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Eliseu Caetano

Milhares de imigrantes perderão hoje status de proteção migratória nos EUA

O governo Trump argumenta que o TPS passou a ser usado como uma forma de permanência prolongada nos Estados Unidos, contrariando o caráter temporário previsto na legislação

Eliseu Caetano

Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, gesticula enquanto fala durante uma coletiva de imprensa de fim de ano na Sala de Imprensa do Departamento de Estado, em Washington
Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, gesticula enquanto fala durante uma coletiva de imprensa de fim de ano na Sala de Imprensa do Departamento de Estado, em Washington MANDEL NGAN / AFP

Centenas de milhares de imigrantes perderam nesta segunda-feira (27) a proteção migratória temporária que lhes permitia viver e trabalhar legalmente nos Estados Unidos. A medida, autorizada pela Suprema Corte no mês passado, representa uma das maiores mudanças na política imigratória do segundo governo Donald Trump e atinge principalmente cerca de 350 mil haitianos beneficiários do Temporary Protected Status (TPS).

Com o fim do TPS para esse grupo, os beneficiários deixam de ter autorização de trabalho e passam a ficar sujeitos à abertura de processos de deportação pelo Departamento de Segurança Interna (DHS), caso não possuam outro status migratório válido.

O programa de TPS foi criado pelo Congresso americano em 1990, durante o governo de George H. W. Bush. O objetivo era oferecer proteção temporária a cidadãos de países afetados por guerras, desastres naturais ou outras crises humanitárias graves, impedindo a deportação enquanto essas condições persistissem. O benefício, porém, nunca representou um caminho automático para a residência permanente ou cidadania.

O governo Trump argumenta que o TPS passou a ser usado como uma forma de permanência prolongada nos Estados Unidos, contrariando o caráter temporário previsto na legislação.

Segundo a administração, muitos beneficiários entraram no país de forma irregular ou chegaram com vistos de estudante ou turismo e, posteriormente, migraram para o TPS, permanecendo por muitos anos graças às sucessivas renovações concedidas por governos anteriores.

Em nota, o Departamento de Segurança Interna afirmou que está “cumprindo a lei e retomando o bom senso” ao encerrar as proteções.

Especialistas alertam que o fim do TPS pode provocar falta de mão de obra em diversos setores da economia americana. Grande parte dos beneficiários trabalha em áreas como saúde, hotéis, restaurantes, limpeza, construção civil e serviços. Hospitais, casas de repouso e empresas já demonstram preocupação com a perda de milhares de funcionários autorizados a trabalhar legalmente.

Organizações empresariais, lideradas pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos, pediram ao Congresso que intervenha para preservar o programa. Em carta enviada ao Senado, a entidade afirmou que o fim do TPS poderá causar uma “interrupção significativa na força de trabalho americana” e provocar uma crise humanitária desnecessária.

No sul da Flórida, onde vive a maior comunidade haitiana dos Estados Unidos, autoridades locais também criticaram a decisão. O condado de Miami-Dade argumenta que o encerramento do programa terá impactos econômicos diretos para a região.

Suprema Corte deu sinal verde para o fim do programa

No fim de junho, a Suprema Corte decidiu, por 6 votos a 3, que os tribunais federais não podem impedir o governo de encerrar a designação de TPS para um país. A decisão permitiu que a administração Trump prosseguisse imediatamente com o cancelamento das proteções para haitianos e sírios, enquanto outras ações judiciais continuam tramitando.
Nas últimas semanas, recursos apresentados por organizações de defesa dos imigrantes chegaram a adiar por alguns dias o encerramento do programa, mas a proteção expirou definitivamente nesta segunda-feira.

Haitianos enfrentam dilema

Para milhares de haitianos, a decisão cria um impasse. Permanecer nos Estados Unidos significa correr o risco de ser detido e deportado. Voltar ao Haiti, por outro lado, significa retornar a um país que continua enfrentando uma grave crise de segurança.

Desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, o Haiti vive sob forte instabilidade. Facções criminosas controlam grande parte da capital Porto Príncipe, enquanto a violência provocou o deslocamento interno de mais de um milhão de pessoas. O país também enfrenta grave crise econômica e insegurança alimentar, segundo organismos internacionais.

Em meio à incerteza, muitos beneficiários afirmam temer a separação das famílias e a perda dos empregos. Há casos de imigrantes que vivem nos Estados Unidos há mais de uma década, têm filhos americanos e nunca mais reconstruíram vínculos familiares no Haiti.

O encerramento do TPS para os haitianos pode abrir caminho para o fim das proteções concedidas a beneficiários de outros países nos próximos meses. Entre eles estão salvadorenhos, hondurenhos e cidadãos de outras nações que permanecem nos Estados Unidos sob o mesmo programa humanitário e aguardam novas decisões do governo federal.

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