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Saúde

Tech Neck: a dor no pescoço é realmente culpa do celular?

O aumento do tempo diante das telas coincidiu com a alta prevalência de dor cervical. Entender essa relação, porém, exige olhar além da postura

Brazil Health

Dor no pescoço
Dor no pescoço Magnific

Se alguém observasse a humanidade há cinquenta anos e depois voltasse hoje, provavelmente perceberia uma mudança curiosa: milhões de pessoas caminham pelas ruas, sentam-se em restaurantes, esperam elevadores ou atravessam aeroportos com a cabeça inclinada para baixo. O olhar está fixo em uma tela.

O fenômeno é tão comum que já ganhou um nome próprio. “Tech Neck”, ou “pescoço tecnológico”, tornou-se a expressão utilizada para descrever dores, desconfortos e alterações associadas ao uso prolongado de smartphones, tablets e computadores.

Mas será que estamos diante de uma nova epidemia causada pela tecnologia? Ou o assunto tem sido simplificado demais?

A resposta está em algum lugar entre os dois extremos.

É verdade que nunca passamos tanto tempo diante de telas. Dados globais mostram que adultos permanecem conectados por várias horas diariamente, seja por trabalho, estudo, lazer ou comunicação.

Paralelamente, a dor cervical tornou-se uma das condições musculoesqueléticas mais prevalentes do mundo, afetando milhões de pessoas e gerando impacto significativo na qualidade de vida e na produtividade.

A coincidência entre esses dois fenômenos chamou a atenção de pesquisadores.

Celular causa dor? O que a ciência realmente diz

Estudos recentes demonstram associação entre o uso excessivo de smartphones e maior prevalência de dor cervical. Quanto maior o tempo de exposição, maior tende a ser o relato de desconforto, rigidez e fadiga muscular na região do pescoço e dos ombros.

No entanto, existe um detalhe frequentemente ignorado nas redes sociais: associação não significa causalidade.

A ideia de que o simples ato de olhar para o celular seria suficiente para “estragar a coluna” não encontra respaldo científico robusto.

A ciência atual tem mostrado algo muito mais interessante. O problema não parece ser apenas a posição da cabeça. O problema é o contexto em que essa posição ocorre.

Quando uma pessoa permanece horas sentada, movimenta-se pouco, dorme mal, apresenta baixo condicionamento físico e acumula níveis elevados de estresse, o sistema musculoesquelético passa a lidar com uma carga muito maior.

Nesse cenário, o pescoço frequentemente se transforma no elo mais vulnerável da corrente.

Por isso, a pergunta mais importante talvez não seja “qual é a postura correta?”, mas “quanto tempo passamos sem nos movimentar?”.

Como reduzir a dor sem largar as telas

Durante décadas, acreditou-se que existiria uma postura ideal capaz de prevenir dores. Hoje, a literatura científica caminha em uma direção diferente. O corpo humano parece tolerar muito bem diferentes posturas. O que ele tolera menos é a ausência de variação.

Em outras palavras, permanecer imóvel por horas pode ser mais problemático do que adotar uma posição considerada imperfeita por alguns minutos.

Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que tantas pessoas desenvolvem sintomas apesar de tentarem manter uma postura considerada adequada, enquanto outras passam anos trabalhando em posições aparentemente desfavoráveis sem apresentar dor significativa.

O organismo humano não funciona como uma máquina composta apenas por alavancas e engrenagens. Fatores emocionais, qualidade do sono, nível de atividade física, capacidade muscular e até mesmo a forma como interpretamos sinais corporais influenciam a experiência da dor.

Isso não significa que a postura seja irrelevante. Significa apenas que ela é uma peça de um quebra-cabeça muito maior.

A boa notícia é que as soluções também são mais simples do que muitos imaginam.

Elevar a tela à altura dos olhos, interromper períodos prolongados sentado, realizar pausas regulares, fortalecer a musculatura cervical e escapular, praticar atividade física e cuidar do sono estão entre as estratégias mais eficazes para reduzir o risco de dor cervical relacionada ao uso de tecnologia.

Nenhuma delas exige abandonar o celular. Afinal, a tecnologia não é a inimiga; ela se tornou uma extensão da vida moderna.

O desafio contemporâneo não é viver sem telas. É impedir que as telas nos façam esquecer que continuamos habitando um corpo que precisa se mover.

Talvez essa seja a principal lição por trás do chamado Tech Neck.

O futuro da saúde cervical não depende de encontrar a postura perfeita. Depende de recuperar um hábito muito mais antigo do que qualquer smartphone: “o movimento”.

Prof. João Douglas Gil – CREFITO 3-13198

Fisioterapeuta

Head Nacional da Fisioterapia da Brazil Health

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