Merkel sabe que as portas devem começar a fechar

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan
  • 21/12/2016 06h53
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BRU108 BRUSELAS (BÉLGICA) 29/06/2016.- La canciller alemana, Angela Merkel, da una rueda de prensa tras finalizar la segunda jornada de la reunión del Consejo Europeo en Bruselas (Bélgica) hoy, 29 de junio de 2016. Merkel afirmó hoy que los veintisiete jefes de Estado y de Gobierno que formarán la UE una vez el Reino Unido abandone el club comunitario no consideran necesario cambiar los tratados, sino trabajar mejor con los instrumentos disponibles para conseguir mejor sus objetivos. EFE/Stephanie Lecocq EFE/Stephanie Lecocq Chanceler alemã Angela Merkel fala em Bruxelas

São dias inglórios e tenebrosos para a Alemanha na véspera do Natal devido ao atentado de segunda-feira em Berlim. São as vítimas diretas e, indiretamente, Angela Merkel. Sua política de portas abertas para os refugiados já estava fragilizada com a onda do terror islâmico que assolou a Europa nos últimos tempos. Agora, a primeira-ministra deve acelerar o seu recuo.

Muito se fala que com a ascensão de Donald Trump, Angela Merkel foi alçada contra sua vontade à condição de líder do mundo livre, ou seja, da ordem erguida após a Segunda Guerra Mundial. 

Trump será a figura mais poderosa do mundo, mas não tem a estatura e os princípios para liderar a ordem liberal, que está se desmanchando com o avanço de figuras populistas e de pendor autoritário nos dois lados do Atlântico e em outras partes do mundo, caso do infame Rodrigo Duterte, o presidente filipino.

Angela Merkel, porém, tem tantos desafios domésticos para se dar ao luxo de liderar o mundo livre. Desafios que são em parte fruto do seu nobre gesto moral de acolher 800 mil refugiados. Foi um gesto bem intencionado resultante do hediondo passado alemão, um ato de expiação depois do totalitarismo nazista. 

Cautelosa por natureza (e uma política maquiavélica), Angela sabe que as portas devem começar a fechar, antes de tudo por razões de segurança e também por precaução política.

Afinal, o terror e a instabilidade social gerados pela acolhida a refugiados alimentam o populismo, camarada das fáceis soluções. Para a Alemanha, vem aí fronteiras mais policiadas e mais monitoramento doméstico. Violência terrorista ou atos criminosos de refugiados dão legimitidade a partidos xenofóbicos, isolacionistas e antiglobalização de direita e de esquerda.

No caso específico da Alemanha, a extrema direita tem mais voz e mais votos com a Alternativa para a Alemanha, um partido ao estilo do britânico Ukip, que deve dar dor de cabeça para Angela Merkel em 2017 quando ela vai concorrer ao quarto mandato. Um dos seus deputados não resistiu e na terça-feira tuitou que as vítimas em Berlim “são os mortos de Merkel”.

Eu conto com a habilidade política de Angela nestes tempos inglórios e tenebrosos para encontrar o necessário equilíbrio entre a proteção da segurança doméstica, mas também das liberdades em geral. Afinal, a primeira-ministra está plenamente consciente do fardo histórico alemão e de manter seu pais imune ao populismo e uma âncora de tolerância e diversidade.

A política de portas abertas a refugiados precisa de revisões, mas as portas precisam continuar fechadas a soluções irresponsáveis, perigosas e simplistas que começam com a letra T. Já basta o que aconteceu de um lado do Atlântico.

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