Ana Paula: Decreto contra lockdown que Bolsonaro deseja teria como função proteger Constituição

Falas do presidente sobre pandemia e restrições de circulação foram debatidas por comentaristas do programa ‘Os Pingos Nos Is’ desta quarta-feira, 5

  • Por Jovem Pan
  • 05/05/2021 20h03 - Atualizado em 05/05/2021 20h32
MATEUS BONOMI/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO -22/03/2021Bolsonaro deu declaração sobre lockdown nesta quarta-feira

Em discurso durante cerimônia no Palácio do Planalto nesta quarta-feira, 5, o presidente Jair Bolsonaro falou sobre as manifestações ocorridas no dia 1º de maio e sobre o que chamou de “decretos subalternos”, leis estaduais e municipais que restringem a livre circulação de pessoas durante a pandemia da Covid-19. “É uma satisfação estar à frente de um governo que mais prega e age pela liberdade de imprensa e de informação. Os militares, quando senta um praça, juram dar a vida pela pátria. Os que tiveram às ruas neste último 1º de maio, como muitos outros milhões que não puderam ir para as ruas, tenho certeza que darão a sua vida por liberdade. Ninguém pode ser feliz se não tiver liberdade. Ao contrário do que muitos pensavam, estamos dando exemplo de como defender a nossa liberdade de imprensa, por mais que ela possa ser opositora ao governo. Nas ruas, já se começa a pedir por parte do governo que ele baixe um decreto. Se eu baixar um decreto, vai ser cumprido. Não será contestado por nenhum tribunal. Ele será cumprido. E o que constaria no corpo desse decreto? Constariam os incisos do artigo 5º da Constituição. O Congresso, ao qual integrei, tenho certeza que estará ao nosso lado”, afirmou.

Bolsonaro questionou de onde nasceu a “excrescência para dar poderes a governadores e prefeitos de nos prender dentro de casa, nos condenar à miséria, roubar milhões de empregos e levar famílias ao desespero por não poder trabalhar” e afirmou que pastores e padres passaram a ser vilões no país. Ele também falou sobre o coronavírus, disse que os militares sabem “que a guerra é química, bacteriológica e radiológica” e perguntou qual país mais cresceu o PIB durante a pandemia. O presidente da CPI da Covid-19, Omar Aziz (PSD), afirmou nesta quarta que a declaração de Bolsonaro pode prejudicar o recebimento de insumos para produção de vacinas contra a Covid-19. “A situação nossa em relação aos insumos vai piorar com essa declaração de hoje. Estamos na mão dos chineses para trazer o IFA”, pontuou.

A comentarista do programa “Os Pingos Nos Is”, da Jovem Pan, Ana Paula Henkel, acredita que, se imposto por Bolsonaro, o decreto previsto seria “absurdo”, já que tem como única função proteger a Constituição. “Inacreditável onde chegamos. O presidente de uma nação ter que assinar um decreto exatamente para proteger a Constituição Federal”, afirmou. Ela aponta que no começo de uma pandemia é compreensível que medidas como o isolamento sejam testadas para tentar achatar a curva, mas lembra que o Brasil está estagnado na mesma situação sem resultados concretos por tempo demais. “Mas mais de um ano depois e as nossas liberdades continuam sendo cerceadas e esses decretos tirânicos são embasados em ciência nenhuma. Em dado nenhum”, disse.

Ela não concordou com o posicionamento do senador Omar Aziz sobre a China e lembrou que a desconfiança não vem só do Brasil. “Muita gente criticou hoje essa fala e essa parte do discurso do presidente, mas os Estados Unidos estão ainda investigando se esse vírus foi criado por um homem ou se escapou de um laboratório chinês. Ainda não está certo de maneira alguma na comunidade científica. Isso é uma coisa que a gente não pode criticar o presidente, porque é um ponto que os Estados Unidos falam muito”, afirmou. Para a comentarista, enquanto todos os ônus da pandemia são atribuídos a Bolsonaro, todos os bônus e pontos positivos são ligados aos governos estaduais e prefeituras, o que não é correto.

Confira o programa “Os Pingos Nos Is” desta quarta-feira, 5, na íntegra: