Golpe de Bernie Madoff explica como ficamos cegos para o risco

Americano usava o dinheiro dos novos investidores, que chegavam atraídos por sua fama, para remunerar os antigos

  • Por Samy Dana
  • 15/04/2021 12h54
Brendan McDermid/ReutersBernie Madoff morreu aos 82 anos enquanto cumpria pena em uma prisão federal nos Estados Unidos

Como Charles Ponzi, que um século atrás entrou para a história ao criar o que oficialmente é reconhecida como a primeira pirâmide financeira — o esquema Ponzi — Bernard Madoff, morto aos 82 anos, prometia retornos fabulosos a quem entregava dinheiro a ele para ser investido. Mas enquanto o famoso golpista foi descoberto em pouco mais de um ano, tempo em que angariou o equivalente a US$ 250 milhões hoje, Madoff durou muito mais tempo. Chegou a ser presidente da bolsa Nasdaq no começo dos anos 90, e pelos 15 anos seguintes seguiu aplicando golpes, deixando um prejuízo de US$ 65 bilhões para seus clientes.

Como investidor, tinha fama de mágico. Mesmo nas crises, os investimentos rendiam 10% ou mais ao ano. Ninguém entendia como, nem mesmo os reguladores, que visitavam a empresa dele para olhar seus livros sem achar nada errado. Só quando um grupo de investidores, no prejuízo com o estouro da bolha imobiliária, em 2008, quis sacar suas aplicações, a farsa foi descoberta. Bernie Madoff vinha usando o dinheiro dos novos investidores, que chegavam atraídos por sua fama, para remunerar os antigos. Um clássico esquema de pirâmide que fez vítimas famosas como os atores Kevin Bacon e John Malkovich, o diretor Steven Spielberg, através de sua fundação, e o famoso sobrevivente do Holocausto Elie Wiesel. Mas também nomes ligados ao mercado financeiro e os bancos HSBC, Royal Bank of Scotland e Santander.

Com a descoberta do golpe, vieram a prisão e a condenação a 150 anos de cadeia em 2009. Cumpriu pena até o último dia de vida. Nesses 12 anos, um filho dele cometeu suicídio e outro morreu de câncer, com a família atribuindo ambas as mortes ao escândalo. A história dos grandes golpes financeiros sempre tem como componente uma espécie de cegueira. Muitas pessoas acabam não vendo os riscos e perdendo dinheiro porque só olham para o que podem ganhar. No esquema Ponzi original, o estelionatário prometia retornos de 50% em 45 dias e de 100% em três meses. Diante da promessa de lucros, é difícil não acreditar.

É fácil condenar as vítimas com um discurso sobre a ganância, mas na época não foi o único caso. Com o fim da bolha imobiliária americana, muitos clientes de fundos descobriram, com prejuízo, que vinham fazendo apostas de altíssimo risco sem nem saber. O golpe só foi possível tanto pela sofisticação dos investimentos nas últimas duas décadas, que muitos não entendiam, como pela omissão dos reguladores. Mas se apontou na época também para uma tendência geral de confiar em alguém que está ganhando muito dinheiro. E tudo conflui para a grande trapaça de Bernie Madoff.