Política de autoteste de Covid-19 só deveria ser implementada em caráter de excepcionalidade

Qual é o impacto favorável? Usuários conseguirão realizar de modo adequado? Qual a validação a nível laboral? Perguntas sem respostas como essas colocam em xeque a eficácia da medida

  • Por Sergio Cimerman
  • 21/01/2022 08h00
Paulo Lopes/BW Press/Estadão Conteúdo - 20/01/2022 Mostra de Kit de auto teste do tipo antígeno, para detecção do Covid-19, feita em Wexford, na Irlanda Kit de autoteste do tipo antígeno para detecção do Covid-19, feito em Wexford, na Irlanda

A pandemia da Covid-19 continua a castigar todos os países do globo terrestre. A variante Ômicron já se faz presente em todos os continentes e, seguramente, é a mais frequente. Com alto poder de transmissibilidade, eleva o número de infectados a nível mundial, mas não aumenta o número de óbitos. A vacina está cumprindo, e muito bem, o seu papel de evitar casos graves e mortalidade. Com este aumento de casos, obviamente, o número de diagnósticos tende a aumentar e, aqui, já há um problema que nos deparamos. O desabastecimento dos testes de diagnóstico, tanto do RT-PCR como do teste rápido de antígeno, já está nítido entre os usuários e confirmado pela Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica. 

Estamos voltando ao início da pandemia? Naquela época, ninguém conseguia fazer diagnóstico, tudo era muito nebuloso e tínhamos de aliar a clínica para uma suposição diagnóstica. A busca por testes cresce porque se precisa para indicar isolamento ou para fazer viagens internacionais. Os médicos querem e precisam confirmar a contaminação para uma conduta mais precisa e informar ao paciente sobre os cuidados que necessita realizar em caso de positividade. Vamos voltar ao período em que faremos diagnóstico clínico deixando os casos mais graves e de risco para a realização dos exames. Não é o melhor dos mundos, mas é o que está acontecendo. 

Se não bastasse tudo isto, vem à baila a questão do autoteste para Covid-19. Será que terá o impacto favorável? Os usuários irão conseguir realizar o teste de modo adequado? Qual a validação a nível laboral? São inúmeras perguntas que não temos respostas. E tem ainda a questão que, durante a técnica da coleta, o indivíduo possa causar um trauma nasal. Pensaram nisso? Sem uma política pública bem definida, vamos jogar dinheiro e desperdiçar tempo das pessoas. Se positivo, precisa ser confirmado. Como comprovar isso? Qual local será destinado a uma nova coleta? Só mesmo em caráter de excepcionalidade para aceitar esta política de autoteste. Em países menores, como o Reino Unido, tem funcionado bem, mas várias campanhas de educação foram feitas para orientar a população. Ainda vamos passar por muitos momentos conturbados e precisamos ter calma e discernimento de tudo.

Vejo um horizonte melhor do que há um ano. Mas isso significa que estamos caminhando para uma calmaria virológica? Provavelmente, sim se não surgir outra variante de preocupação tão forte. Cada dia aprendemos mais sobre a Covid-19. O que precisamos e tenho muito claro é intensificar a vacinação em todo o Brasil e fortalecer a das crianças, que irão trazer um beneficio impar mais a frente com dados reais.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.