‘Lula se apresenta como o principal nome da esquerda para 2022’, diz Diogo Schelp

Em discurso, ex-presidente se colocou como antagonista em diversos pontos do governo de Jair Bolsonaro, como na condução do combate à pandemia, agenda econômica e prestígio internacional

  • Por Jovem Pan
  • 10/03/2021 13h57 - Atualizado em 10/03/2021 14h22
REUTERS/Amanda PerobelliEx-presidente Lula falou nesta quinta-feira sobre a anulação dos seus processo na operação Lava Jato e julgamento do ex-juiz Sergio Moro pelo STF

Em quase duas horas de discurso na manhã desta quarta-feira, 10, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se posicionou como o principal nome da esquerda na disputa contra Jair Bolsonaro (sem partido) nas eleições de 2022. Apesar de não confirmar claramente a sua decisão de concorrer a um novo pleito eleitoral, as contraposições à postura do atual chefe do Executivo no combate à pandemia do novo coronavírus, além da agenda econômica e prioridades políticas, evidenciam a intenção do petista em não ceder o espaço para outro nome do espectro progressista. Durante a sua análise da fala do ex-presidente, o comentarista da Jovem Pan, Diogo Schelp, afirmou que as declarações do ex-presidente mostram o discurso de um futuro candidato à presidência da República. “Ele deixa claro que tem energia para brigar muito, e isso obviamente quer dizer entrar em campanha, de brigar com Bolsonaro”, afirma o analista. “Ele tentou se contrapor ao Bolsonaro na questão da pandemia, que é a favor da vacina, que o governo é incompetente, que o ministro da Saúde é incompetente e que a população não deve seguir nenhuma decisão, que ele classificou como imbecil, na questão da pandemia.”

Ao contrário da fase “Lula paz e amor” que marcou a campanha vitoriosa do petista em 2002 e aproximação com o mercado financeiro com sinalizações de que não iria radicalizar a política econômica, o Lula que discursou na manhã nesta manhã na sede do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo atacou frontalmente a agenda liberal proposta pelo atual chefe da equipe econômica, Paulo Guedes, e mostrou uma visão de maior participação do governo federal na condução da economia. “Ele fez um discurso de Estado grande, nada a ver com aquele Lula que fez a carta aos empresários antes de ser eleito em 2002. Ele fez um discurso dizendo que era contra as privatizações, a favor dos investimentos públicos, fez muitas críticas ao aumento dos combustíveis”, diz Schelp.

O analista ainda chama a atenção para a mágoa do ex-presidente contra o ex-juiz Sergio Moro, seu principal algoz e que agora é alvo no Supremo Tribunal Federal (STF) pela sua condução dos julgamentos da operação Lava Jato, e da imprensa, que o ex-presidente afirma ter se associado com membros da Justiça para que ele fosse condenado e preso. “Apesar de deixar ainda claro que espera uma punição para Sergio Moro, e dizer que não, mas ele guarda essa mágoa, e também em relação à imprensa, que ele acusa de ter feito conluio com a Lava Jato para condená-lo. Ele tenta mostrar que deixou isso para trás e que está pensando no futuro, e esse futuro é a eleição de 2022.”

Na abertura do discurso, o petista fez uma lista de menções e agradecimentos à lideranças políticas internacionais, como os ex-presidentes da Argentina e Uruguai, Alberto Fernández e Pepe Mujica, à prefeita de Paris, Anne Hidalgo, ao senador norte-americano Bernie Sanders, e ao papa Francisco, que o ex-presidente afirma ter enviado um emissário para o visitar enquanto esteve preso na superintendência da Polícia Federal de Curitiba. Para Schelp, esse momento de expor o seu prestígio internacional foi outro ponto do petista em se posicionar antagônico a Bolsonaro. “Foi a forma dele mostrar de que quando havia sido presidente ele tinha o respeito internacional, ao contrário do que acontece hoje em dia com o presidente Jair Bolsonaro.” Em diversos momentos, o ex-presidente também citou a decisão do ministro Edson Fachin, do STF, que anulou os seus julgamentos em Curitiba e permitiu que o petista recuperasse os direitos políticos e se tornasse hábil para disputar novas eleições. Segundo Schelp, a colocação perde valor diante do fato de que a decisão não inocentou Lula dos processos, mas apenas transferiu a responsabilidade de julgamento para Brasília. “Quando o ex-presidente Lula diz que a verdade foi restabelecida, ele tenta passar a impressão de que a Justiça tenha reconhecido que ele é inocente”, afirma.