Hamas elege Khalil al-Hayya como líder após deixar governo de Gaza; saiba quem é
O grupo islâmico palestino Hamas anunciou, nesta segunda-feira (20), a eleição de Khalil al-Hayya como novo chefe de seu gabinete político, sucedendo Yahya al-Sinwar, morto por forças israelenses em Gaza em outubro de 2024.
Em comunicado, o Hamas afirmou que “o movimento provou sua presença e força institucional ao eleger um novo chefe”. Além disso, a nota diz que a escolha de al-Hayya se baseia em sua “vasta experiência política e de resistência“, e que “enquanto alguns se preocupam com a ilusão de erradicar o movimento ou promover seu fim, o Hamas, ao eleger sua nova liderança, afirma a superioridade de sua abordagem institucional”.
Até então principal negociador do movimento nas conversas indiretas de cessar-fogo com Israel, al-Hayya passa a ocupar o cargo político mais importante da organização em um momento considerado decisivo para o futuro do grupo, que enfrenta perdas significativas em sua cúpula, pressão militar israelense e negociações sobre um possível acordo para Gaza.
A escolha representa a continuidade da liderança construída em torno de Sinwar e fortalece a ala originária da Faixa de Gaza, considerada a mais influente dentro do Hamas desde o início da guerra.
Quem é al-Hayya?
Nascido na Faixa de Gaza em 1960, Khalil al-Hayya integra o Hamas desde sua criação, em 1987. Antes disso, ingressou na Irmandade Muçulmana no início da década de 1980, organização islâmica da qual o Hamas se reivindicaria como continuador histórico, ao lado de nomes que mais tarde se tornariam centrais na liderança do grupo, como Ismail Haniyeh e Yahya al-Sinwar.
Ao longo de sua trajetória, foi preso diversas vezes por Israel e consolidou sua influência na estrutura política do movimento. Diferentemente de Khaled Mashaal — associado durante décadas à liderança externa do Hamas, baseada principalmente no Catar — al-Hayya construiu sua carreira dentro da própria Faixa de Gaza, participando diretamente da organização política, administrativa e estratégica do movimento no território palestino.
Sua história também é marcada por perdas familiares durante os conflitos entre Israel e Hamas. Em 2007, um ataque aéreo israelense atingiu a casa de sua família no bairro de Shuja’iyya, na Cidade de Gaza, matando diversos parentes. Sete anos depois, durante a guerra de Gaza de 2014, outro bombardeio matou seu filho mais velho, Osama al-Hayya, além da esposa e dos três filhos dele.
Figura influente
Israel considera al-Hayya há anos uma das principais lideranças políticas do Hamas. Internamente, ele supervisionou áreas consideradas estratégicas, como a coordenação política e a comunicação do movimento.
Fontes palestinas descrevem al-Hayya como um dirigente de forte influência sobre a estrutura de mídia do Hamas, inclusive sobre a formulação de mensagens públicas. Apesar de divergências ocasionais com integrantes ligados à comunicação do grupo, ele é apontado como uma das principais autoridades na definição da linha política divulgada pelo movimento.
Sua ascensão também está ligada à proximidade com Yahya al-Sinwar. Al-Hayya é frequentemente descrito como um dos principais representantes da corrente mais rígida da liderança sediada em Gaza. Segundo fontes palestinas, ele demonstrava ceticismo em relação à parte da liderança estabelecida no exterior, considerada por integrantes da ala interna excessivamente distante da realidade vivida na Faixa de Gaza.
Relação regional
Embora seja associado à ala considerada mais dura do Hamas, al-Hayya também é visto como um dirigente pragmático em relação às alianças regionais.
Segundo fontes familiarizadas com as discussões internas do grupo, ele defende que o Egito permaneça como interlocutor indispensável nas negociações envolvendo Gaza. Ao mesmo tempo, sua relação com o Cairo atravessou momentos de tensão. Em 2024, suas declarações conclamando egípcios a marcharem em direção à fronteira com Gaza provocaram críticas de setores políticos e da imprensa egípcia.
Paralelamente, al-Hayya é considerado um dos dirigentes do Hamas mais próximos do Irã, principal fornecedor de apoio militar ao movimento, enquanto mantém relações estreitas com o Catar, onde passou a viver antes do início da guerra e de onde atuou como responsável pelas relações do Hamas com países árabes e islâmicos.
Nos últimos anos, al-Hayya tornou-se o principal representante do Hamas nas negociações indiretas com Israel mediadas por Egito, Catar e Estados Unidos. Ele participou das negociações que encerraram a guerra de Gaza de 2014 e passou a liderar a equipe responsável pelos contatos relacionados aos acordos de cessar-fogo, libertação de reféns e troca de prisioneiros durante o conflito iniciado em 2023.
Também assumiu missões diplomáticas relevantes para o movimento. Em 2022, liderou uma delegação do Hamas a Damasco para restabelecer as relações com o governo sírio de Bashar al-Assad, encerrando anos de distanciamento provocados pela guerra civil síria e reforçando a reaproximação do grupo com o chamado “Eixo da Resistência”, liderado pelo Irã.
Ataque de outubro
Al-Hayya não estava em Gaza durante o ataque conduzido pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Naquele momento, encontrava-se no Catar desempenhando funções diplomáticas dentro da organização.
Posteriormente, acompanhou Ismail Haniyeh em visita oficial a Teerã, em julho de 2024, ocasião em que o então líder político do Hamas foi assassinado.
Em declarações posteriores, al-Hayya afirmou que a operação de 7 de outubro teria sido concebida inicialmente como uma incursão destinada à captura de soldados israelenses para futuras trocas de prisioneiros. Também declarou que o ataque havia recolocado a questão palestina no centro da atenção internacional.
Nova direção
A ascensão de al-Hayya reforça uma tendência observada desde o fortalecimento político de Yahya al-Sinwar: a predominância da liderança territorial de Gaza sobre a direção externa do Hamas. Nesse modelo, a legitimidade política deriva menos da atuação diplomática internacional e mais da capacidade de dirigir a resistência armada e administrar os custos do conflito.
Ao escolher um dirigente que reúne influência sobre as negociações, proximidade com o Irã e forte inserção na estrutura interna do movimento, o Hamas sinaliza uma estratégia de continuidade institucional, na qual eventuais negociações de cessar-fogo tendem a ser concebidas não como um abandono da luta armada, mas como mecanismos táticos para preservar capacidades organizacionais e maximizar ganhos políticos em um ambiente regional altamente volátil.
Sua escolha ocorre em um momento particularmente sensível para o Hamas. Grande parte da antiga liderança foi morta durante a campanha militar israelense, incluindo Yahya al-Sinwar, Mohammed Deif, Saleh al-Arouri e Ismail Haniyeh. Paralelamente, o movimento enfrenta discussões internas sobre seu futuro político, seu eventual papel em uma administração pós-guerra em Gaza e as condições de um possível acordo que envolva cessar-fogo, reconstrução do território e rearranjos de segurança.
*Com informações da Al Jazeera e Middle East Eye
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