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Eliseu Caetano

França contabiliza destruição após saques e incêndios; Vance culpa imigração

Cerca de 1.800 pessoas foram detidas e mais de 500 policiais e bombeiros ficaram feridos; ataques atingiram lojas e prédios públicos, incluindo a prefeitura histórica de Limoges

Eliseu Caetano

Um manifestante atira um sinalizador de fumaça em direção aos xandarmas franceses durante uma demonstração em protesto contra o "alto custo de vida", em Bordéus, no sudoeste da França, em 17 de outubro de 2026, como parte de uma convocação nacional de mobilização que reúne vários grupos expressando sua indignação: ex-integrantes dos "Coletes Amarelos", estudantes do ensino médio e universitários, ativistas climáticos e até mesmo agricultores.
Um manifestante atira um sinalizador de fumaça em direção aos xandarmas franceses durante uma demonstração em protesto contra o "alto custo de vida", em Bordéus, no sudoeste da França, em 17 de outubro de 2026, como parte de uma convocação nacional de mobilização que reúne vários grupos expressando sua indignação: ex-integrantes dos "Coletes Amarelos", estudantes do ensino médio e universitários, ativistas climáticos e até mesmo agricultores. Christophe ARCHAMBAULT / AFP)

A França começou neste domingo (18) a contabilizar os prejuízos dos saques, incêndios e confrontos que acompanharam as manifestações de sábado contra o custo de vida e os problemas nos serviços públicos. O balanço provisório divulgado pelo ministro do Interior, Laurent Nuñez, aponta cerca de 1.800 detidos e mais de 500 policiais, integrantes da gendarmaria e bombeiros feridos.

Uma pessoa morreu após sofrer uma parada cardíaca durante as manifestações em Paris. Somente na capital, a polícia informou 855 detenções. Na noite de sábado, o governo havia apresentado um levantamento inicial de aproximadamente 1.200 detidos e 150 policiais feridos.

O Ministério do Interior estimou a participação de 550 mil pessoas nos atos pelo país. A central sindical CGT calculou 800 mil. A maioria marchou pacificamente, mas grupos atacaram prédios públicos, estabelecimentos comerciais e forças de segurança em cidades como Paris, Lyon, Marselha, Bordeaux e Limoges.

Policiais utilizaram gás lacrimogêneo e canhões de água contra pessoas que lançavam objetos e fogos de artifício. Os ataques também atingiram áreas comerciais afastadas dos trajetos autorizados para as passeatas.

Ataques a lojas

Em Paris, grupos tentaram invadir a Galeries Lafayette, na região dos grandes magazines, por volta das 20h de sábado. A tentativa de entrada foi frustrada. Em Bordeaux, as vitrines de outra unidade da rede foram quebradas.

Na capital, supermercados e lojas de roupas, cosméticos e telefonia foram saqueados. Em um estabelecimento da operadora SFR, pessoas que estavam dentro da loja arremessaram aparelhos para outras que aguardavam do lado de fora. Uma concessionária Kawasaki foi incendiada.

Bordeaux também registrou ataques a estabelecimentos como Apple Store, Decathlon, Intersport, Nocibé e Snipes. A residência oficial da representante do governo na região foi invadida e depredada. O RAID, unidade de intervenção da polícia francesa, foi mobilizado.

Em Marselha, um grupo entrou na prefeitura, danificou televisores e derrubou um busto de Marianne, símbolo da República Francesa. Um posto da polícia municipal também foi atacado. Em Lyon, um incêndio atingiu o centro de informações turísticas da praça Bellecour.

Prefeitura histórica incendiada

Um dos episódios mais graves ocorreu em Limoges, no centro do país. Segundo as autoridades regionais, pessoas encapuzadas entraram na prefeitura por volta das 18h de sábado e atearam fogo ao edifício.

Imagens mostraram o desabamento da torre sobre o telhado em chamas. A sede municipal ficou em grande parte destruída. Inaugurado em 1883, o prédio tinha 143 anos e integrava o patrimônio histórico da cidade.

Neste domingo, equipes trabalham na limpeza das ruas, na avaliação dos danos e na identificação dos responsáveis pelos ataques.

Vance culpa imigração

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, compartilhou imagens do incêndio em Limoges e atribuiu a violência às políticas migratórias e a problemas de integração.

Em uma publicação no X, Vance acusou progressistas ocidentais de levar populações de países pobres para a França e outras nações em nome da diversidade, sem considerar as consequências. “Eles ignoraram questões fundamentais de assimilação e compatibilidade”, escreveu.

O vice-presidente também relacionou as cenas à política americana e acusou parlamentares democratas de desejar um cenário semelhante para os Estados Unidos.

Vance não apresentou dados sobre a nacionalidade ou a situação migratória dos envolvidos. Os balanços divulgados pelas autoridades francesas também não estabelecem uma relação entre imigração e os ataques.

Na França, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu responsabilizou grupos de extrema esquerda e criminosos. “Não vamos nos deixar intimidar”, declarou.

O presidente Emmanuel Macron prometeu responsabilizar os autores das depredações. O governo também anunciou apoio aos comerciantes atingidos.

Protestos em outros países

Outros países europeus registraram manifestações no sábado. Na Bélgica, centenas de pessoas participaram de um ato em Bruxelas, onde houve confrontos com a polícia.

Na Itália, ocorreram mobilizações em cidades como Milão e Bolonha. Em Portugal, manifestantes foram às ruas de Lisboa para cobrar melhores salários, aposentadorias, serviços públicos e acesso à moradia.

Na Albânia, as reivindicações incluíram o combate à corrupção, empregos e melhorias na educação. Os atos tiveram pautas próprias, embora compartilhassem críticas às condições de vida.

Como a mobilização começou

A mobilização estudantil que ajudou a impulsionar os atos de sábado ganhou força em setembro, após o início do ano letivo francês. Um dos principais focos foi o liceu Saint-Exupéry, em Créteil, na região metropolitana de Paris, onde alunos e professores protestaram contra a falta de profissionais e de recursos.

Na segunda metade de setembro, os bloqueios se espalharam pela região parisiense e chegaram a outras partes do país. As reivindicações incluíam prédios deteriorados, turmas superlotadas, falta de professores e dificuldades relacionadas ao Parcoursup, plataforma de ingresso no ensino superior. Universitários também aderiram à mobilização.

Paralelamente, uma convocação para protestar em 17 de outubro circulava nas redes sociais. Um vídeo publicado no TikTok em 7 de setembro ajudou a divulgar a data, com referências ao preço dos combustíveis e aos coletes amarelos, movimento que surgiu em 2018.

A convocação ganhou apoio de representantes dos coletes amarelos, sindicatos e outros grupos. As reivindicações dos estudantes se somaram às cobranças contra o custo de vida, ampliando a participação na jornada nacional de protestos de sábado.

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