Franquias aceleram uso de IA e reinventam estratégias para crescer em um mercado mais competitivo
O sistema de franquias brasileiro está passando por uma transformação importante. Se durante décadas a expansão foi impulsionada principalmente pela abertura de lojas e pela conquista de novos mercados, hoje a prioridade é outra: tornar os negócios mais eficientes, rentáveis e preparados para atender um consumidor cada vez mais conectado, exigente e em busca de praticidade.
Os números mostram que a atividade segue em trajetória positiva. Nos 12 meses encerrados no primeiro trimestre de 2026, o franchising acumulou faturamento de R$308,4 bilhões, equivalente a 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Apenas entre janeiro e março deste ano, o segmento movimentou R$72,7 bilhões, resultado 10,1% superior ao registrado no mesmo período de 2025, mantendo um ritmo de crescimento acima das projeções para a economia brasileira.
Atualmente, o modelo reúne 3.320 marcas, 204.908 unidades em operação e responde pela geração de 1.787.504 empregos diretos. A presença das franquias também se ampliou pelo território nacional. Hoje, 3.927 municípios brasileiros contam com pelo menos uma operação franqueada, o equivalente a cerca de 70% das cidades do País.
Embora os indicadores permaneçam robustos, especialistas observam uma mudança significativa no comportamento das empresas do segmento. O desafio deixou de ser apenas ampliar presença geográfica. A discussão passou a contemplar produtividade, sustentabilidade financeira das unidades, fortalecimento da relação com os operadores e uso mais intensivo de dados para apoiar decisões estratégicas.
A inteligência artificial ganhou protagonismo nesse movimento. Ferramentas de análise preditiva, automação de rotinas administrativas, gestão de estoques, monitoramento de desempenho em tempo real, programas de fidelidade, aplicativos próprios, pagamentos digitais e plataformas de relacionamento começam a fazer parte do cotidiano de diferentes redes.
Na prática, essas soluções permitem reduzir desperdícios, identificar tendências de consumo, otimizar investimentos, melhorar a experiência dos clientes e aumentar a eficiência operacional. Outro diferencial do sistema está na capacidade de democratizar o acesso à tecnologia. Investimentos realizados pelas franqueadoras podem ser compartilhados entre centenas de unidades, possibilitando que pequenos empreendedores utilizem recursos que, em muitos casos, permaneceriam restritos a grandes corporações.
Paralelamente, novas estratégias de crescimento vêm ganhando espaço. Parcerias entre empresas, amadurecimento do mercado de repasse de franquias, formatos mais enxutos, compartilhamento de conhecimento e busca por oportunidades em cidades médias passaram a integrar o planejamento de marcas interessadas em expandir a atuação sem comprometer a qualidade da operação.
A interiorização continua sendo uma das principais avenidas de desenvolvimento. Municípios de médio porte despertam interesse crescente por apresentarem menor saturação, custos operacionais mais competitivos e demanda ainda pouco explorada em determinadas categorias.
Saúde, beleza, bem-estar, alimentação, educação, conveniência e serviços especializados seguem entre os segmentos mais promissores. Especialistas avaliam que parte desse desempenho está associada às mudanças nos hábitos de consumo. Em um cenário de maior cautela nos gastos, muitas famílias adiam a compra de bens duráveis, mas continuam recorrendo a academias, clínicas, lavanderias, cafeterias, minimercados e estabelecimentos de alimentação, serviços que oferecem praticidade e ajudam a otimizar a rotina.
Para Emílio Guerra, CEO & Founder da Skyler Lifewear e Coordenador Regional da ABF Nordeste, o franchising brasileiro atravessa um processo de amadurecimento que exige uma visão mais ampla do negócio.
“Há alguns anos, a principal discussão do setor era onde abrir a próxima loja. Hoje, a pergunta mudou: como tornar cada unidade mais produtiva, mais rentável e mais conectada ao consumidor. A tecnologia passou a ser uma ferramenta indispensável para sustentar o crescimento das marcas”, afirma.
O executivo destaca que a digitalização tende a potencializar um dos maiores diferenciais do segmento: a proximidade entre pessoas.
“A inteligência artificial não substitui relacionamento, liderança ou conhecimento de mercado. Ela amplia a capacidade das empresas de compreender hábitos de consumo, antecipar movimentos e apoiar decisões com muito mais velocidade e precisão. O desafio está em usar essas ferramentas para fortalecer pessoas, operações e negócios”, completa.
A sustentabilidade financeira das unidades também ganhou protagonismo. Levantamento da Associação Brasileira de Franchising (ABF), realizado com mais de 15 mil franqueados, aponta que 85% estão satisfeitos com suas franqueadoras, 89% indicariam a marca a amigos ou familiares e 84% escolheriam novamente a mesma rede.
Entre aqueles que registraram resultados acima das expectativas, o índice de satisfação alcança 99%, evidenciando a forte relação entre desempenho econômico e percepção de valor.
As projeções da ABF apontam crescimento entre 8% e 10% em 2026, acompanhado pela abertura de novas unidades e pela geração de postos de trabalho. Mais do que preservar a velocidade observada nos últimos anos, o sistema de franquias parece ingressar em uma etapa em que a competitividade tende a ser definida menos pelo número de inaugurações e cada vez mais pela capacidade de transformar dados em inteligência, tecnologia em produtividade e proximidade em valor compartilhado para todos os envolvidos no negócio.