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Ricardo Motta

E a Copa acabou. Mas trocar de estratégia na hora errada não é só coisa de futebol

O que a pior posse de bola da história da seleção tem a ver com departamentos jurídicos que também pararam no tempo

Ricardo Motta

Jogador Neymar (10), do Brasil, lamenta derrota para a Noruega ao final da partida válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo disputada em East Rutherford Nova Jersey, perto de Nova York, nos Estados Unidos
Jogador Neymar (10), do Brasil, lamenta derrota para a Noruega ao final da partida válida pelas oitavas de final da Copa do Mundo disputada em East Rutherford Nova Jersey, perto de Nova York, nos Estados Unidos ALEXANDRE BRUM/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO

O Brasil terminou o jogo contra a Noruega com 34% de posse de bola. Segundo a Opta, foi a menor marca da seleção em uma Copa do Mundo desde 1966, quando começaram os registros. Foram 329 passes trocados, contra 680 dos noruegueses. O placar de 2 a 1 quase soa generoso diante desses números.

Do outro lado estava a Noruega, 31ª no ranking da Fifa e ausente de um Mundial havia 28 anos. Antes desta Copa, nunca havia vencido um jogo de mata-mata na história. Não carregava tradição nem favoritismo. Ainda assim, controlou a bola, ditou o ritmo e eliminou o pentacampeão logo no primeiro confronto de peso.

Um lance explica mais do que a derrota, explica um reflexo. O Brasil vinha melhor com suas pernas mais novas, tinha crescido depois da entrada de Endrick, ganhado profundidade e parecia encontrar um caminho. Aos 67 minutos, a aposta foi previsível: colocar em campo a camisa 10, o nome mais forte do banco, para resolver no talento aquilo que o coletivo começava a construir. Não se trata de responsabilizar um jogador, e futebol não aceita explicação tão simples. Bruno Guimarães já havia perdido um pênalti no primeiro tempo, e Haaland, um dos melhores atacantes do planeta, decidiu do outro lado. O que fica é o reflexo: diante da crise, o Brasil recorreu ao símbolo, ao nome, ao jogador capaz de resolver sozinho, em vez de confiar na estrutura que começava a funcionar. É um instinto antigo, e o problem é que o futebol mudou. O mundo corporativo também.

Do gramado para o contencioso de massa

Esse mesmo reflexo aparece nos departamentos jurídicos que administram contencioso de massa. Durante décadas, o jurídico brasileiro também jogou com a camisa. Nome no mercado, escritório tradicional, tempo de casa, um advogado brilhante que resolvia o caso difícil no talento. Funcionava enquanto o volume era administrável, a velocidade era menor e o adversário jogava o mesmo jogo.

Esse cenário acabou. Hoje as empresas litigam aos milhares, com prazos simultâneos e teses replicadas em segundos, e ferramentas de automação, jurimetria e inteligência artificial já mudam a forma como as demandas nascem, são classificadas e respondidas. Reputação, experiência e talento continuam contando, mas nenhum deles substitui método. Um jurídico não administra dez mil processos porque tem um craque na equipe, e sim porque estruturou dados, fluxos, critérios de acordo, teses padronizadas e indicadores que mostram onde a carteira está sendo ganha ou perdida. A camisa abre portas, mas não organiza a defesa.

Modernizar não é comprar tecnologia, é mudar o jogo

Parte dos departamentos acredita que se modernizou porque comprou tecnologia. Contratou um software, implantou um painel, testou uma ferramenta de inteligência artificial e passou a se sentir no controle. Só que painel bonito não conserta dado ruim, e nenhuma automação organiza uma carteira que ainda não sabe qual problema precisa resolver.

A escolha de ferramentas jurídicas virou, em muitos casos, disputa de vaidade. Contrata-se a solução que o concorrente anunciou ou a IA que virou assunto no mercado, antes de responder à pergunta essencial: qual gargalo concreto ela precisa enfrentar? Um contencioso com dez mil ações repetitivas exige uma resposta. Uma carteira com condenações concentradas em poucas comarcas exige outra, que passa por entender o padrão decisório antes de qualquer software. Escolher tecnologia sem mapear a operação é comprar chuteira de craque para quem joga no gol. O jurídico maduro faz o inverso: primeiro identifica onde perde tempo, dinheiro e previsibilidade, e só depois escolhe a ferramenta para aquele ponto.

Há uma parte desconfortável nessa conta, e ela vale para os dois lados do balcão. Advogados internos e externos se acostumaram a se atualizar na lei, acompanhando súmulas, repetitivos e alterações legislativas. Isso continua indispensável e já não basta. Atualizar-se passou a incluir compreender como a tecnologia organiza a carteira, como a inteligência artificial classifica documentos, onde entram os dados e quais decisões ainda exigem julgamento humano. Nenhum advogado precisa virar programador, mas o profissional de contencioso que ignora as ferramentas que organizam milhares de processos, medem risco e alimentam a diretoria joga hoje com meio time.

Modernizar contencioso de massa, no fim, é repensar o fluxo inteiro: como o dado nasce, como a tese se padroniza sem virar peça genérica, como se enxerga o litígio antes de ele explodir e como se mede resultado para além da pergunta pobre sobre ganhou ou perdeu. É trocar a lógica do craque que entra para salvar o caso pela do time que não perde a bola no meio-campo.

A Noruega não inventou o futebol. Fez o simples com método e entendeu que velocidade, disciplina e organização pesam mais que reputação, e isso bastou para derrubar quem confiava demais no passado. O jogo empresarial mudou na mesma direção. Tradição segue valiosa e o nome no mercado ainda abre portas, mas nada disso responde intimação em massa, organiza carteira desestruturada nem acompanha um adversário que passou a decidir mais rápido. Quem confundir história com preparo corre o risco de descobrir, como a seleção descobriu em Nova Jersey, que a camisa ainda é respeitada.

Mas já não assusta como antes.