras do Tio Sam.

Ocorreu, então, um fato inusitado. Naquele ano, eles estavam em campanha para eleger o próximo presidente. Como brincadeira, o The New York Herald publicou a sugestão de um leitor lançando D. Pedro para concorrer às eleições para presidente e Charles Francis Adams, para vice. E não é que muitos levaram a piada a sério! D. Pedro obteve a expressiva votação de 4 mil votos! Pense bem, 4 mil votos nos Estados Unidos, em 1876, para um brasileiro que não estava concorrendo, é, sem dúvida, um feito para ficar na história. Assim como esses votos dados a D. Pedro em 1876, além do episódio folclórico em si, não redundou em nenhuma consequência vantajosa para o nosso país, da mesma forma essa eleição de Bolsonaro ficará apenas como um momento a ser lembrado por aqueles que se dedicarem a contar curiosidades sobre a história do Brasil. Não há dúvida, entretanto, de que Bolsonaro deve comemorar esse presente que recebeu no instante em que mais precisava de boas notícias. Que solte os rojões.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.