Cientista político prevê cenário perigoso após contra-ataque iraniano em base norte-americana

  • Por Jovem Pan
  • 08/01/2020 10h06
EFESoleimani era considerado um herói nacional no Irã

Nesta quarta-feira, 8, o Irã confirmou que o bombardeio ocorrido na base militar norte-americana de Al Asad, localizada no Iraque, foi uma retaliação à morte de Qassem Soleimani, em nota divulgada por meio da TV Estatal do país. “Nós alertamos os arrogantes EUA [Estados Unidos] de que quaisquer novas provocações levarão a retaliações mais graves e destrutivas”, diz o comunicado.

Para o cientista político e ex-secretário de assuntos estratégicos do governo Temer Houssein Kalout, não é possível prever se os ataques se encerram com a resposta iraniana. “Isso depende do posicionamento do governo norte-americano. Estamos presenciando a redefinição das regras de engajamento no plano regional entre EUA e Irã”, afirma.

Kalout explica ainda que o local do bombardeio foi escolhido de forma estratégica. “O Irã responde de forma incisiva no Iraque, local cujo ‘custo estratégico’ é mais agregado. Ou seja, os iranianos jamais pensaram em atacar outras localidades após a morte do Soleimani. Um ataque a uma base americana no Bahrein ou na Arábia Saudita poderia ser entendido como uma tentativa de estabelecer um poder que não necessariamente traria vantagens, além de transformar o país atacado em um local que também desejaria retaliação contra o Irã”, completa.

Quanto a decisão tomada pelos iranianos de voltar a enriquecer urânio, o especialista não acredita em recuo. “Os iranianos levaram quase três décadas para criar laços de confiança com as potências do ocidente e avançar no sentido de aceitar os termos impostos pelas grandes potências e renunciar do programa nuclear para fins pacíficos”, explica. “O acordo [nuclear] assinado em 2015 é extremamente sofisticado e complexo, e objetivamente impede o Irã de desenvolver qualquer artefato nuclear. Agora você tem um país que não confia mais nessas potências, e me parece que também não se confia no Irã. Tudo pode acontecer. Vamos entrar num ciclo muito imprevisível e perigoso para os atores da região.”

Houssein Kalout analisa que, com o bombardeio, os iranianos deixaram claro que continuarão respondendo aos ataques norte-americanos. Além disso, se os Estados Unidos atacarem a partir de qualquer base fora do Iraque, o país hospedeiro automaticamente passaria a ser considerado um alvo. “A tentativa é neutralizar as forças americanas em outros territórios, deixando claro que eles não pretendem atacar outras localidades a não ser o Iraque”, finaliza.