Diretor de ‘Abe’ fala sobre mensagem implícita no filme com astro de ‘Stranger Things’ e Seu Jorge

Fernando Grostein diz que sua família e questões relacionadas à sua sexualidade acabaram influenciando na história do longa que acompanha um menino na busca por sua identidade

  • Por William Amorim
  • 07/08/2021 10h00
Divulgação/Paris FilmesSeu Jorge e Noah Schnapp no set de filmagem do filme 'Abe'

Criado em uma família com conflitos religiosos, um menino de 12 anos que vive no Brooklin, Estados Unidos, tenta encontrar sua verdadeira identidade. Protagonizado por Noah Schnapp, astro da série “Stranger Things”, “Abe” é um filme leve, mas com uma mensagem forte. Na trama, o garoto com dotes culinários busca refúgio na cozinha do chef brasileiro Chico, interpretado por Seu Jorge, uma vez que em casa ele se vê divido entre as brigas de família – judia por parte de mãe e mulçumana por parte de pai. Em entrevista à Jovem Pan, o diretor Fernando Grostein Andrade, que é irmão de Luciano Huck, contou que o enredo foi inspirando na própria família. “Sou filho de casamento misto. De um lado, eu tenho família de origem judaica e, de outro, de origem católica. Eu troquei o lado católico pelo palestino para dar voz e visibilidade à questão palestina. Quis fazer esse filme com vários níveis de profundidade, assim pessoas de várias idades poderiam assistir e busquei passar uma mensagem que, para mim, é muito importante, a mensagem de que cada um deve buscar sua própria identidade e ser você mesmo.”

Em meio aos inúmeros conselhos dos familiares, que tentam passar seus valores religiosos, Abe tenta agradar a todos e encontra na cozinha uma forma de se expressar sem julgamentos. Analisando a mensagem passada no filme, Fernando acredita que, de uma forma implícita, questões pessoais envolvendo sua sexualidade colaboraram para a sensibilidade da história. “Eu sou gay e saí do armário só mais tarde, aos 34 anos. Trabalhei 13 anos nesse filme, então, quando olho para trás, fico achando que eu estava querendo aproveitar a gastronomia e a religião para mandar essa mensagem de que as pessoas têm que ser quem elas são e devem assumir a própria identidade”, afirmou o cineasta, hoje com 40 anos. Outra questão discutida no longa são as diferenças de pensamentos e a gastronomia entrou no enredo porque o diretor acredita que é mais fácil se acertar com uma boa comida. “Não acho que a comida é capaz de encerrar uma guerra, mas acho que se você tem uma diferença ou desavença com alguém, é mais fácil você se acertar com a pessoa em um jantar com um bom prato de comida e uma boa música.”

Elenco misto

O set de filmagem de “Abe” contou com um elenco representativo. Além de brasileiros e americanos, o longa também tem atores de origem síria e armênia. “Tivemos muita diversidade e isso é muito interessante porque deixa todo mundo no mesmo plano. Fiquei muito feliz e honrado de dirigir um set assim”, enfatizou Fernando, que não poupou elogios aos artistas brasileiros. “Acredito que o Seu Jorge é um patrimônio nacional porque ele representa tudo aquilo que o Brasil tem de melhor, que é música, cultura, atuação, carisma, inteligência, resiliência, heroísmo. Acho o Seu Jorge o máximo. Também tem o Gero Camilo, que fez ‘Carandiru’, no elenco. Considero ele um excelente ator.” O diretor também demonstrou empolgação por trabalhar com o jovem talento Noah Schnapp e com o ator Mark Margolis, que viveu Hector Salamanca na série “Breaking Bad”.

Mesmo com dramas familiares e questões religiosas, “Abe” tem doses de humor que tiram a tensão e deixa a trama mais descontraída. “Busquei a comédia e as risadas para discutir um assunto mais sério, que é o das diferenças, e eu espero que esse filme inspire as pessoas que estão brigadas com os amigos que pensam diferente a sentarem em uma mesa com uma boa comida e entender que a gente não precisa pensar igual para ser amigo. Podemos ser amigos e ter pensamentos diferentes”, concluiu o diretor. “Abe” chegou aos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 5, e já passou por vários festivais internacionais como o Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, o Festival Internacional de Cinema de Panamá, o Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e o Australia Independent Film Festival.