‘Home office é para privilegiados; boa parte do mundo não tem home nem office’, diz Nizan Guanaes

Empresário e ex-publicitário ressaltou a necessidade da digitalização do Brasil e analisou as transformações no mercado de trabalho e na publicidade durante a pandemia

  • Por Jovem Pan
  • 12/10/2020 23h54
Eliaria Andrade/Estadão ConteúdoO empresário Nizan Guanaes foi entrevista pela bancada do programa Direto ao Ponto nesta segunda-feira, 12

O empresário e ex-publicitário Nizan Guanaes, considerado um dos mestres da comunicação brasileira, foi o entrevistado desta segunda-feira, 12, do programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan. Na conversa, Nizan abordou a necessidade da digitalização do Brasil e falou sobre as mudanças provocadas no trabalho com a pandemia do novo coronavírus. Para ele, ao permitir o amplo acesso da população à internet e ao wi-fi é possível ampliar os horizontes dos brasileiros. “Home office é coisa para privilegiado. Boa parte do mundo não tem nem home, nem office”, disse. Ao comentar o universalização do acesso à internet, Nizan acredita que “a estrada hoje em dia é o wi-fi. É preciso digitalizar o Brasil e, na hora em que isso acontecer, vai abrir acesso a um monte de coisas. A digitalização do Brasil é fundamental e me impressiona que essa pauta não esteja posta neste momento”. Ele foi sabatinado por Augusto Nunes, apresentador do programa, e pela bancada composta pela jornalista e publicitária, Mona Dorf, Joanna Monteiro, CCO da Heads propaganda e presidente do Clube de Criação, Raul Justes Lores, editor-chefe da Veja São Paulo, e Guilherme Barros, jornalista e CEO da GBR Comunicação.

Ainda no início da pandemia, Nizan testou positivo para Covid-19 e contou que a doença proporcionou reflexões enquanto cumpriu o período de isolamento “trancado no quarto”. “Meu diagnóstico ainda foi muito início. Minha mulher tinha viajado para o exterior, não testou positivo, mas eu testei. Eu fiquei 20 dias no meu quarto, afastado de todos, e você acaba pensando muitas coisas. A morte veio pro centro da sala. Agora, todos os dias nos contamos ela. Tive amigos que perderam pai e mãe e outros perderam o avô, pai e tio de uma só vez. Não tem como não sentir o impacto disso tudo”, avaliou. Ainda segundo ele, “o ser humano não vai sair disso um Dalai Lama [da pandemia], mas também acho que não sairá indiferente”.

Para mudar a atual realidade na educação, o empresário afirma que é necessário ter investimento no ensino técnico. “Alemanha, por exemplo, é uma potência no ensino técnico. Hoje, acho que não faz sentido fazer um MBA em dois anos. E uma das coisas importantes deste século, na minha opinião, é aprender e desaprender, precisamos aprimorar isso”. Para eles, o programa de trainee do Magazine Luiza, empresa da qual é consultor, pode ser considerada “uma segunda abolição”. Ao abrir um programa de trainees apenas para candidatos negros, a empresa causou polêmica e foi até acionada na Justiça. “Tem que ter um ajuste. É complexo, mas é urgente e imediato. Os trainees da Magalu são pessoas incríveis”, disse. Para ele, a pandemia convocou as pessoas a pensarem no próximo e “chamou todos à responsabilidade. Até os grandes bancos se uniram. O consumidor sabe disso e vai avaliar quem fez por ele durante esse momento”.

A ‘marca’ Brasil diante do mundo

O empresário que já comandou uma agência de publicidade com 2.500 pessoas e atualmente diz estar em um escritório de 57 metros quadrados com duas assistentes também avaliou a transformação no mercado de trabalho brasileiro e a imagem que o Brasil tem passado ao mundo. “O empresariado teve um papel muito importante nessa pandemia e o Brasil agiu muito ativamente. Mas, atualmente, a democracia é analógica e os problemas são 5G. Imagine essa pandemia sem o SUS. Eu acredito no Estado empreendedor que tem outra visão das coisas. É preciso mudar o repertório da política, não só no Brasil”, avaliou.

Segundo ele, o país sempre foi “displicente” e “descuidado” com sua marca. “Acho que o Brasil sempre foi muito descuidado com a marca dele. Pega a agricultura, por exemplo, que é um colosso e, muitas vezes, é injustamente taxada e não se posiciona. O Brasil sempre foi muito displicente em usar seu soft power. O Rio de Janeiro, por exemplo, é os dois dentes da frente do Brasil. O Brasil nunca vai ter uma cara bonita sem os dois dentes da frente. Eu dizia isso já no governo FHC, o turismo no Brasil não tem verba nem pra espalhar boato”, disse. Nizan ainda avaliou que é preciso investir em economia verde, o chamado “green new deal”. “Para mim, o Brasil precisa de duas utopias, é preciso pensar grande, como a economia verde e a digitalização do país. O Brasil precisa entender que pode mudar, prosperar e gerar emprego com economia verde, e se abraçar o estudo técnico verá um impacto brutal”, avaliou.