Permuta ganha espaço como estratégia para preservar caixa nas empresas
Ter dinheiro disponível e decidir não usá-lo em uma compra começa a fazer parte da estratégia de empresas que enxergam na permuta uma forma de preservar recursos. O modelo, durante muito tempo associado à falta de caixa, ganha outra dinâmica com sistemas multilaterais, nos quais produtos e serviços podem ser transformados em créditos para novas transações.
Na prática, uma companhia pode vender para um participante da rede e usar o valor recebido para comprar de outro, sem que exista uma troca direta entre as duas partes. A lógica permite utilizar estoques, serviços ou estrutura disponível para atender despesas que, fora desse ambiente, seriam pagas integralmente em dinheiro.
“Existe uma percepção de que a permuta é feita quando falta dinheiro. Não é isso que estamos vendo. Há empresários com recursos disponíveis que preferem preservar parte do caixa quando conseguem fazer a mesma compra utilizando aquilo que o próprio negócio produz”, afirma Marcos Koenigkan, empresário responsável pela operação do Clube de Permuta em São Paulo.
A diferença em relação à troca convencional está justamente na possibilidade de realizar negócios com participantes distintos. No formato bilateral, duas partes precisam ter interesses recíprocos no mesmo momento. No multilateral, quem vende acumula créditos e pode utilizá-los posteriormente com outros integrantes da rede.
O sistema funciona de maneira semelhante a uma conta corrente corporativa. As transações geram créditos e débitos, permitindo que produtos e serviços circulem entre diferentes participantes sem a necessidade de pagamento em dinheiro a cada operação.
Para Koenigkan, porém, o ponto mais importante não está apenas na possibilidade de comprar sem desembolso imediato. Está na diferença entre o preço de venda de um produto ou serviço e quanto efetivamente custa entregá-lo.
“É preciso olhar para a margem. Se tenho estrutura disponível para entregar um serviço vendido por R$10 mil e meu custo adicional para executá-lo é de R$4 mil, posso transformar esse custo em R$ 10 mil de poder de compra. Quando utilizo o crédito para uma despesa que teria de pagar em dinheiro, consigo preservar recursos e aproveitar melhor aquilo que a empresa já possui”.
Um quarto de hotel que permanece vazio em determinada noite não pode ser vendido no dia seguinte. Uma gráfica pode terminar o mês sem utilizar todo o potencial das máquinas. Uma prestadora de serviços pode ter horas disponíveis na equipe. Há também estoques que permanecem parados por períodos maiores do que o previsto. São situações diferentes, mas com algo em comum: existe valor econômico que pode simplesmente deixar de ser aproveitado.
Quando parte desses recursos entra em uma rede de negócios, passa a funcionar também como poder de compra. O dinheiro pode permanecer disponível para despesas que não podem ser negociadas dessa forma, além de investimentos e oportunidades que surgem ao longo da operação.
A estratégia, no entanto, depende de planejamento. Nem toda transação feita por meio de permuta representa necessariamente um bom negócio.
“Não faz sentido deixar de fazer uma venda em dinheiro apenas para acumular créditos. O empresário precisa conhecer seus custos, saber o que pretende comprar e avaliar o que pode oferecer sem prejudicar a operação tradicional. A permuta funciona quando existe uma conta econômica favorável para os dois lados”, diz Koenigkan.
Esse cuidado também ajuda a afastar a modalidade da ideia de simples escambo. A tecnologia tornou possível organizar uma rede maior de compradores e vendedores, registrar saldos e permitir que uma negociação realizada hoje gere poder de compra para outra transação no futuro.
O Clube de Permuta informa já ter movimentado mais de R$500 milhões em negócios e reunir mais de dois mil associados. A plataforma está presente em cinco países e 20 cidades. A operação de São Paulo, comandada por Koenigkan, projeta movimentar cerca de R$200 milhões em 2026.
Além da plataforma digital, encontros presenciais mensais aproximam os participantes e ajudam a ampliar as possibilidades de negociação. O relacionamento entre os associados tem papel importante no funcionamento da rede, já que a diversidade de participantes amplia também a oferta de produtos e serviços disponíveis.
A preservação de recursos ganha ainda mais peso quando o custo do capital entra na conta. Manter dinheiro disponível pode significar maior condição para investir, negociar com fornecedores, atravessar períodos de menor receita ou aproveitar oportunidades sem recorrer imediatamente a financiamento.
É por isso que Koenigkan vê espaço para a modalidade também entre negócios financeiramente saudáveis. “Ter dinheiro não significa que seja preciso usá-lo em todas as compras. Se posso atender uma necessidade da companhia utilizando parte daquilo que já produzo e preservar recursos para situações em que o dinheiro é indispensável, estou fazendo uma escolha de gestão”.
A permuta não substitui as vendas tradicionais nem elimina a importância do caixa. Funciona como uma possibilidade adicional de negociação, principalmente quando há produtos, serviços ou estrutura que poderiam permanecer sem utilização.
Para Koenigkan, a mudança está justamente na forma de fazer essa conta. “Durante muito tempo, olhamos primeiro para quanto dinheiro uma negociação coloca no caixa. Também precisamos olhar para quanto uma boa negociação consegue deixar nele”.