JOVEM PAN

Jovem Pan
TV Ao Vivo
Os Pingos nos Is | 18h00 - 20h15
Valéria Cambuim

Quem sou eu para falar de carreira?

24 anos de RH me ensinaram que uma carreira não se constrói apenas com competência técnica. As relações que cultivamos, as escolhas que fazemos e a confiança que conquistamos também fazem parte dessa história.

Valéria Cambuim

Mulher cansada
Quem sou eu para falar de carreira? Pixabay

Ninguém nunca me perguntou isso. Mas eu começaria contando que, antes de participar de decisões importantes sobre pessoas e negócios, fui a candidata esperando uma oportunidade, a estagiária que não sabia por onde começar, a profissional que queria crescer e não entendia muito bem como algumas decisões aconteciam.

Comecei a trabalhar cedo. Em 2002, aos 21 anos, consegui meu primeiro estágio em RH. Lembro do primeiro dia como se fosse ontem. Cheguei uma hora antes, sentei na recepção com uma pasta de documentos no colo e tentei disfarçar o nervosismo. Não fazia ideia do que vinha pela frente.

Vieram 24 anos de RH. Empresas de portes e segmentos diferentes, equipes para liderar, reestruturações, contratações, desligamentos, decisões que mexeram com a vida de muita gente. E mesmo hoje continuo aprendendo. Não importa o cargo nem quantos anos de estrada você carrega, sempre tem algo novo para entender sobre gente, trabalho e carreira.

Nesse caminho, descobri que o mundo corporativo tem regras que não estão em manual nenhum.

Uma delas é que a reunião oficial quase nunca é onde a decisão começa.

Começa no cafezinho de cinco minutos. Na conversa de corredor. No “posso falar com você rapidinho?”. Naquele instante em que duas pessoas seguem conversando depois que todo mundo já saiu da sala.

Vi isso acontecer incontáveis vezes. Profissionais tecnicamente excelentes que ninguém lembrava na hora de uma oportunidade, enquanto outros, com entregas igualmente boas, ganhavam espaço porque tinham construído confiança pelo caminho.

Durante muito tempo, acreditei que fazer um excelente trabalho bastava. Ainda acho que competência e entrega são a base de qualquer reconhecimento. Mas a experiência me mostrou que só isso nem sempre resolve.

Competência que ninguém conhece passa despercebida.

Isso não significa fazer política, bajular chefe ou andar colada em quem tem poder. Significa cumprir o que promete. Saber ouvir. Conversar com outras áreas. Assumir a responsabilidade quando a situação fica difícil. Dividir o que sabe. Vale para quem está começando e vale, talvez mais ainda, para quem já lidera.

Aprendi também que nem sempre é justo. Já vi gente preparada perder oportunidade, gente recomeçar do zero, carreira terminar num lugar que ninguém tinha planejado. A vida profissional não é uma linha reta, e quem vende fórmula de sucesso está vendendo outra coisa.

Mas há uma parte que é nossa, que é como conduzimos a própria trajetória. Estudar, desenvolver habilidades, cultivar relações de verdade, correr atrás de oportunidade e não ficar esperando alguém decidir o nosso futuro.

Costumo dizer que ninguém deve entregar a carreira nas mãos de outra pessoa. A empresa oferece oportunidades, o gestor apoia, o RH ajuda a desenvolver. O protagonismo, porém, é nosso.

É sobre isso que quero conversar aqui. Sobre carreira como ela realmente acontece, com liderança, escolhas, erros e recomeços, para quem trabalha com gente e para quem precisa abrir o próprio caminho. Sem fórmula pronta e sem pretensão de ter todas as respostas, mas com a bagagem de quem já passou por muitas dessas situações, da recepção à sala de decisão.

Se esses 24 anos me ensinaram alguma coisa, é que carreira não se faz só de grandes decisões. Faz-se das pequenas atitudes repetidas todo dia, das relações que cultivamos e da credibilidade que a gente vai juntando.

Então, quem sou eu para falar de carreira? Alguém que começou sentada na recepção com uma pasta no colo e que continua achando que uma grande oportunidade pode começar com cinco minutos de conversa e uma xícara de café.

Assuntos