‘Seria estranho se o Brasil não assumisse essa posição’, diz historiadora sobre ajuda ao Líbano

Em entrevista ao Morning Show, Arlene Clemesha comentou os recentes desdobramentos da crise no Líbano

  • Por Jovem Pan
  • 11/08/2020 11h32
EFE/EPA/NABIL MOUNZERExplosão em Beirute criou caos político no Líbano

A historiadora e diretora do Centro de Estudos Árabes da Universidade de São Paulo (USP) Arlene Clemesha disse, em entrevista ao Morning Show, da Jovem Pan, nesta terça-feira (11), que a ajuda brasileira ao Líbano é muito bem-vinda. Ela destacou as relações entre os dois países e afirmou que a cooperação é normal. “Seria estranho se o brasil não assumisse essa posição”, disse, ressaltando que o Brasil tem cerca de 7 milhões de descendentes de libaneses. Um deles é o ex-presidente Michel Temer, que vai chefiar a missão que sai hoje de São Paulo rumo a Beirute, onde uma explosão causou mais de 100 mortes na semana passada e gerou uma crise que culminou na renúncia do primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, nesta segunda-feira (10).

A crise atual é só mais um capítulo na história tumultuada do Líbano nos últimos anos. Segundo Clemesha, o país tem vivido uma insatisfação da população há muito tempo e os protestos nas ruas já viraram algo cotidiano. Por causa da crise institucional, a própria população vem se organizando para cobrar as autoridades. “O Líbano, por ter esse cenário político muito fragmentado, tem sido um lugar onde organizações da sociedade civil têm surgido”, explicou. “A população tem conseguido superar essa divisão e falar em uma voz única, principalmente nesses momentos de crise”, continuou a historiadora.
Até pelos frequentes protestos e a já costumeira desconfiança da população em relação ao governo, a especialista ressalta que os libaneses não vão comprar qualquer justificativa sobre a explosão da semana passada. “A população não está disposta a aceitar qualquer versão. Estão exigindo uma investigação imparcial”, disse, indicando que os protestos não devem arrefecer enquanto não houver uma resposta para o que aconteceu. “Vai ser difícil encontrar respostas no curto prazo para que a população seja contemplada”, reconheceu Clemesha.

Diante da atual crise, Arlene Clemesha acredita que o grupo Hezbollah, considerado terrorista por alguns países, pode sobreviver. “Se essa atual crise terminar de jogar na lixeira da história os partidos políticos, tem um grupo mais coeso que pode escapar: o Hezbollah. É um grupo com muitos interesses regionais”, disse a historiadora. Ela afirmou que muitos libaneses são contra o grupo, mas a população reconhece que ele cumpriu um papel importante na defesa do país. “Na história recente do Líbano, ele foi aquele que cumpriu uma função no país que ainda é vista pela população importante, de repelir invasões israelenses”, afirmou. “Mesmo que saia escaldado, enfraquecido, ele é dentro do espectro político aquele que tem condições de permanecer junto com a população”, explicou a especialista.