Peru é mais um país que terá de reformar economia sem atrapalhar o crescimento

Bolsa de Valores de Lima chegou a cair 7% e o dólar atingiu um nível recorde com a iminente vitória do esquerdista Pedro Castillo; como no Chile, desafio é jogar fora a água suja sem o bebê junto

  • Por Samy Dana
  • 11/06/2021 13h10
Stringer/EFE Da sacada da sede do partido Peru Livre, Pedro Castillo fala para uma multidão do lado de fora, onde se vê, em meio às pessoas, dois lápis infláveis que simbolizam a profissão do candidato de esquerda (professor) Pedro Castillo fala para um multidão da sede do partido Peru Livre; vitória do candidato de esquerda deve ser confirmada em breve

No Peru, a economia foi severamente afetada pelo coronavírus. Caiu 11,1% em 2020, muito por causa do fracasso em conter a pandemia. Na semana passada, o governo elevou de 68 mil para mais de 180 mil o número de mortos pela covid-19, tornando-se o país de maior mortalidade média no mundo. São mais de 500 vítimas por 100 mil habitantes. Mas também por falta de apoio à população mais pobre, que perdeu a renda na pandemia. Mesmo que boa parte das perdas vá ser recuperada neste ano (a previsão do governo é de alta de 10% do Produto Interno Bruto), parte da população culpou o modelo econômico. Convivem no Peru medidas bem mais favoráveis ao mercado do que na média da região. O país tem acordos de livre comércio com a China, Estados Unidos, União Europeia e Japão. Cresceu em média 6% a cada 12 meses desde o ano 2000.

Mas a crise revelou um mal-estar social. Algo parecido com o que vem sendo visto no Chile e na Colômbia, outros dois casos de economia liberal na América do Sul em que a divisão desigual dos ganhos levou a questionamentos pela esquerda do modelo econômico. Pesa ainda no caso peruano a corrupção dos últimos governos, que desmoronaram em meio a escândalos. O Peru teve quatro presidentes desde 2018. O quinto, salvo alguma virada na validade dos votos, é Pedro Castillo, vencedor de uma eleição disputada até o último voto com a direitista Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori . Professor, sem experiência de governo e com propostas extremistas de esquerda, como a intervenção na economia, ele assusta o mercado. A Bolsa de Valores de Lima chegou a cair 7% e o dólar atingiu um nível recorde quando o candidato do Peru Livre assumiu, na segunda-feira, a liderança na contagem de votos.

Para o banco JP Morgan, o futuro governo de esquerda poderá pressionar o Banco Central peruano a mudar políticas, e o país enfrentaria o risco de uma fuga de capitais. Mas também há prognósticos que veem pouco espaço para reviravoltas. Apesar do desgaste dos últimos anos, o modelo peruano é um sucesso econômico. Existe a percepção geral de que é preciso mudar, mas sem arriscar as conquistas. Mesmo as oscilações do mercado não são novas. Dez anos atrás, quando outro esquerdista, Ollanta Humala, chegou ao poder, a Bolsa peruana caiu 12%. Pedro Castillo buscou moderar posições no final da campanha e também durante a semana, tentando acalmar o mercado. Se for mesmo confirmado presidente pelas autoridades eleitorais, as próximas semanas e meses vão servir para mostrar como pretende gerir, de fato, a economia. É real a frustração em alguns países. E é normal que leve a reformas. Mas, no Peru, como no Chile, o desafio será, como prega o ditado, evitar jogar a água suja fora com o bebê junto.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.