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Davis Alves

Alerta sobre “pig butchering” aumenta após caso de criptofraude de US$ 16 milhões

Um caso divulgado recentemente pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos ajuda a demonstrar a dimensão desse problema

Davis Alves

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Criptofraude acende alerta Pierre Borthiry - Peiobty

Imagine conhecer alguém pela internet, conversar durante semanas ou meses e, aos poucos, desenvolver uma relação de confiança. Essa pessoa parece conhecer o mercado financeiro, comenta casualmente sobre investimentos que deram certo e, em algum momento, apresenta uma oportunidade aparentemente segura de ganhar dinheiro com criptomoedas.

Você investe uma pequena quantia. O aplicativo mostra lucro. Faz um novo aporte. O saldo aumenta novamente. Tudo parece funcionar perfeitamente, até o dia em que você tenta retirar o dinheiro. Essa é a lógica por trás de um dos golpes digitais mais preocupantes dos últimos anos: o chamado pig butchering, expressão utilizada para descrever fraudes nas quais criminosos desenvolvem relacionamentos com suas vítimas antes de convencê-las a realizar investimentos cada vez maiores.

Um caso divulgado recentemente pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos ajuda a demonstrar a dimensão desse problema. Um cidadão vietnamita de 37 anos foi acusado de lavagem de dinheiro por sua suposta participação em uma estrutura relacionada a esse tipo de fraude. Segundo as autoridades norte-americanas, uma única vítima transferiu aproximadamente US$ 16 milhões em criptomoedas, acreditando estar investindo em uma plataforma chamada “Triangle”.

O valor impressiona, mas talvez a parte mais importante dessa história esteja na maneira como o dinheiro foi movimentado. Segundo a acusação, uma transferência de mais de US$ 569 mil foi rastreada até uma carteira relacionada ao acusado. Pouco depois do recebimento dos recursos, aproximadamente US$ 568 mil teriam sido movimentados em quatro transações para uma carteira privada não hospedada. Essa velocidade é fundamental para compreender o desafio enfrentado pelas autoridades.

Criptomoedas deixam registros em blockchain, mas isso não significa que recuperar recursos seja simples. Criminosos podem transferir valores entre diferentes carteiras, utilizar serviços intermediários, misturar recursos e abandonar estruturas mais centralizadas para dificultar a identificação de quem efetivamente controla determinado endereço.

O próprio Departamento de Justiça afirma que, entre fevereiro de 2018 e dezembro de 2024, carteiras associadas ao acusado receberam aproximadamente US$ 53,2 milhões em criptoativos provenientes de esquemas de fraude eletrônica direcionados a cidadãos norte-americanos. Quase todo esse valor teria sido posteriormente transferido para outras contas. É importante ressaltar que se trata de uma acusação criminal e que as alegações ainda precisam ser comprovadas judicialmente.

Mas o caso também ajuda a entender por que o pig butchering funciona tão bem. Diferentemente de golpes tradicionais, que normalmente dependem de uma decisão impulsiva da vítima, esse modelo pode ser construído lentamente. O criminoso não começa pedindo dinheiro. Começa construindo confiança.

O primeiro contato pode surgir em uma rede social, aplicativo de relacionamento, mensagem de texto ou até em uma suposta mensagem enviada para o número errado. A conversa aparentemente casual evolui. O criminoso demonstra interesse pela rotina da vítima, fala sobre trabalho, viagens, relacionamentos e projetos pessoais.

Depois de estabelecer proximidade, surge o investimento. A vítima é direcionada para um site ou aplicativo que aparenta ser uma plataforma legítima de negociação de criptomoedas. Gráficos, saldos e rentabilidades são apresentados como se fossem reais. Em alguns casos, pequenas retiradas podem ser permitidas inicialmente justamente para aumentar a confiança.

O objetivo é criar uma percepção de segurança. Quando a vítima acredita que encontrou uma oportunidade legítima, começam os aportes maiores. O investimento de alguns milhares pode se transformar em dezenas ou centenas de milhares. Dependendo da situação financeira da pessoa, podem entrar no esquema economias acumuladas durante décadas, recursos de aposentadoria ou dinheiro obtido por empréstimos.

