Estatísticas de perseguição virtual no Brasil são imprecisas, diz Fórum da Segurança Pública

Três casos de stalking são notificados a cada hora no país; só em 2021, foram quase 30 mil

  • Por Jovem Pan
  • 04/07/2022 12h09 - Atualizado em 04/07/2022 12h14
Pixabay cÂmera Pena por perseguição virtual varia de seis meses a dois anos de prisão, podendo chegar a três anos

Três casos de stalking são notificados a cada hora no Brasil. Só em 2021, o país registrou quase 30 mil casos deste que é um crime antigo, mas só foi tipificado recentemente. Foi a primeira vez que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública mapeou a incidência da infração. Como a legislação é nova, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública pede cautela na análise dos dados, já que nem todos os Estados contabilizam as denúncias. Stalking é uma palavra em inglês que significa perseguir uma pessoa no mundo virtual ou real, de forma online ou presencial. Qualquer pessoa pode ser autora do crime, assim como qualquer um pode ser vítima. Apesar disso, as mulheres são alvos mais frequentes da ação. A pena por perseguição virtual varia  de seis meses a dois anos de prisão, podendo chegar a três anos se houver agravantes, quando como o ato é cometido contra mulheres, crianças, adolescentes e idosos.

A titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) da Vila Clementino, delegada Jaqueline Valadares, pede que as vítimas procurem a polícia nos primeiros sintomas do crime. “Temos relatos de stalkers que colocaram um GPS escondido no carro da vítima, então há necessidade de que a vítima se atente e perceba a partir de qual momento aquela conduta deixa de ser uma mera curiosidade e se torna realmente uma perseguição obsessiva, e que ela nos procure para registro da ocorrência e para que providências possam ser adotadas, medidas cautelares que visem cessar e interromper o agravamento desse ciclo. É muito importante que, ao primeiro sinal, a vítima já procure a delegacia policial para registro dos fatos e adoção das medidas iniciais pertinentes”, explica Valadares.

A delegada confirma o cenário de maior risco para as mulheres. “Em razão da nossa sociedade ser ainda muito sexista, muito patriarcalista, infelizmente o stalking acaba refletindo isso no nosso dia a dia. Muitos homens não adimitem a vítima não aceitar um relacionamento, não aceitam o término de um relacionamento, então começam a perseguir a vítima, é muito importante que o stalking, essa conduta, seja coibida de pronto, porque ele é um dos crimes que pode fazer parte de um ciclo de violência que tende a se agravar e culminar, muitas vezes, em um homicídio, em um feminicídio, a depender das circunstâncias concretas”, afirma a delegada.

As tentativas de contatos constantes e o medo da perseguição nos lugares que costuma frequentar podem levar a vítima a ter diversos transtornos. O médico e psicólogo Robertos Debski reforça a importância de buscar ajuda para tratar eventuais consequências emocionais. “Ansiedade, estresse, estresse pós-traumático, até desencadear um outro problema como uma depressão, a pessoa se sentir ameaçada. E pode haver realmente ameaças à segurança, à vida. Dependendo da predisposição da pessoa, isso vai deixar um traço maior ou menor de problemas. Se a pessoa sentir realmente, esse problema desencadear uma outra consequência, ela tem que procurar uma ajuda psicológica, muitas vezes fazer uma psicoterapia, para que ela possa novamente se sentir bem e protegida. Claro, isso depois de tomadas as medidas legais”, diz.

O médico lembra que o stalker também pode ser uma pessoa doente. “Quando acredita que o outro tem que obedecer, tem que corresponder obrigatoriamente, é uma pessoa que não tem uma noção do que é um relacionamento saudável, provavelmente já passou pro problemas na infância. Claro, cada pessoa tem que ser avaliada individualmente, mas isso vem de algum lugar, alguma origem, algum trauma que ela pode ter tido. Claro que, reforçando, isso não a exime de responder juridicamente e legalmente por sua atitude. Mas também é uma pessoa doente e que deveria ter algum tratamento”, defende.

*Com informações da repórter Nanny Cox