Rodrigo Pacheco, com cara de netinho da avó, não disfarça mais as intenções de chegar ao Planalto

Presidente do Senado tenta enfraquecer Bolsonaro com ações como se dobrar às exigências do STF ao abrir a CPI da Covid-19 e não mover uma vírgula para defender o voto auditável

  • Por Reinado Polito
  • 22/07/2021 09h00
Beto Barata/Agência SenadoCom aquele jeitão mineiro de ser, Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, circula com fala mansa e escorregadia

Aspirar ao cargo de presidente da República é um direito legítimo de qualquer cidadão, especialmente se já estiver militando na política. Quando alguém vai galgando os postos mais importantes no mundo político, não tem como não passar pela cabeça: “Por que não eu? Se até Jair Bolsonaro, que era um deputadozinho do baixo clero, se tornou presidente, nada me impede de vestir a faixa”. E dentro dessa lógica, se conseguir se eleger presidente do Senado, então, a distância até à cadeira presidencial fica ainda mais curta. Esse é o caso de Rodrigo Pacheco, presidente do Senado. Com aquele jeitão mineiro de ser, ele circula com fala mansa e escorregadia. Quem olha para ele, vê logo um rapagão com cara de bom moço, que passa a impressão de ter sido criado em apartamento fechado, mais pela avó que pela mãe. Fica difícil perceber que por trás de seus trajes impecáveis e modos de um verdadeiro lorde se esconde uma vontade obstinada de chegar lá.

Na verdade, ficava difícil. Hoje, porém, por mais camufladas que sejam, não têm como esconder suas reais intenções – descolar uma vaga para ser candidato à presidência da República em 2022. Basta abrir os jornais e revistas que as notícias começam a pipocar. Só o fato dele dizer que não discutirá agora o processo eleitoral para 2022, que seu compromisso é com a estabilidade do país e que isso exige foco nos muitos problemas em 2021, já é sinal claro de que não descarta a ideia. Além disso, suas constantes conversas com Kassab reforçam os rumores de que está acertando sua ida para o PSD. Sem contar a procura de apoio junto a Luciano Huck, e uma possível dobradinha com o governador Eduardo Leite. Ah, sem deixar de lado a porta para uma saída alternativa com o ex-ministro Mandetta. Ou seja, como bom político, diz que ainda não, mas todo mundo sabe que lá no fundo existe um sim.

A partir daí, surgem indícios reveladores em sua atuação. Não tem mais como esconder suas ações para enfraquecer Bolsonaro. O fato de ter se dobrado às exigências do Supremo Tribunal Federal (STF) para que abrisse a CPI da Covid-19, com a intenção de investigar o presidente, foi o primeiro sinal. Agora, mesmo sabendo que o objetivo da comissão é só o de minar a imagem do chefe do Executivo, concorda em prorrogar por mais 90 dias esse inquérito. É a demonstração evidente de que já entrou na briga para tentar ser a 3ª via. E mais, não moveu uma vírgula para defender o voto auditável, que é uma bandeira do presidente. Ao contrário, suas declarações vão de encontro aos pronunciamentos de Bolsonaro. E não só os do presidente, como também os daqueles que são caros a ele, como, por exemplo, ao defender Omar Aziz no embate contra o ministro da Defesa Braga Netto e todos os comandantes das Forças Armadas. Fica claro que ele já está em campanha.

Pois é, Bolsonaro não tem muita sorte com esses aliados no Congresso. Comeu o pão que o diabo amassou nas mãos de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. Por isso, apadrinhou Arthur Lira e Pacheco, e em pouco tempo descobre que ajudou a eleger para a presidência do Senado um possível adversário. Por enquanto, o presidente da Câmara está segurando as pontas, mas ficar na dependência desses políticos não é mole não. E não tem jeito, fizemos uma Constituição para atender a um sistema parlamentarista, mas o povo escolheu o presidencialismo. A profecia de José Sarney se concretiza: “A inclusão de todas as reivindicações corporativas tornou o país ingovernável, fazendo da Constituição Federal algo mais grave que um Frankenstein”. E é verdade. Para o presidente da República só obrigações, enquanto que o Parlamento e o Supremo fazem o que bem entendem.

Agora caiu no colo do presidente esse abacaxi do fundo eleitoral de R$ 5,7 bilhões. Um dilema que político nenhum gostaria de enfrentar. Se ele não vetar, perde apoio popular. Se vetar, corre o risco de ter a má vontade do Congresso na aprovação dos projetos que beneficiariam o país. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ele afirmou que vai vetar, mas está colocando o pescoço na guilhotina. A esperança é que o STF anule a votação e tire a responsabilidade das suas costas. Enquanto isso, Pacheco só perambula na moita. Articula aqui, conversa ali e vai aplainando a estrada para conquistar seu objetivo de chegar ao Planalto. Quem pensava que o oponente de Bolsonaro seria só Lula, se enganou. Pelo andar da carruagem, o ex-presidente será a última de suas preocupações. Se não bastasse o olho gordo de alguns governadores, dos candidatos de sempre como Ciro, Alckmin, Marina, agora também tem essa do presidente do Senado. Haja motociata! Siga no Instagram: @polito.