Ministro da Cultura vê “tentação do autoritarismo” na esquerda e na direita

  • Por Jovem Pan
  • 26/10/2017 12h27
Johnny Drum/Jovem PanMinistro Sérgio Sá Leitão comentou sobre exposições polêmicas e defendeu o governo Temer, que "quer acertar" na área da Cultura

O ministro da Cultura do Brasil Sérgio Sá Leitão entende que, “desde que mundo é mundo”, “sempre houve uma guerra cultural” e que o “confronto” nesta área entre conservadorismo e progressismo, ou “mainstream” e “underground”, faz parte do “jogo”, “às vezes harmonioso, às vezes conflituoso, que faz a cultura avançar”.

Sá Leitão vê, no entanto, “comportamentos preocupantes” no horizonte e observa uma tendência ao autoritarismo em diversos lados de atuação política. “Quando decisões judiciais impedem que uma peça de teatro aconteça, temos de fato uma ameaça de censura”, exemplificou.

“Ainda temos um pouco essa tentação da intolerância, do autoritarismo, e eu vejo isso tanto na esquerda quanto na direita. Isso não é exclusividade de um campo político”, disse o ministro em entrevista exclusiva ao programa Morning Show da Jovem Pan nesta quinta-feira (26).

“Não há censura do bem, não há ódio do bem, não há totalitarismo do bem”, postulou. “Toda intolerância e toda censura é essencialmente negativa e devemos repudiar isso, impugnar por um comportamento tolerante, democrático, que preze sobretudo a liberdade e a diversidade”, entende o chefe da pasta da Cultura.

Avaliando que o Ministério da Cultura (MinC) estava muito “isolado”, o ministro quer promover o “diálogo” entre atores sociais, inclusive com polos antagônicos como a “bancada da Bíblia” e a progressista, “esquerda e direita”, mas refuta os “extremismos”.

“(Des)politização da Cultura”

O ministro concorda que a proximidade com as eleições do ano que vem influencia na discussão sobre a arte. “Certamente. Eu tenho visto muito proselitismo, muita tentativa de manipular a opinião pública, muita histeria, muita irracionalidade nesse debate”.

E cita debate recente na Câmara sobre exposições artísticas com conteúdo sexual em que o deputado Givaldo Carimbão (PHS-AL) ofendeu a mãe e a filha do ministro. “No final (da audiência) fui agredido, ofendido por um deputado e em redes sociais li os comentários mais absurdos relacionados a esse assunto, com ofensas, ameaças de morte e outros comportamentos que não cabem em um ambiente democrático”, relatou.

Leitão entende que a democracia brasileira é “muito jovem” e esse movimento de intolerância faz parte do “aprendizado” do País, mas será superado. Ele acredita na proteção da Constituição de “direitos e garantias”, como a liberdade de expressão, “valor fundamental para uma sociedade democrática”.

O chefe da pasta também quer promover uma “despolitização” do MinC. Questionado, ele lembra que o ex-presidente da Ancine (Agência Nacional do Cinema) Manoel Rangel era do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). “Isso acabou”, decretou. “Estamos fazendo no Ministério da Cultura como um todo e na Ancine em particular essa mudança, tirandao as pessoas com um perfil político e colocando alguém de perfil técnico”, disse.

Leitão ainda elogiou a escolha “não política” do filme “Bingo” para representar o Brasil no Oscar e defendeu a Lei Rouanet, de incentivos fiscais à Cultura, considerando-a “uma das mais democráticas e liberais” do mundo. Ele admite, porém, que “há muita burocracia” na forma atual da lei, o que “gera muita desigualdade”.

Casos polêmicos

O ministro comentou sobre casos polêmicos recentes, que politizaram o debate cultural. Ele pregou “respeito” à decisão do Museu de Arte de São Paulo (MASP) de proibir a entrada de menores de 18 anos em exposição sobre a história da sexualidade.

