JOVEM PAN

Jovem Pan
TV Ao Vivo
Jornal da Manhã – 2ª Edição | 07h00 - 10h00
Saúde

Endometriose pode deixar marcas além dos órgãos reprodutivos – e a fáscia ajuda a explicar parte da dor

Pesquisas recentes mostram que a endometriose também afeta tecidos conjuntivos e fasciais, ampliando dores, restrições de movimento e impactos na qualidade de vida de muitas mulheres

Brazil Health

endometriose
Ilustração Freepik

A endometriose costuma ser associada apenas ao sistema reprodutivo feminino. Mas, nos últimos anos, a ciência começou a entender que a doença vai muito além das lesões visíveis nos ovários, útero ou cavidade pélvica. Hoje, sabe-se que a endometriose pode provocar alterações profundas em tecidos conjuntivos, aderências internas e processos inflamatórios que repercutem em todo o corpo.

Isso ajuda a explicar por que muitas mulheres continuam sentindo dor intensa mesmo após cirurgias ou
tratamentos hormonais aparentemente bem-sucedidos. Uma das estruturas que mais vêm chamando atenção nesse processo é a fáscia – tecido contínuo que envolve músculos, órgãos, vasos sanguíneos e diferentes estruturas internas do corpo. A relação entre endometriose e sistema fascial vem sendo cada vez mais estudada por pesquisadores da área de dor pélvica e medicina regenerativa.

O que antes era visto apenas como uma doença ginecológica passou a ser compreendido também como uma condição complexa que envolve inflamação crônica, remodelagem tecidual e sensibilização do sistema nervoso.

A endometriose também afeta o tecido conjuntivo

A endometriose ocorre quando células semelhantes às do endométrio crescem fora do útero, provocando inflamação, dor e formação de aderências. Esse processo inflamatório persistente estimula intensa atividade de fibroblastos – células fundamentais do tecido conjuntivo responsáveis pela produção de fibras e pela reparação tecidual.

O problema é que essa resposta pode se tornar desorganizada e excessiva. Com o tempo, ocorre formação de fibrose, aderências e alterações mecânicas nos tecidos da pelve. Na prática, isso significa que estruturas internas podem perder mobilidade natural e passar a gerar tensão contínua no organismo.

Estudos recentes publicados em periódicos internacionais mostram que pacientes com endometriose frequentemente apresentam alterações miofasciais importantes, especialmente na região pélvica, abdominal e lombar. Em muitos casos, o tecido se torna mais rígido, sensível e reativo à dor.

Isso ajuda a entender por que algumas mulheres apresentam dores intensas mesmo quando as lesões da endometriose parecem pequenas nos exames de imagem. A dor, nesses casos, não depende apenas da quantidade de lesões, mas também do impacto funcional e neuromuscular provocado pela doença ao longo do tempo.

Quando a dor ultrapassa a própria lesão

A fáscia possui grande quantidade de terminações nervosas e participa diretamente da percepção corporal e da modulação da dor. Quando existe inflamação persistente e perda de mobilidade tecidual, o sistema nervoso pode entrar em estado de hipersensibilidade.

É por isso que muitas pacientes com endometriose desenvolvem dor pélvica crônica, desconforto durante relações sexuais, dor lombar, prisão de ventre, sensação de tensão abdominal e limitação de movimentos mesmo fora do período menstrual.

Em alguns casos, o corpo permanece em estado contínuo de proteção muscular e fascial, como se estivesse permanentemente “defendendo” a região dolorosa. Esse mecanismo pode gerar alterações posturais, compensações musculares e amplificação progressiva da dor.

Hoje, especialistas em dor crônica reconhecem que a endometriose não deve ser analisada apenas pela
presença de lesões ginecológicas, mas também pelo impacto global sobre tecidos, movimento e sistema
nervoso.

O tratamento precisa ir além da lesão ginecológica

O tratamento da endometriose continua envolvendo acompanhamento ginecológico, controle hormonal, mudanças de estilo de vida e, em alguns casos, cirurgia. Mas cresce o entendimento de que o cuidado precisa ser integrado.

A fisioterapia pélvica e as abordagens fasciais vêm ganhando espaço justamente porque atuam em aspectos frequentemente negligenciados da doença: mobilidade tecidual, aderências, tensão muscular e sensibilização dolorosa.

Dependendo do caso, técnicas manuais, exercícios terapêuticos, mobilidade pélvica, trabalho respiratório e estratégias de reeducação corporal podem auxiliar na redução da dor e na melhora funcional. É importante deixar claro que a abordagem fascial não “cura” a endometriose. No entanto, pode representar um recurso importante dentro de um tratamento multidisciplinar voltado à qualidade de vida da paciente.

Cada mulher vivencia a doença de forma diferente. Por isso, o tratamento precisa ser individualizado e baseado em avaliação médica e funcional adequada. O que a ciência vem mostrando é que a dor da endometriose não está apenas onde a lesão aparece. Muitas vezes, ela se espalha pelos tecidos, pelo movimento e pelo sistema nervoso – e compreender essa conexão pode transformar a forma como cuidamos dessas pacientes.

Monica Schapiro | CREFITO – 423396-F
Fisioterapia
Membro Brazil Health