Quando finalmente tenta sacar uma quantia significativa, surgem os problemas. A plataforma pode exigir uma “taxa de liberação”, imposto, depósito adicional ou pagamento relacionado à suposta verificação da conta. A vítima, já emocional e financeiramente comprometida, pode transferir ainda mais dinheiro tentando recuperar aquilo que acredita possuir.

Mas o saldo exibido na tela pode nunca ter existido. Documentos judiciais norte-americanos descrevem justamente essa dinâmica: plataformas fraudulentas podem apresentar lucros fictícios, permitir retiradas iniciais para conquistar confiança e posteriormente criar obstáculos para impedir que a vítima recupere os recursos.

Existe aqui uma combinação extremamente poderosa entre engenharia social e tecnologia financeira. O criminoso não precisa simplesmente convencer alguém a entregar uma senha. Ele precisa construir uma narrativa suficientemente convincente para que a própria vítima autorize as transferências.

Isso também cria dificuldades para mecanismos tradicionais de prevenção a fraudes. Em muitos casos, a pessoa acessou voluntariamente sua conta, comprou os criptoativos e autorizou a transferência. Do ponto de vista técnico, várias etapas podem parecer legítimas. O problema estava na manipulação por trás da decisão.

Os números globais mostram que esse ecossistema está se tornando cada vez mais profissional. A Chainalysis estimou que golpes envolvendo criptomoedas receberam pelo menos US$ 14 bilhões em 2025, valor que ainda pode aumentar conforme novos endereços ilícitos sejam identificados. A empresa também aponta pig butchering e programas fraudulentos de alto rendimento entre as categorias dominantes em volume.

Outro movimento merece atenção. Análises recentes apontam uma redução da dependência de exchanges centralizadas em determinadas etapas da lavagem de recursos provenientes desses golpes. Isso faz sentido do ponto de vista criminoso: plataformas centralizadas possuem mecanismos de compliance, podem bloquear contas e responder a ordens das autoridades. Redes de lavagem e carteiras fora dessas estruturas podem tornar a recuperação dos valores muito mais complexa.

Para o usuário comum, existe uma regra importante: rentabilidade exibida na tela não significa dinheiro disponível. Um site pode mostrar que seu investimento de US$ 10 mil virou US$ 50 mil. Um aplicativo pode apresentar gráficos sofisticados e operações aparentemente realizadas em tempo real. Nada disso, isoladamente, comprova que os ativos realmente existem ou estão sob seu controle.

Também é necessário desconfiar quando uma oportunidade de investimento surge a partir de um relacionamento iniciado recentemente na internet. Principalmente quando essa pessoa insiste em determinada plataforma, ensina como comprar criptomoedas e orienta exatamente para qual carteira os valores devem ser enviados.

A tecnologia utilizada nesses golpes continuará evoluindo. Inteligência artificial já permite produzir mensagens mais naturais, traduções melhores, perfis falsos convincentes e conversas personalizadas em grande escala. O que antes exigia dezenas de operadores pode progressivamente ganhar níveis maiores de automação.

Por isso, combater pig butchering não depende apenas de conhecer criptomoedas. Depende de compreender comportamento humano. O maior ativo do criminoso não é necessariamente a carteira digital, a plataforma falsa ou a blockchain utilizada para movimentar o dinheiro.

É a confiança da vítima. O caso dos US$ 16 milhões demonstra justamente isso. Quando engenharia social, falsas oportunidades de investimento e movimentação rápida de criptoativos se encontram, o golpe pode atingir proporções extraordinárias antes que a vítima perceba o que realmente aconteceu.

No mundo digital, talvez uma das perguntas mais importantes antes de qualquer investimento continue sendo também uma das mais simples: se essa oportunidade é tão extraordinária, por que um desconhecido que conheci pela internet está tão interessado em compartilhá-la comigo?

Quer se aprofundar no assunto, tem alguma dúvida, comentário ou quer compartilhar sua experiência nesse tema? Me escreva no Instagram: @davisalvesphd.

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