“Este é um caso de autorregulação. É preciso respeitar o direito que o Masp tem, como fundação privada, de tomar essa decisão”, disse.

Leitão defendeu a “expansão da classificação indicativa para exposições”.

Mas ressaltou: “Eu sou plenamente a favor do conceito de poder familiar, que os pais decidam responsavelmente sobre o que os seus filhos podem ver”.

O mesmo argumento foi usado para avaliar a exposição de um homem nu no Museu de Arte Moderna (MAM), também em São Paulo, que foi aberta a crianças.

“Acho que não há nenhum problema em nenhuma daquelas manifestações em si. O que pode ser sensível e temos que tratar é o fato de ela estar aberta aos pais e de ter a interação entre uma criança e um homem nu”, disse.

“As pessoas precisam estar informadas sobre o conteúdo de exposições, espetáculos, games, qualquer coisa, para tomar uma decisão se querem ou não ter acesso àquele conteúdo”, defendeu. “Os pais devem estar informados para decidir”.

Sobre o cancelamento de mostra sobre o universo LGBT e “Queer” patrocinada pelo Banco Santander, o ministro repudiou “manifestações de caráter violento, coma ameaças, agressões, inclusive depredações a agências do Santander”.

“O direito à manifestação vale para todos, quem defende ou quem critica as exposições”, ponderou. “Quem não gosta das exposições, que proteste contra isso dentro dos limites da lei ou da civilidade”.

Ministro de Temer sem constrangimento

Sérgio Sá Leitão também comentou o contexto político do Brasil e disse que não se sente constrangido por participar de um governo que tem o presidente e vários ministros acusados de corrupção e outros crimes.

Ministro Sérgio Sá Leitão abraça presidente Michel Temer ao tomar posse como ministro da Cultura em julho deste ano (Antonio Cruz/Agência Brasil)

“Me sinto distanciado dessas questões políticas. Estou focado no meu trabalho”, garantiu, citando o trecho do hino brasileiro que diz “verás que o filho teu não foge à luta”.

Ele espera, no entanto, que o governo federal como um todo tenha mais “tranquilidade” depois da rejeição pela Câmara da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer, definida nesta quarta (25).

“Espero que tenhamos mais tranquilidade para trabalhar. Vi por dentro o quanto isso foi prejudicial ao funcionamento do governo e prejudicial ao país”, afirmou, sem querer entrar no mérito do conteúdo das acusações que pesam sobre o presidente. “Espero que tenhamos tranquilidade para levar esse barco até 31 de dezembro de 2018 e que a sociedade faça uma boa escolha em 2018”, disse.

Presidente “quer acertar”

Apesar de Michel Temer ter excluído e recriado a pasta da Cultura, Leitão sente, pelas “muitas conversas” que tem com o peemedebista, que “o presidente quer acertar na área da Cultura”, embora reconheça que ele “não tem ligação pessoal muito forte e trajetória na área”.

O ministro também defendeu as emendas parlamentares liberadas às vésperas da votação que livrou Temer da denúncia, acusadas de serem usadas como moeda de “compra” de votos. Leitão afirmou que “dentre essas emendas há várias que vão para projetos culturais importantes” e citou a construção do primeiro teatro no município de Boa Vista.

Após ter contingenciado R$ 700 milhões, ou 43% do orçamento da Cultura, o ministro diz que conseguiu um descontingenciamento e hoje o dinheiro disponível para a pasta investir (orçamento discricionário) é de R$ 530 milhões, embora haja ainda cerca de R$ 200 mi paralisados.

Leitão informa que o orçamento total da pasta é de R$ 2,7 bilhões, mas “boa parte disso é de custeio, salários e estrutura do Ministério”.

O ministro defende, no entanto, que “temos de buscar outras fontes de recursos para a cultura” e reconhece, por exemplo que “o déficit é muito grande no patrimônio histórico, tão rico e que precisa ser revitalizado”.