Cada vez mais a política se parece com as nuvens: você olha está de um jeito, olha de novo, já mudou

Lula, Michel Temer e Roberto Jefferson são alguns que tiveram surpresas em suas trajetórias; por isso, sempre que estiver muito convencido de que as previsões políticas já estão definidas, dê uma olhada para o céu e observe o movimento das nuvens

  • Por Reinaldo Polito
  • 30/09/2021 09h00
Marcos Corrêa/PRApós ter tido um dos mais baixos índices de popularidade da história, Temer voltou a ter sucesso ao ajudar Bolsonaro a redigir uma carta de intenção

A frase atribuída ao ex-governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, parece cada vez mais atual e verdadeira: “Política é como nuvem. Você olha, e ela está de um jeito. Olha de novo, e ela já mudou”. Quando Jânio Quadros renunciou ao cargo de presidente do país em 25 de agosto de 1961, apenas sete meses depois de sua posse, houve grande decepção de boa parte da população brasileira. Afinal, ele havia sido eleito com 48% dos votos, já que naquela época o pleito era decidido em um único turno. Praticamente todas as pessoas passaram a imaginar que ele já estivesse acabado para a política. Depois de ser derrotado ao concorrer ao governo do estado de São Paulo em 1982, logo em seguida, em 1985, as nuvens dançaram no céu e ele se elegeu prefeito da capital paulista, vencendo o poderoso Fernando Henrique Cardoso.

Outro que estava praticamente eliminado da política foi Lula. As nuvens já haviam sobrevoado com “ousadia” na sua eleição para presidente em 2002, quando venceu José Serra. Com todos os fatos incriminadores do mensalão que o envolveram juntamente com seu partido, o PT, muitos supunham que a sua biografia política estaria encerrada. As acusações eram tão contundentes que o PSDB, partido contra quem concorreria pela reeleição, disse para “deixar Lula sangrar no cargo”. Ou seja, não haveria necessidade de atacá-lo, pois ele definharia a partir de seus próprios erros. Mas, as poderosas cumulonimbus mudaram de posição, e ele não apenas se reelegeu em 2002, ao derrotar Geraldo Alckmin, como também conseguiu em 2014 fazer sua sucessora, Dilma Rousseff. E depois de amargar longo tempo na prisão, não é que as nuvens mais uma vez mudaram de lugar, e ele é tido como o principal concorrente de Jair Bolsonaro em 22!

Mais um nome que, aparentemente, estava sem nenhuma chance de se candidatar a um cargo eletivo era o do presidente do PTB, Roberto Jefferson. Depois de ser preso pelo envolvimento no mensalão, parecia ter perdido a credibilidade. Nos últimos tempos, entretanto, ele reformulou os objetivos do seu partido, e abraçou com determinação as causas conservadoras, tornando-se ferrenho defensor das posições bolsonaristas. Participou de grandes manifestações populares, especialmente na avenida Paulista, conquistando a simpatia de boa parte da população. Em virtude dos ataques que fez aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) teve sua prisão novamente decretada. Também no seu caso, as nuvens deram alguns rodopios. Como sua mensagem encontrou eco em muitos eleitores, se resolver concorrer a algum cargo nas próximas eleições, terá muita chance de se eleger.

Nos últimos dias as nuvens políticas trouxeram outra grande surpresa – o ex-presidente Michel Temer. Ao substituir Dilma, que deixou o cargo por causa do processo de impeachment, cumpriu seu mandato como presidente da República ostentando um dos mais baixos índices de popularidade da história. Somente sua extraordinária habilidade política, conquistada nas vezes em que presidiu a Câmara dos Deputados, impediu que ele fosse impichado. Foi para o seu canto, ao lado da bela, recatada e “do lar”, Marcela, tendo de se defender de diversas acusações de irregularidades. Após as manifestações de 7 de setembro, houve o início de forte conflito entre as instituições, principalmente do Executivo com o Judiciário. Havia risco de rompimento entre as relações desses poderes. Nesse momento entrou em ação a voz ponderada e experiente de Temer para colocar panos quentes e acalmar os ânimos. Ajudou Bolsonaro a redigir uma carta de intenção que funcionou como espécie de bandeira branca na contenda. Devido ao sucesso de sua participação, não foram poucas as pessoas que pediram a sua volta à cena política brasileira.

Como as nuvens vivem mudando de posição a todo instante, fica difícil hoje cravar que esses políticos conseguirão mesmo conquistar o voto dos eleitores. Sem contar que, se bater um vento mais forte, outras mudanças poderão ocorrer, e, quem sabe, tragam para a cena alguns nomes que agora talvez nem estejam sendo cogitados. Por essas e por outras, sempre que estiver muito convencido de que as previsões políticas já estão definidas, dê uma olhada para o céu e observe o movimento das nuvens. Ao se conscientizar de que a política muda com a mesma velocidade que elas, pode ser que suas convicções se arrefeçam e abram espaço para novos cenários. Siga pelo Instagram @polito.