Petistas não comemoram prisão de Cunha porque, pelo mesmo método, Lula pode ser preso

  • Por Reinaldo Azevedo/Jovem Pan
  • 21/10/2016 07h20
Rui Falcão concede entrevista em São Paulo. 10/3/2016. REUTERS/Nacho DoceRui Falcão

Coitados dos petistas!

Durante um bom tempo, vamos convir, os dirigentes do partido podiam dar aula de pragmatismo e de, sim!, inteligência na relação com as coisas da política. Uma inteligência necessariamente maligna, voltada ao enrijecimento da cultura democrática e, no limite, favorável à criação do Partido Único — único com chances de governar. Todo o resto seria constituído de irrelevâncias.

A coisa desandou por razões conhecidas. E agora não se acha mais o rumo. Os chefões petistas, informa a Folha, não comemoraram a prisão de Eduardo Cunha. Rui Falcão apontou o excesso de prisões cautelares na Lava Jato e disse que elas são um instrumento para forçar delações. Bem, até aí, concorde-se ou não, nada de muito exótico.

Falcão deveria dizer o nome do que realmente o preocupa: Lula. Ora, durante a Operação Satiagraha, conduzida pelo Delegado Protógenes Queiroz — um aliado dos petistas, que depois virou deputado federal do PCdoB —, os companheiros se jactavam, em meio a arbitrariedades várias (o delegado veio a ser punido, depois, em razão de suas heterodoxias), de que, no Brasil, a impunidade acabara. Afinal, o alvo principal daquela operação era um então inimigo de parte considerável do PT: Daniel Dantas.

Por que o berreiro petista de agora? Garantias Constitucionais? Artigo 312 do Código de Processo Penal? Estado de Direito? Ora, isso tudo poderia ter sido evocado naquele período. E não foi.

O que assusta o PT é outra coisa: Lula é réu, como réu é Eduardo Cunha. Assim como a Cunha, também imputa-se a Lula uma penca de ações criminosas. Assim como a preventiva do ex-deputado foi decretada assentando-se basicamente nos fatos do passado, não na iminência do cometimento de novos crimes, também Lula pode ir em cana. O que foi mesmo que disse Moro em sua palestra, sobre a leitura pessoal que faz do Artigo 312 do Código de Processo Penal? Lembro: “Quando a regra do jogo é a corrupção, não admitir o risco de reiteração criminosa me parece incorreto”.

O medo é claro: se Cunha foi, Lula pode ser o próximo.

E, para arrematar, observo que os companheiros, de fato, não aprenderam nada. Um dos dirigentes disse à Folha esta pérola: a prisão de Cunha acentua o erro de avaliação cometido por ele e pelo hoje presidente Michel Temer ao apostar no afastamento de Dilma como instrumento de interdição da Operação Lava Jato.

Vejam que fabuloso: os petistas sempre disseram que a Lava Jato é uma conspiração que tem Lula e o PT como alvos. Mas, por alguma estranha razão, sustentavam também que o impeachment de Dilma era uma forma de… brecar a Lava Jato. Sendo uma coisa, não poderia ser outra; sendo outra, não poderia ser uma. Só a esquizofrenia política do petismo conseguiria casar as duas análises.

Ora, a prisão de Cunha evidencia que aquele tal complô, então, não existia, já que uma força dita “golpista” teria mandado prender a outra. Logo, um ser lógico concluiria o erro fatal daquela leitura. Mas não! Usam a prisão de Cunha, evidência maior de que estavam errados, como a prova de que estavam certos.

Será muito difícil o PT sobreviver. O partido é hoje o maior inimigo de si mesmo. Como disse o velho Marx, tornou-se “vítima de sua própria concepção de mundo”.

Que morra logo!