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Saúde

Como o cansaço frequente das novas tecnologias afetam o coração

Nunca estivemos tão conectados, tão informados e tão ocupados. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que vivem cansadas, ansiosas e em permanente estado de alerta. A medicina começa a compreender melhor como esse desgaste contínuo afeta o coração

Brazil Health

Mulher mexe no celular na cama
Mulher mexe no celular na cama Magnific

Acordamos com o celular ao lado da cama. Antes mesmo de levantar, já verificamos mensagens, notícias, e-mails e compromissos do dia. Ao longo das horas seguintes, alternamos entre reuniões, notificações, cobranças profissionais, preocupações financeiras, responsabilidades familiares e uma quantidade de estímulos que nenhuma geração anterior precisou processar de forma tão intensa.

Quando finalmente chega a noite, o corpo está parado, mas a mente continua acelerada. Para muitas pessoas, esse estado deixou de ser uma exceção. Tornou-se o modo padrão de funcionamento.

Nos consultórios, é cada vez mais comum encontrar pacientes que não apresentam necessariamente uma doença cardíaca diagnosticada, mas relatam palpitações, sensação de aperto no peito, cansaço persistente, dificuldade para dormir, ansiedade constante e uma sensação de esgotamento que parece não desaparecer nem após férias ou períodos de descanso.

A pergunta que a medicina vem tentando responder é: o que acontece com o coração quando o organismo permanece em alerta por tempo demais?

O corpo foi feito para lidar com ameaças temporárias

O estresse não é um inimigo. Na verdade, ele faz parte da nossa sobrevivência. Diante de uma situação desafiadora, o organismo libera hormônios como adrenalina e cortisol. A frequência cardíaca aumenta, a pressão arterial sobe temporariamente e o corpo entra em um estado de prontidão conhecido como resposta de luta ou fuga. Esse mecanismo foi fundamental ao longo da evolução humana. O problema é que ele foi projetado para durar minutos ou horas, não meses ou anos.

Hoje, muitas das ameaças que enfrentamos não são físicas. São prazos, notificações, preocupações, excesso de informação, insegurança financeira, conflitos interpessoais e cobranças constantes.

O organismo, porém, responde de maneira semelhante. A diferença é que, em vez de voltar rapidamente ao equilíbrio, ele permanece ativado por períodos prolongados. É como dirigir um carro com o acelerador parcialmente pressionado o tempo todo.

A hiperconectividade mudou a forma como descansamos

Um dos aspectos mais estudados atualmente é o impacto da hiperconectividade sobre a saúde. Durante grande parte da história humana existiam momentos claros de desconexão. O trabalho terminava. As notícias demoravam a chegar. As interações sociais possuíam limites físicos.

Hoje, o cérebro recebe estímulos praticamente sem interrupção.

Mesmo nos momentos de lazer, muitas pessoas continuam acompanhando mensagens profissionais, redes sociais, notícias e conteúdos que mantêm o sistema nervoso em estado de vigilância.

Estudos publicados em revistas como Circulation e European Heart Journal mostram que estresse crônico, ansiedade persistente e privação de descanso estão associados a alterações fisiológicas importantes, incluindo aumento da pressão arterial, maior atividade inflamatória, alterações metabólicas e mudanças no funcionamento do sistema nervoso autônomo, responsável por regular os batimentos cardíacos.

Isso ajuda a explicar por que tantas pessoas relatam sintomas cardiovasculares mesmo sem apresentar inicialmente uma doença cardíaca estrutural.

Existe uma diferença entre estresse e desgaste contínuo

Nem todo estresse é prejudicial. Receber uma notícia inesperada, enfrentar uma apresentação importante ou lidar com um desafio profissional faz parte da vida. O organismo costuma ser capaz de se recuperar adequadamente após esses eventos.

O problema surge quando não existe recuperação. A medicina tem utilizado cada vez mais conceitos relacionados à carga alostática, um termo que descreve o desgaste acumulado provocado pela exposição prolongada ao estresse físico e emocional. Em outras palavras, não é apenas o evento estressante que importa. É o tempo que o organismo permanece tentando se adaptar a ele.

Quando essa adaptação se prolonga excessivamente, surgem alterações que afetam não apenas o coração, mas também o sono, a imunidade, o metabolismo, a saúde mental e a capacidade de recuperação do corpo.

A sensação de exaustão constante que tantas pessoas relatam atualmente não é apenas uma impressão subjetiva. Muitas vezes ela reflete processos biológicos reais. Por isso, o cuidado cardiovascular moderno vai muito além do controle do colesterol e da pressão arterial.

A ciência tem mostrado que atividade física, sono de qualidade, momentos de lazer genuíno, vínculos sociais saudáveis e estratégias de manejo do estresse não são apenas ferramentas para melhorar o bem-estar. São componentes importantes da proteção cardiovascular.

Talvez uma das maiores ameaças ao coração contemporâneo não seja apenas aquilo que fazemos em excesso, mas aquilo que deixamos de fazer: descansar, desacelerar e permitir que o organismo retorne ao equilíbrio.

Em uma geração que aprendeu a estar sempre disponível, recuperar a capacidade de desconectar-se pode ser uma das atitudes mais importantes para a saúde do coração.

Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore – CRM/24264 | RQE 69372
Cardiologia Livre-docente pela FMUSP
Membro Brazil Health