Pênaltis perdidos na Eurocopa: culpa dos batedores ou mérito dos goleiros?

Na primeira fase do torneio continental de seleções, 14 pênaltis foram marcados, sendo oito deles convertidos e seis desperdiçados

  • Por Flavia Matos
  • 26/06/2021 09h00
EFE/Kiko HuescaO atacante espanhol Morata bateu mal e o goleiro Dúbravka, da Eslováquia, defendeu

As oitavas de final da Eurocopa 2020 começam neste sábado, 26, com as duas primeiras partidas envolvendo os 16 classificados da primeira fase: País de Gales x Dinamarca, às 13h (de Brasília), e Itália x Áustria, às 16h (de Brasília). Além dos grandes jogos, recordes individuais e questões políticas e raciais, o torneio entre seleções europeias chamou atenção do mundo por uma questão específica: o número de pênaltis perdidos. Nos primeiros 36 confrontos, foram marcados 14 penalidades, com oito cobranças convertidas, quatro defendidas, uma na trave e outra por cima do gol. Os goleiros Lukás Hrádecký (Finlândia), Roubou Dimitrievski (Macedônia do Norte), Martín Dúbravka (Eslováquia) e Georgiy Bushchan (Ucrânia) foram os heróis de suas torcidas — ou quase no caso deste último, já que o macedônio Alioski marcou no rebote; Gerard Moreno (Espanha) e Gareth Bale (País de Gales), que nem sequer acertaram a meta, os vilões. Mas por que esse número tão alto de erros? A culpa é do batedor ou um mérito exclusivo de quem está lá para defender? Para o comentarista da Jovem Pan, Flavio Prado, a evolução da posição de goleiro e a introdução de tecnologia nos treinamentos ajudam com que os arqueiros tenham melhor desempenho.

“Foi natural a evolução nas performances dos goleiros, facilitando a defesa de penais. Os goleiros hoje são maiores, há treinamentos específicos desde os tempos de Valdir Joaquim de Moraes [lendário guarda-metas do Palmeiras que se tornou pioneiro na profissão de preparador de goleiros]. Há também as observações… Hoje um goleiro dificilmente vai para o lance sem saber o lado de preferência daquele que vai cobrar o pênalti. Então, com o uso da tecnologia, com a melhoria das técnicas de treinamento e com a altura dos atletas, obviamente cresceu muito [o número de defesas]. E também, com todos esses detalhes a favor dos goleiros, o lado psicológico do batedor ficou pior. Por isso, o número de defesas é algo natural, aumentou bastante”, pontuou o comentarista.

A questão psicológica é, justamente, um dos fatores mais importantes no trabalhados cotidianos dos atletas no futebol contemporâneo. A psicóloga de performance profissional do Cruzeiro, Michelle Rios, afirma que o trabalho mental tem que ser trabalho com os jogadores diariamente, assim como a parte técnica. “A preparação mental é feita pensando num treinamento que aborda os aspectos físico, técnico e tático, e dividida em etapas: a psicoeducação ensina o atleta a ter confiança, atenção/concentração, ansiedade pré-competitiva, a ser resiliente etc; e as habilidade grupais ensinam comunicação e liderança”, explicou a profissional, que também atende na clínica Arena Ortopedia Esportiva. “No caso dos pênaltis, é uma bola parada, mas tem um lado psicológico mais forte. Você deixa de lado a parte física e tática e leva muito mais a parte psicológica, que é a concentração e a técnica. O jogador precisa ser muito treinado e criar rotinas que o ajudem a ficar concentrado naquele momento. Por exemplo, ele vai ter ações para bater aquele pênalti: os mesmos passos, os mesmos movimentos”, completa a especialista. Esse tipo de comportamento fica nítido para os torcedores em atletas mais experientes. É o caso de Cristiano Ronaldo, que bateu três pênaltis nesta Euro e converteu todos. Em cada cobrança, o português beija a bola, toma uma certa distância, respira e corre para o chute. Muito parecido com o seu comportamento ao bater faltas.

Mas como ajudar os jogadores que perdem um pênalti a não esmorecerem? “Atletas mais novos ainda não sabem o que é ser resiliente, acham que só terão aquele momento na carreira. Mas, na maioria das vezes, eles terão outras oportunidade para se redimir. Já o atleta mais experiente sabe que vai ter outra oportunidade”, diz Michelle. Porém, em competições de tiro curto, em que todo jogo é uma decisão, essa pressão pode ser ainda mais danosa, tanto pelo pouco tempo de preparo como pela ausência de profissionais junto à delegação. “Às vezes, eles não têm tempo de treinar nem de recuperação psicológica. O treinador precisa conduzir melhor, porque esses times não levam psicólogos. A seleção brasileira não tem psicólogo. É difícil, inclusive, entre times profissionais da Série A, somente na base é obrigatório”, destaca a cruzeirense.

Sendo assim, é possível concluir que o pênalti não é loteria, como diz o ditado perpetuado há décadas no futebol. É, acima de tudo, treinamento e concentração mental, mas, claro, a sorte também precisa estar em dia. “O atleta precisa gerenciar as emoções para que elas não afetem a tomada de decisão”, finalizou a especialista. Resta continuar a acompanhar a Eurocopa e prestar mais atenção às cobranças dos penais. No mata-mata, em caso de empate no tempo normal e na prorrogação, o duelo será decidido na marca da cal. Ou seja, nos próximos 15 jogos que restam até a grande final, que será disputada em Wembley, no dia 11 de julho, há promessa de muita emoção, pressão… e pênaltis.

Veja os pênaltis perdidos na Eurocopa:

Dinamarca 0 x 1 Finlândia – 12/06
O finlandês Hrádecký defendeu cobrança de Højbjerg no primeiro penal perdido da Euro

Turquia 0 x 2 País de Gales – 16/06
O galês Bale, craque do seu time, isolou no duelo contra os turcos

Ucrânia 2 x 1 Macedônia do Norte – 17/06
O ucraniano Bushchan defendeu a penalidade, mas Alioski conferiu no rebote

Ucrânia 2 x 1 Macedônia do Norte – 17/06
No mesmo jogo, Dimitrievski pegou a batida do ucraniano Malinovskyi no seu canto direito

Espanha 1 x 1 Polônia – 19/06
Gerard Moreno, atacante da seleção espanhola, acertou a trave

Eslováquia 0 x 5 Espanha – 23/06
Mais um erro espanhol: Morata parou em bela defesa de Dúbravka