JOVEM PAN

Jovem Pan
TV Ao Vivo
Morning Show | 10h00 - 12h00
Brasil

Carnaval de rua de SP cresce, mas ainda esbarra em problemas de estrutura

Blocos reclamam de falta de diálogo, enquanto prefeitura comemora os números da festa na capital paulista

Fernando Keller

Carnaval
BLOCO ACADÊMICOS DO BAIXO AUGUSTA RODILEI MORAIS/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

O Carnaval de rua de São Paulo enfrenta problemas no ano de 2026. Com o crescimento no número de blocos que surgiram na cidade, surgem questões sobre a organização e o preparo da metrópole para lidar com a folia.

Os organizadores dos blocos reclamam do trato que a prefeitura tem dado aos cortejos, principalmente da falta de comunicação. Gustavo Leman, organizador do Bloco Tatuapé, comentou o assunto.

“O que falta é diálogo com a gente. A gente sabe que consegue colaborar muito. Como a gente fazia na gestão do Bruno Covas. Tinha acesso”. Ele também comentou que esses blocos estão nas ruas faz anos, e eles sabem o que funciona ou não, mas que a comunicação é muito difícil. “O que a gente não quer é virar coadjuvante”, disse Leman.

Leman também afirmou que diversos blocos na Zona Leste, inclusive outro que ele administra, o Bloco Tatuzinho Kids, bloco infantil, ficou sem banheiros químicos, que é de responsabilidade da prefeitura. A reportagem procurou a SPTuris, empresa de turismo em que a prefeitura é sócia majoritária, sobre essa questão e aguarda resposta. A companhia é responsável pelo Carnaval de rua em São Paulo.

Zé Cury, coordenador do Fórum de Blocos, apontou a falta de organização da administração de Ricardo Nunes (MDB). “Essa administração para o lado cultural do carnaval da cidade, zero esquema”, disse.

Os dois coordenadores também questionaram os valores repassados pela prefeitura para os blocos. “Eu não posso dizer que a Prefeitura fomenta o Carnaval”.  Segundo o Cury, os 100 blocos beneficiados, recebem no máximo R$ 25 mil.

“A prefeitura trabalha com números a favor dela para engrandecer a atividade. E os blocos trabalham com prejuízo”, disse. “A impressão que dá é que a gente virou funcionário não remunerado da prefeitura”, afirmou Leman.

Os blocos com mega atrações com artistas internacionais também são preocupações dos organizadores, inclusive o que trouxe Calvin Harris no último domingo. “Esse bloco do rapaz escocês foi anunciado dois meses depois que as inscrições de blocos acabaram,” disse Cury, que também questionou a realização do evento. Leman acredita que esse tipo de ação está afastando o publico de blocos mais tradicionais.

“Isso não é um bloco de Carnaval. É um trio elétrico porque é um sistema de som ambulante, mas ele não é”, completou. Cury também observou que o tipo de fechamento das ruas, feitas com grades, é uma “bestialidade”, e sugeriu que o método usado no carnaval de Salvador, em que as ruas são fechadas com tapumes, deveria ser adotado.

“O prefeito criou uma gaiola de luta livre, com a pancadaria liberada e com os inocentes sendo esmagados pelo deslocamento da multidão que não quer participar”, disse.

O horário da dispersão dos blocos também tem sido um ponto comum de reclamação. “Economicamente falando não é interessante”, diz Leman. “O que a gente entende é que essa gestão faz é querer liberar a via às 19h a qualquer custo”, completou.

“Tudo isso pode dar certo no horário e pode atrasar. Então, três horas para duas multidões dispersarem era muito pouco. Já era tragédia anunciada”, disse Cury em relação à confusão de domingo.

Falta de organização e estrutura

A organização da estrutura é o principal problema que a prefeitura tem que resolver, segundo o professor de arquitetura e urbanismo do Mackenzie Valter Caldana.

Ele indicou que a prefeitura teria capacidade e conhecimento o suficiente para lidar com grandes massas, com, por exemplo, em finais de campeonato de futebol, que a confusão que ocorreu na Rua Augusta no último domingo, quando dois grandes blocos se encontraram, poderia, talvez, ser evitada.

Caldana também falou sobre a diferenciação entre as expressões populares culturais da cidade e eventos patrocinados com outras grandes atrações, que poderiam ser realocadas para evitar o grande número pessoas no mesmo local, assim como os organizadores.

“A junção do Baixo Augusta com o show do DJ [Calvin Harris] é o que aparentemente gerou o problema. Aí cabe a pergunta: Será que o DJ deveria estar na Consolação?”, questionou. Também sugeriu que a ação poderia ter ocorrido em outro local, com o Vale do Anhangabaú ou na Avenida Paulista.

“Essas hipóteses não foram consideradas até as últimas consequências”, disse. O escoamento das pessoas durante a passagem dos blocos foi indicado com ponto de melhoria, principalmente nas vias que são fechadas para a passagem do público.

“O tipo de controle desses nós, desses cruzamentos, vai precisar certamente ser melhor definido por quem é responsável por isso para que esse seja mais ligado a controle, do que simples fechamento”. Para o arquiteto, a cidade passa por um período de adaptação ao aglomerado de blocos em São Paulo.

“Precisamos tomar cuidado para não mercantilizar tudo e priorizar o aspecto mercantil. Continua sendo fundamentante uma expressão cultural”, terminou.

“Sucesso”, diz Nunes

O prefeito Ricardo Nunes (MDB), afirmou que o primeiro fim de semana do pré-carnaval foi um “sucesso”. Mesmo com os tumultos e a superlotação dos dois megablocos que aconteceram em horários parecidos na região da Consolação.

Houve diversos foliões que passaram mal, e as grades de proteção foram derrubadas. ‘Se considerarmos a quantidade de pessoas e as poucas ocorrências, a conclusão é que foi um sucesso”, disse Nunes em entrevista à GloboNews.

 

Ver esta publicação no Instagram

 

Uma publicação partilhada por Jovem Pan NEWS (@jovempannews)

A Prefeitura afirmou no dia que “o recorde de público em bloco na Rua da Consolação fez com que a administração liberasse as vias de acesso como áreas de escape e também determinou a retirada de gradis para melhorar a mobilidade dos foliões”.