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Saúde

O que não dizer a uma pessoa autista (ou à sua família): frases comuns quereforçam preconceitos

Comentários considerados normais no dia a dia podem carregar estereótipos, minimizar experiências reais e dificultar a inclusão. Entenda por que frases como “ele nem parece autista” ou “isso é falta de limites” merecem ser repensadas, segundo a psicóloga Sirlene Ferreira

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Dia Mundial da Conscientização do Autismo
Dia Mundial da Conscientização do Autismo Divulgação/Freepik

A prática da psicologia revela diariamente não apenas os desafios do desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas também a realidade vivida por suas famílias. Pais e responsáveis desempenham um papel fundamental no cuidado, na estimulação e na defesa dos direitos de seus filhos. É uma dedicação que exige amor, persistência e uma capacidade impressionante de adaptação.

A rotina dessas famílias costuma ser intensa. Entre consultas médicas, sessões de fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicoterapia, compromissos escolares e o manejo das demandas do dia a dia, muitas vezes sobra pouco espaço para descanso. No entanto, o que frequentemente provoca maior desgaste não é o diagnóstico em si, mas a falta de compreensão da sociedade.

Ainda existe muita desinformação sobre o autismo. Em muitos casos, comentários feitos sem intenção de ofender acabam causando dor porque minimizam experiências reais e reforçam preconceitos. São frases aparentemente inofensivas, mas que carregam julgamentos e desconsideram os desafios enfrentados por pessoas autistas e suas famílias.

“Mas ele nem parece autista”

Essa é uma das frases mais comuns ouvidas por pessoas autistas e seus familiares. Embora muitas vezes seja dita como um elogio ou demonstração de surpresa, ela revela um equívoco bastante difundido: a crença de que o autismo possui uma aparência específica.

O autismo não apresenta características físicas que permitam identificá-lo visualmente. A ideia de que existe uma aparência típica para pessoas autistas foi construída por estereótipos difundidos ao longo de décadas em filmes, séries e representações limitadas da condição.

Além disso, muitas pessoas autistas desenvolvem estratégias de adaptação social conhecidas como masking ou mascaramento. Trata-se de um esforço constante para reproduzir comportamentos socialmente esperados, esconder desconfortos e minimizar características que possam gerar rejeição.

O resultado pode ser um elevado nível de exaustão emocional. Quando alguém afirma que uma pessoa “não parece autista”, acaba ignorando justamente esse esforço invisível e toda a complexidade que existe por trás dele.

“Hoje em dia todo mundo é um pouco autista”

Outra frase bastante recorrente é a ideia de que todos teriam algum grau de autismo. Embora pareça uma tentativa de aproximação, essa afirmação costuma gerar indignação entre autistas, familiares e profissionais da área.

O autismo não é um traço de personalidade nem uma simples preferência comportamental. Gostar de rotina, ser tímido ou preferir ambientes tranquilos não torna alguém autista. O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, a interação social e o processamento de estímulos. Seus impactos são reais e podem influenciar diversas áreas da vida.

Quando o autismo é reduzido a características comuns do cotidiano, corre-se o risco de banalizar a
experiência de milhões de pessoas e enfraquecer a compreensão sobre a importância da acessibilidade, do suporte adequado e das políticas de inclusão.

“Isso é falta de limites. O que ele precisa é de disciplina”

Talvez esta seja uma das frases mais dolorosas para muitos pais e responsáveis.

Quem observa uma criança autista em crise sem compreender o contexto pode interpretar equivocadamente a situação. O que muitas pessoas classificam como birra ou desobediência frequentemente é uma sobrecarga sensorial intensa, conhecida como meltdown.

Nesses momentos, a criança não está tentando desafiar os adultos. Ela está enfrentando uma situação de sofrimento real diante de estímulos que seu cérebro não consegue processar adequadamente. Luzes fortes, sons altos, ambientes lotados ou mudanças inesperadas podem desencadear crises emocionais e físicas.

Quando pais e responsáveis recebem olhares de reprovação ou comentários sobre sua capacidade de educar os filhos, o sentimento é de isolamento. Muitas famílias acabam evitando espaços públicos por medo do julgamento, reduzindo ainda mais as oportunidades de convivência e inclusão social.

“Mas ele fala, estuda, trabalha… então não pode ser autista”

Outra ideia bastante presente no imaginário popular é a de que pessoas autistas necessariamente apresentam grandes limitações na comunicação ou na autonomia.

Essa visão ignora a diversidade existente dentro do espectro. Muitas pessoas autistas estudam,
trabalham, têm amigos, relacionamentos e levam uma vida aparentemente independente. Isso não
significa que deixem de enfrentar desafios importantes.

Em muitos casos, existe um esforço contínuo de adaptação social, controle sensorial e gerenciamento emocional que não é percebido por quem está de fora. A aparência de funcionalidade não elimina as necessidades de apoio nem invalida o diagnóstico.

A inclusão começa pelas palavras

Mais do que conhecimento técnico, a inclusão exige sensibilidade humana. Ela não acontece apenas por meio de leis, adaptações escolares ou atendimentos especializados. A inclusão também se constrói nas palavras que escolhemos e na forma como nos relacionamos com quem vive uma realidade diferente da nossa.

Em vez de julgamentos precipitados, podemos desenvolver uma curiosidade respeitosa. Em vez de frases prontas, podemos fazer perguntas genuínas. Perguntar sobre os interesses da criança, sobre suas habilidades ou sobre a melhor forma de interagir demonstra acolhimento e respeito.

As famílias de pessoas autistas não precisam de críticas disfarçadas de conselho. Precisam de apoio, compreensão e empatia. A qualidade de vida dessas famílias está diretamente relacionada à rede de acolhimento que conseguem construir ao seu redor.

O respeito começa quando deixamos de minimizar a experiência do outro para torná-la mais confortável à nossa visão de mundo. E a inclusão verdadeira nasce justamente desse movimento de escuta, compreensão e reconhecimento das diferenças.

Sirlene Ferreira – CRP 06/64773
Psicóloga clínica e mãe neurodivergente