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Brasil se aproxima de 1 milhão de veículos eletrificados e amplia desafio para seguradoras e oficinas

Com 328 mil unidades vendidas até agosto e frota em circulação perto de 1 milhão, avanço da nova frota exige adaptação na cadeia de reparos, peças e seguros

Luciene de Oliveira

Brasil se aproxima de 1 milhão de veículos eletrificados e amplia desafio para seguradoras e oficinas
Brasil se aproxima de 1 milhão de veículos eletrificados Shixart1985/ Wikimedia Commons /CC BY 2.0

O avanço dos veículos elétricos e híbridos no Brasil começa a provocar uma mudança que vai além das ruas, dos pontos de recarga e das montadoras. Nos bastidores, seguradoras, oficinas, fornecedores de peças e empresas de tecnologia precisam adaptar processos a uma frota cada vez mais sofisticada.

De janeiro a agosto de 2026, foram vendidos 328.477 veículos leves eletrificados no país, crescimento de 160,5% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). A categoria respondeu por 20,2% de todos os veículos leves comercializados no período.

O ritmo seguiu forte em agosto. Foram 57.074 unidades no mês, alta de 184% sobre agosto do ano passado. Com isso, os eletrificados chegaram a 22% das vendas brasileiras de veículos leves, a maior participação mensal já registrada pelo segmento. A frota circulante do país, contabilizada pela ABVE desde 2012, já soma cerca de 950 mil veículos eletrificados, com expectativa de alcançar a marca de 1 milhão de unidades ainda em setembro.

A expansão cria uma questão menos visível para o consumidor: o que acontece quando esses carros precisam passar por reparos. Em abril, a Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg) publicou um guia específico sobre os impactos dos veículos eletrificados para o mercado de seguros.

O levantamento chama atenção para fatores como menor disponibilidade de peças, custos de importação e transporte de componentes, necessidade de oficinas especializadas, baterias de alta tensão e assistência adequada a esse tipo de veículo. Para a entidade, essas características tendem a pressionar os custos de manutenção e, no médio prazo, a própria precificação do seguro.

Na ponta da comercialização, porém, esse efeito ainda não aparece de forma uniforme. Segundo a Seguralta, rede de franquias de corretagem de seguros, não há hoje diferença na aceitação, na quantidade de seguradoras dispostas a cobrir o veículo nem no valor do prêmio entre elétricos, híbridos e modelos a combustão. Também não há recusa de cobertura, mas é necessário contratar as coberturas específicas para a bateria de alta tensão.

Para Leonardo Dalben, engenheiro de software da Progi, empresa de tecnologia que atua nos setores automotivo e de seguros, a mudança exige mais do que conhecimento sobre a mecânica dos novos veículos. Exige que toda a cadeia consiga trabalhar de forma integrada.

“Quando o veículo se torna mais tecnológico, o reparo também muda. Um acidente pode envolver seguradora, oficina, avaliação técnica, busca de componentes e diferentes fornecedores. São várias decisões acontecendo dentro do mesmo processo. Se essas informações ficam espalhadas em sistemas que não conversam entre si, a tecnologia do carro evoluiu, mas a operação continua presa a gargalos antigos”.

A área em que Dalben trabalha fica justamente nesse encontro entre desenvolvimento de software e processos do mercado automotivo. A Progi desenvolve tecnologia para seguradoras, oficinas de reparação, fornecedores de peças e recicladores, o que coloca o engenheiro em contato com sistemas usados por diferentes participantes dessa cadeia.

Para ele, a disponibilidade de peças é um bom exemplo de como um problema aparentemente físico também pode se transformar em um desafio de dados.

“Não basta saber que determinado componente existe. É preciso identificar corretamente a peça, verificar disponibilidade, comparar alternativas e fazer essa informação chegar a quem precisa tomar a decisão. Quanto maior a diversidade de tecnologias nos veículos, mais importante se torna a qualidade dos dados que circulam nesse processo”.

Esse gargalo de peças e de oficinas especializadas também aparece na ponta do atendimento ao segurado. Segundo a Seguralta, o prazo de reparo de veículos eletrificados pode ser mais longo do que o de modelos a combustão, em razão da maior demora na chegada de componentes e da falta de oficinas referenciadas, o que tende a prolongar o processo de vistoria e liberação do veículo. Já a demanda por seguro para elétricos e híbridos, segundo a rede, segue no mesmo patamar da registrada para os demais veículos.

O desafio tende a crescer à medida que a frota eletrificada aumenta. A própria ABVE projeta fechar 2026 próximo de 450 mil unidades vendidas, patamar que já parece factível diante do ritmo observado até agosto. No acumulado do ano, os modelos 100% elétricos e híbridos plug-in seguem concentrando mais de 80% das vendas de eletrificados.

Ao mesmo tempo, o setor de seguros acelera sua transformação tecnológica. Pesquisa da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), divulgada em fevereiro, mostrou que 80% das empresas do setor já utilizam inteligência artificial.

Entre as companhias consultadas, 68% acreditam que terão processos totalmente automatizados em até cinco anos, inclusive em áreas como sinistros, subscrição e atendimento. Dalben pondera, porém, que colocar inteligência artificial sobre processos fragmentados não resolve necessariamente o problema.

“IA pode ajudar a analisar informações e automatizar decisões, mas ela depende da qualidade da estrutura que existe por trás. Se os dados são incompletos ou cada participante trabalha isoladamente, você apenas automatiza uma parte do problema. O salto real acontece quando sistemas e informações conseguem funcionar como um fluxo único”.

Para o consumidor, toda essa estrutura tecnológica permanece quase invisível. O que ele percebe é quanto tempo o carro ficará parado, quando terá uma resposta da seguradora e quando poderá voltar a utilizá-lo.

“Ninguém quer entender quantos sistemas foram necessários para resolver um reparo. O motorista quer o carro de volta. É justamente por isso que integração, automação e dados são tão importantes. Quanto mais complexo fica o veículo, mais simples precisa parecer o processo para quem está do outro lado”, afirma o engenheiro.

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