Empresa de fachada que comprou R$ 13 mi por R$ 1 mi está no nome do irmão de Ciro
A CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda. não tem nenhum funcionário registrado. Seu endereço formal é o mesmo de outra empresa do grupo familiar do senador Ciro Nogueira (PP-PI), a Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas Ltda., esta sim fisicamente instalada no local. As informações constam da decisão do ministro André Mendonça, do STF, assinada na véspera da operação, em 6 de maio, e obtida pela Jovem Pan.
Apesar da estrutura mínima, a CNLF protagonizou uma das operações financeiras mais suspeitas da investigação que levou a PF à porta do senador nesta quinta-feira (7): adquiriu 30% da Green Investimentos S.A. por R$ 1 milhão, quando o valor de mercado da fatia era de aproximadamente R$ 13 milhões, segundo avaliação registrada pela própria empresa alienante junto à Comissão de Valores Mobiliários.
A decisão destaca que o deságio não era acidental. A compra foi mantida sob a forma de um “contrato de gaveta”, instrumento particular que contornava restrições do acordo de acionistas e evitava a supervisão regulatória. O objetivo, segundo os investigadores, era assegurar a percepção de dividendos “sem que a operação ingressasse no radar de eventuais mecanismos de fiscalização”, conforme orientação atribuída ao próprio Vorcaro.
O negócio se mostrou extraordinariamente lucrativo. A Green Investimentos detinha participação na Trinity Energias Renováveis S.A., que distribuiu R$ 12 milhões em dividendos entre seus acionistas em um único exercício. A fatia adquirida pela CNLF gerou rendimentos de aproximadamente R$ 720 mil já no segundo ano, valor que se aproximava, sozinho, do total pago pela aquisição. O investimento de R$ 1 milhão se pagaria em menos de dois anos, enquanto o ativo real valia treze vezes mais.
A empresa estava formalmente no nome de Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador, embora seu nome já constasse do contrato original de abril de 2024, meses antes de assumir oficialmente o posto em dezembro do mesmo ano. Para Mendonça, a posição de Raimundo não é acidental: ele é descrito na decisão como agente voltado a “conferir forma jurídica e cobertura documental” à operação apontada como mecanismo dissimulado de transferência de vantagem econômica ao núcleo político investigado. Por isso, além de proibido de contatar outros investigados, o irmão do senador foi submetido a monitoração eletrônica e impedido de deixar o município onde reside ou o país.
Mendonça classifica a CNLF não como uma empresa regular, mas como “extensão da organização criminosa, destinada à ocultação, circulação e formalização aparente de recursos de origem ilícita” e determinou a suspensão imediata de suas atividades por tempo indeterminado.
Em nota, a defesa de Ciro Nogueira negou qualquer irregularidade em sua atuação parlamentar e afirmou que ele não teve participação em atividades ilícitas ou nos fatos investigados. Os advogados também disseram que o senador está à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos e criticaram as medidas da operação, classificando-as como graves e baseadas apenas em troca de mensagens de terceiros.
A Jovem Pan não conseguiu localizar a defesa de Raimundo Neto. O espaço está aberto para manifestação.
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Bruno Pinheiro
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