Constantino: Risco do protesto é comprar Guedes, mas levar Olavo

  • Por Rodrigo Constantino/Jovem Pan
  • 24/05/2019 08h44 - Atualizado em 24/05/2019 08h45
Reprodução/YouTubeGente séria debate meios, enquanto demagogos monopolizam os fins nobres e atacam espantalhos

As manifestações governistas “espontâneas” continuam gerando divisão na direita. Mas é preciso admitir: ganharam adesões importantes, de gente mais moderada, de empresários que querem de fato focar na aprovação das reformas. É preciso respeitar quem apoia, assim como é preciso respeitar quem considera um erro essa estratégia.

E eis o ponto que tem sido ignorado por muitos: os grupos organizadores são bem próximos do bolsonarismo e adotam postura radical, inclusive com retórica antipolítica que demoniza o Congresso. É uma linha de “raciocínio” que transforma todos os deputados e senadores em bandidos, enquanto enxerga Bolsonaro como a “vontade geral” incorporada num sujeito “imaculado”.

Para narrativa adolescente esse maniqueísmo vende bem. Para seduzir quantidade, sem qualidade, serve, pois fala aos mais ignorantes revoltados com a situação do país, e que aceitaram o discurso de que o Congresso é o “centrão fisiológico”, que ninguém presta, só o presidente, e que o Poder Executivo deve ter poderes ilimitados para impor os desejos do “povo”.

Mas não é discurso sério, democrático e tampouco ajuda na aprovação das reformas de fato. Entendo, portanto, quem está apoiando a reforma com base em suas novas bandeiras mais moderadas e objetivas, em apoio às reformas e ao combate ao crime, mas é preciso respeitar quem não se sente à vontade ao lado de malucos jacobinos inspirados em Steve Bannon e Olavo de Carvalho.

Sim, as pautas estão definidas e são mais moderadas. Sim, apoiar a reforma previdenciária é fundamental, algo que Kim e o MBL têm feito, enquanto Olavo nem abre a boca sobre o assunto. Mas o perigo é endossar uma pauta e acabar fortalecendo outra, de quem quer mesmo detonar o Legislativo pois embarcou na crença de que ali só tem bandido e que o presidente precisa impor a “vontade geral”. É a turma que propõe soluções simplistas e equivocadas, gente que não quer debater a sério como resolver os problemas, e sim jogar para a plateia indignada com a política em geral.

Gente séria debate meios, enquanto demagogos monopolizam os fins nobres e atacam espantalhos. Quem é contra os métodos dessa ala radical do bolsonarismo não necessariamente é contra seus fins, e tampouco defende corruptos do “centrão”. O debate de adultos é outro: como avançar de fato, entregando resultados, e preservando as instituições democráticas.

O risco desse protesto, em outras palavras, é comprar Paulo Guedes, mas levar Olavo de Carvalho.