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Eliseu Caetano

Trump vence batalha judicial e mantém fim de isenção para compras de até US$ 800

Decisão tem impacto direto sobre compras feitas por consumidores americanos em plataformas estrangeiras

Eliseu Caetano

Presidente Trump em Washington
Pela regra “de minimis”, mercadorias avaliadas em até 800 dólares podiam entrar nos Estados Unidos sem o pagamento das tarifas normalmente aplicadas às importações. EFE/EPA/AARON SCHWARTZ / POOL

O presidente Donald Trump conquistou uma importante vitória judicial em sua política comercial. O Tribunal de Comércio Internacional dos Estados Unidos decidiu que o governo tem autoridade para manter suspensa a chamada isenção “de minimis”, mecanismo que durante décadas permitiu a entrada no país de determinadas encomendas de baixo valor sem a cobrança normal de tarifas de importação.

A decisão tem impacto direto sobre compras feitas por consumidores americanos em plataformas estrangeiras e representa uma vitória para Trump depois de uma série de disputas judiciais envolvendo o alcance dos poderes presidenciais na área de comércio exterior.

Pela regra “de minimis”, mercadorias avaliadas em até 800 dólares podiam entrar nos Estados Unidos sem o pagamento das tarifas normalmente aplicadas às importações. Criada em 1938 para evitar que o governo gastasse mais dinheiro processando pequenas encomendas do que conseguiria arrecadar com elas, a exceção ganhou uma dimensão completamente diferente com a explosão do comércio eletrônico.

Empresas como Shein e Temu transformaram o envio direto de produtos de baixo custo em uma parte importante de seus modelos de negócio nos Estados Unidos. O mecanismo também foi utilizado por outras empresas e importadores para dividir mercadorias em remessas menores. Com a suspensão do benefício, esses produtos ficam sujeitos às regras tarifárias aplicáveis, aumentando custos para importadores e pressionando empresas a rever preços, logística e cadeias de fornecimento.

A disputa judicial foi apresentada pela Detroit Axle, empresa americana de autopeças que utilizava a isenção para importar produtos, inclusive por meio de operações no México. A companhia argumentou que Trump não poderia usar a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, conhecida como IEEPA, para retirar o tratamento “de minimis”. O Tribunal de Comércio Internacional rejeitou esse argumento.

O ponto central da decisão é justamente a extensão dos poderes presidenciais previstos na IEEPA. Em fevereiro, a Suprema Corte determinou que essa lei de emergência não concede ao presidente autoridade para criar tarifas unilateralmente. A decisão derrubou grande parte das tarifas que Trump havia imposto com base na legislação.

Mas a Suprema Corte não decidiu especificamente se o presidente poderia usar a mesma lei para suspender a isenção “de minimis”. Essa diferença jurídica abriu espaço para a nova decisão.

O Tribunal de Comércio Internacional concluiu que existe uma distinção entre criar uma nova tarifa e retirar uma isenção prevista para determinadas importações. Na avaliação da corte, embora a IEEPA não permita ao presidente simplesmente estabelecer tarifas, ela oferece autoridade suficiente para suspender o tratamento “de minimis” em determinadas circunstâncias.

A decisão, portanto, não restaura as amplas tarifas de Trump que foram invalidadas pela Suprema Corte. Ela preserva especificamente a capacidade do governo de impedir que determinadas encomendas de até 800 dólares entrem no país utilizando essa isenção.

O governo Trump também defende o fim do benefício por razões que vão além da arrecadação. A administração afirma que o enorme volume de pequenos pacotes dificulta a fiscalização aduaneira e facilita a entrada de produtos ilegais. Autoridades também relacionaram a repressão ao “de minimis” ao combate ao tráfico de fentanyl e de seus precursores. Ao mesmo tempo, varejistas e grupos empresariais americanos argumentam há anos que o sistema dava vantagem competitiva a vendedores estrangeiros capazes de enviar produtos diretamente aos consumidores sem enfrentar os mesmos custos de importação de empresas que mantêm estoques nos Estados Unidos.

O impacto já ultrapassa o debate jurídico. O fim da isenção vem provocando mudanças nas cadeias de fornecimento do comércio eletrônico internacional. A Shein, por exemplo, passou a rever parte de sua estratégia logística depois que o encerramento do “de minimis” reduziu as vantagens de determinadas operações destinadas ao mercado americano.

Para o consumidor, a consequência mais imediata é que produtos baratos comprados diretamente do exterior podem ficar mais caros. Para empresas que construíram seus negócios em torno de milhões de pequenas encomendas enviadas individualmente aos Estados Unidos, a mudança significa a necessidade de recalcular custos, reorganizar centros de distribuição e, em alguns casos, repassar despesas adicionais aos clientes.

A discussão também tem prazo no Congresso. Parlamentares já aprovaram o encerramento permanente da isenção “de minimis”, com a mudança legislativa prevista para entrar em vigor em julho de 2027. Até lá, a decisão judicial fortalece a posição do governo e permite que a suspensão determinada por Trump continue em vigor.

Trump comemorou o resultado como uma vitória contra o que considera uma brecha no sistema tarifário americano. Politicamente, a decisão também dá novo impulso à agenda comercial da Casa Branca: mesmo depois de a Suprema Corte limitar significativamente o uso de poderes de emergência para impor tarifas, o governo conseguiu preservar uma das medidas de maior impacto sobre o comércio eletrônico internacional.

Na prática, a batalha sobre o “de minimis” mostra que a disputa em torno da política tarifária de Trump está longe de terminar. A Suprema Corte restringiu o poder presidencial para criar tarifas sob a IEEPA, mas a nova decisão estabelece que essa limitação não impede necessariamente o presidente de retirar benefícios aduaneiros já existentes – uma diferença jurídica que pode ter consequências bilionárias para importadores, varejistas e consumidores americanos.

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