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A IA não vem pela base. Vem pelo topo

Vagas de desenvolvedor júnior caíram 67% desde 2022. O perfil mais exposto à automação tem ensino superior, mais de 40 anos e salário alto. Na Tributo Devido, saí de um plano de 100 colaboradores para 27.

Gustavo Ribeiro

A IA não vem pela base. Vem pelo topo
A IA não vem pela base. Vem pelo topo Divulgação

Formados em ciência da computação agora têm mais chance de estar desempregados do que formados em humanidades. Releia essa frase.

A taxa de desemprego entre formados em ciência da computação nos Estados Unidos chegou a 6,1%. Em engenharia da computação, 7,5%. O curso que era sinônimo de “garantia de futuro” agora tem desemprego maior do que letras e filosofia.

Essa é talvez a descoberta mais contraintuitiva de tudo que pesquisei para esta coluna, e é a que mais deveria tirar o sono de quem me lê.

Quem a IA mira de verdade

Um estudo da Anthropic sobre o impacto real da inteligência artificial no mercado de trabalho revelou que os profissionais mais expostos à automação são: mulheres, acima de 40 anos, com ensino superior e salários mais altos. Não é quem trabalha no chão de fábrica. É quem está no escritório climatizado achando que está protegido.

Programadores têm 75% das tarefas já cobertas por IA. Profissionais com pós-graduação são quatro vezes mais expostos do que trabalhadores de baixa qualificação. A narrativa de que “a IA vai substituir os trabalhos braçais e os trabalhos intelectuais estão seguros” é uma mentira reconfortante que precisa morrer agora.

A geração que já nasceu sem chão

Se o cenário geral é grave, para os jovens é catastrófico. E uso essa palavra com todo o peso que ela carrega.

  • Vagas de desenvolvedor júnior — aquele primeiro emprego que formava a base da carreira em tecnologia — caíram 67% desde 2022
  • O emprego de desenvolvedores de software na faixa de 22 a 25 anos caiu quase 20%
  • As Big Four — as quatro maiores firmas de auditoria e consultoria dos Estados Unidos — reduziram em 44% as vagas de programas para recém-formados
  • As matrículas em ciência da computação caíram 11,2% no ano letivo 2025-2026
  • 54% dos líderes de engenharia declararam que planejam contratar menos juniores por causa da IA

A porta de entrada da profissão está sendo emparedada. E os estudantes já entenderam antes dos pais: o diploma que era passaporte virou papel. O abismo entre quem tem e quem não tem diploma encolheu. A diferença na taxa de desemprego era de mais de 8 pontos percentuais. Hoje é de aproximadamente 1 ponto. O diploma deixou de ser escudo.

Na minha mesa, isso já aconteceu

Eu vivo a prova do que escrevo. Na Tributo Devido, meu plano original para 2026 era chegar a 100 colaboradores. Voltei das férias no final de 2025, olhei para o que a inteligência artificial fazia naquele exato momento — não no futuro — e reescrevi tudo. Primeiro reduzi para 50. Depois para 30.

Hoje opero com 27 pessoas e entrego mais do que entregaria com o triplo desse time. Cada uma das 27 é extraordinária e indispensável. Mas as outras 73 vagas que existiriam num mundo sem IA? Não existem mais. Não foram congeladas. Não estão em espera. Foram eliminadas pela raiz.

E se eu — um CEO que opera no 0,04% mais avançado de uso de IA, no ambiente tributário mais complexo do mundo, onde 99% do código é escrito por inteligência artificial — cortei 73% do quadro que planejava ter, imagine o que vai acontecer nas empresas que ainda estão acordando para essa realidade.

E o Brasil?

Tudo que descrevi até aqui usa dados dos Estados Unidos e da Europa. Países com redes de proteção social, seguro-desemprego robusto, sistemas de retreinamento profissional. Agora pense no Brasil. Um país onde 38 milhões de pessoas trabalham na informalidade. Onde a CLT é o único colchão entre o trabalhador e o abismo. Onde a maioria dos cursos universitários ensina o que era relevante há dez anos.

Não temos fundo de riqueza pública. Não temos projetos-piloto de renda básica. Não temos sequer um diagnóstico oficial do impacto da IA no mercado de trabalho brasileiro. Voamos às cegas numa tempestade que os americanos e europeus pelo menos tentam mapear.

O que fazer com isso

Não vou terminar com falsa esperança. A verdade é mais dura e precisa ser dita sem anestesia.

Se você é jovem e entra no mercado: esqueça o plano que fizeram para você. Diploma não é escudo. Especialização em uma única ferramenta não é estratégia. Sua vantagem é aprender mais rápido do que a máquina evolui. Quem se define pelo que sabe vai ser substituído. Quem se define pela velocidade com que aprende vai sobreviver.

Se você é profissional experiente, acima de 40, com diploma e cargo: você é o perfil mais exposto. Não o menos. Aceitar isso é o primeiro passo. O segundo é parar de terceirizar inovação para o estagiário ou para o “pessoal de TI” e colocar as mãos na massa. A IA não respeita hierarquia, tempo de casa ou currículo. Respeita quem a usa.

O terremoto não avisa. Só derruba.

Referências: Anthropic Research, “Labor Market Impacts of AI: A New Measure and Early Evidence” (março de 2026); Stack Overflow Developer Survey 2025; dados de matrícula: CRA Taulbee Survey 2025-2026; Big Four, relatórios de recrutamento 2025-2026; LinkedIn Workforce Report, vagas entry-level Q1 2026; IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (informalidade).