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Patrícia Costa

O carro elétrico chinês que freia o petróleo

A revolução da mobilidade na China antecipa o declínio do óleo e reposiciona o planeta em direção à descarbonização

Patricia Costa

Carregador conectado a um carro elétrico na estação de carga
17715 (1) frimufilms/Freepik

A China está mudando o rumo da história da energia. Com quase metade dos carros novos vendidos no país sendo elétricos, o maior mercado automobilístico do mundo acelera uma transição que vai muito além da mobilidade: coloca em xeque a lógica econômica do petróleo, reorganiza o tabuleiro geopolítico e aponta caminhos urgentes para o restante do planeta. Em 2024, mais de 12,9 milhões de veículos elétricos foram vendidos na China, segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis. Isso representa quase 50% das vendas de automóveis no país. Mas o dado mais relevante é outro: essa mudança já é capaz de reduzir significativamente a demanda por combustíveis fósseis. De acordo com estimativas da BloombergNEF, os veículos elétricos estão substituindo cerca de 1,8 milhão de barris de petróleo por dia no mundo — e mais da metade dessa substituição vem da China. Esse movimento não ocorre por acaso. Ele é resultado de políticas públicas consistentes, investimentos maciços em infraestrutura, subsídios, metas regulatórias agressivas e uma estratégia industrial de longo prazo. O que está em jogo, no entanto, vai muito além da tecnologia. É uma mudança estrutural no modelo energético global — com impactos diretos sobre o meio ambiente e sobre a economia internacional.

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No campo ambiental, a substituição dos veículos a combustão por elétricos representa uma das medidas mais efetivas para reduzir emissões de gases de efeito estufa. No caso da China, responsável por mais de 30% das emissões globais, essa transição é essencial para atingir as metas climáticas. Ainda que a matriz elétrica chinesa tenha participação significativa do carvão, o saldo líquido das emissões com a eletrificação dos transportes já é positivo — e tende a melhorar com a ampliação das fontes renováveis. No campo econômico, o petróleo perde força como ativo estratégico. A queda na demanda chinesa por gasolina — estimada entre 4% e 5% ao ano até o fim da década — já impacta gigantes do setor. Isso indica que o pico da demanda global de petróleo pode estar mais próximo do que o previsto. E com ele, vem a reorganização das cadeias globais de produção e a necessidade de adaptação dos países exportadores de óleo bruto.

É neste ponto que o Brasil precisa prestar atenção. Ainda altamente dependente de combustíveis fósseis no transporte e sem uma política robusta de incentivo à mobilidade elétrica, o país pode perder espaço em uma cadeia que se reinventa. Por outro lado, o Brasil tem vantagens comparativas importantes: uma matriz elétrica limpa, mercado consumidor crescente e capacidade tecnológica instalada. Mas é preciso transformar potencial em política. E política em ação. A lição que vem da China é clara: quem lidera a transição hoje, liderará a economia de amanhã. Apostar em carros elétricos, infraestrutura verde e independência energética não é mais questão de vanguarda — é de sobrevivência econômica e ambiental.

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