O bloco dos jornalistas e o samba do presidente doido

  • Por Caio Blinder/Jovem Pan Nova Iorque
  • 25/02/2017 09h01
MR01 WASHINGTON (ESTADOS UNIDOS), 24/02/2017.- El presidente estadounidense Donald Trump durante su intervención en la Conferencia anual de Acción Política Conservadora (CPAC) que se celebra estos días a las afueras de Washington, Estados Unidos hoy 24 de febrero de 2017. EFE/Olivier Douliery **POOL**Donald Trump EFE

Carnaval, né? Realmente não é comigo, mas aproveito para anunciar que sempre estarei na avenida com o bloco dos jornalistas nesta era tão desafinada de fake news e fatos alternativos, em que Donald Trump, o suposto líder do mundo livre, nos alcunha de inimigos do povo e de desonestos. No bordão de solidariedade, “#je suis mídia desonesta”.

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A linguagem de Trump é típica da escória da humanidade, de gente como Lênin, Stálin e o resto. Na revista The New Yorker, David Remnik escreve que quando os bolchevistas usavam o termo “vrag naroda”, um inimigo do povo, eles abarcavam clérigos, intelectuais, monarquistas, trotsquistas, cosmopolitas sem raízes e quem mais que eles quisessem.

Na Revolução Francesa, Robespierre, arquiteto do Reino do Terror, também era chegado na expressão “inimigos do povo”. Num texto escrito no Pravda em 1917, Lênin não poupou elogios ao terror jacobino. Disse que era “instrutivo”. Nome do ensaio? Inimigos do povo. Lênin aterrorizou muito mais do que os jacobinos da Revolução Francesa. Stálin, nem se fala.

E cem anos depois da revolução bolchevista, está aí Trump, presidente da democracia mais antiga do mundo. Seu instrumento de petulância autocrática, uma espécie de guilhotina retórica, é o Twitter, no qual ele decretou que a imprensa é “inimiga do povo americano”. Fez o mesmo em entrevista coletiva dentro da própria Casa Branca e em comício já com vistas à reeleição em 2020.

Joel Simon, diretor do Comitê de Proteção de Jornalistas, observa que existe um padrão entre os autocratas, gente como Maduro, Erdogan, Sisi e Mugabe. Eles atacam e ameaçam a imprensa de forma deliberada e com soturna intensidade. A imprensa reage, adotando um tom de crescente confrontação. Isto abre espaço para o novo lance do autocrata. Na dinâmica, diminui o apoio popular à imprensa e o líder implanta mais restrições.

É verdade que Trump não prendeu jornalistas nem fechou órgãos de imprensa. Isto aqui não é Turquia. E o bloco dos jornalistas é forte. Ele tem ido para a avenida com passo firme, desafiando aquele que se diz protetor do povo contra seus inimigos, encenando o samba do presidente doido.