Novas variantes da Covid-19: O que são e como se proteger contra mutações do coronavírus

Segundo especialistas, principais sintomas são febre e dor de cabeça; mutações devem continuar surgindo mesmo após a vacina

  • Por Giullia Chechia Mazza
  • 28/02/2021 08h00 - Atualizado em 28/02/2021 17h52
Imagem: Reprodução/FiocruzO vírus SARS-Cov-2, causador da Covid-19, atacando células humanas

Durante a contagem regressiva para a virada do ano, nas últimas horas de 31 de dezembro de 2020, a notícia de que a variante inglesa do novo coronavírus já circulava no Brasil deixou a população em alerta. Desde então, o país tem presenciado a multiplicação da quantidade de pacientes infectados por mutações do vírus que deu origem à Covid-19, Sars-CoV-2. Segundo o Ministério da Saúde, até o momento, foram registrados 204 casos de variantes do coronavírus no Brasil. Entre eles, 184 ligados à variante brasileira P.1, descoberta em Manaus, e os outros 20 diagnósticos da cepa B.1.1.7, do Reino Unido. Apesar de serem escassas as informações sobre as novas variantes, cepas e linhagens, os cientistas e pesquisadores afirmam que as modificações do vírus já eram esperadas e que novas podem surgir. “O vírus continuará se replicando, por isso é possível que novas mutações apareçam”, afirma a infectologista Melissa Valentini. “Mesmo quando as vacinas contra a Covid-19 entrarem para o calendário nacional de vacinação, o vírus continuará sofrendo mutações, como ocorre com a gripe. Isso não significa que os sintomas serão diferentes ou que formas mais graves surgirão”, explica o biólogo Jean Francalino.

Veja o que se sabe sobre as novas variantes do coronavírus:

Qual a diferença entre mutações, variantes, cepas e linhagens? 

Todos os organismos, microorganismos e vírus passam por mutações que podem possibilitar melhores condições adaptativas e, consequentemente, maiores chances de sobrevivência às espécies. No caso do vírus, essas mudanças ocorrem de forma aleatória dentro de seu material genético. Durante a replicação de um agente infeccioso como o Sars-CoV-2, uma série de erros aleatórios podem acontecer, criando novas versões do vírus original a partir destas mutações. Caso estas mudanças sejam negativas para os “filhotes virais”, eles são eliminados. No entanto, se forem positivas ou não interferirem na sobrevivência da espécie, cada mutação se fixa em um “filhote viral”, que permanece vivo como uma variante do original e pode dar início a sua própria linhagem. Já o termo cepa pode caracterizar uma variante ou um grupo de variantes de uma linhagem diferente da original do vírus.

Por que mutações do vírus estão surgindo? 

Em geral, os vírus sofrem mutações a todo momento e isto não é algo necessariamente bom ou ruim. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) avisou, em nota, que as mudanças em agentes infecciosos como o Sars-CoV-2 são comuns. As mutações acontecem porque, quando o vírus entra em uma célula, se replica para se espalhar. No entanto, a cada replicação, acontecem erros na cópia do material genético, originando outros vírus com algumas características diferentes – que podem impactar mais ou menos o comportamento dos novos agentes.

“O coronavírus foi identificado pela primeira vez na década de 60, mas sabia-se pouquíssimo sobre este agente infeccioso. Até o momento, são conhecidos sete tipos da família do vírus. Quatro deles levam a resfriados leves, mas três podem causar sérias complicações respiratórias: a Sars-CoV — agente da síndrome respiratória aguda grave, o Mers-Cov — conhecido pela síndrome respiratória do Oriente Médio, e a Sars-CoV-2 — que deu origem à Covid-19. Por serem agrupamentos de cargas virais, as Sars realizam mutações de caráter aleatório. Ou seja, não existem razões específicas que determinem as mudanças sofridas pelos vírus. Até o momento, é impossível prever quais mutações ocorrerão em cada uma de suas replicações, não há uma característica que indique a capacidade de multiplicação das cepas. As Sars também possuem uma grande capacidade de converter o DNA em RNA. Por isso, o vírus se multiplica de forma muito rápida e faz com que o sistema imunológico do indivíduo contaminado encontre dificuldades para produzir anticorpos específicos que combatam cada variação do vírus original”, explica o biólogo Jean Francalino. Ainda de acordo com o biólogo, os cientistas se atentam à possibilidade de novas variantes estarem surgindo através da contaminação de animais, que serviriam de hospedeiros para o vírus, gerando mutações capazes de criar novos agentes infecciosos mais resistentes.

Quais são as variantes conhecidas até o momento? Novas ainda podem surgir? 

Até o momento, não é possível chegar a um número preciso de mutações sofridas pelo vírus. Um estudo dirigido pelo Instituto de Genética da University College London, na Inglaterra, aponta que já foram identificadas cerca de 20 mil mutações do Sars-CoV-2. Apesar da grande quantidade de mutações, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta as autoridades globais para que monitorem com atenção especial três variantes do coronavírus, classificando-as como “Variantes de Atenção no Mundo”: a cepa B.1.1.7 – do Reino Unido, a P.1 – brasileira e a B.1.351 – da África do Sul. No Brasil, a agência recomenda maior cautela com as variantes brasileira e inglesa, encontradas com maior frequência no país. Segundo a última nota técnica emitida pelo Ministério da Saúde, no dia 20 deste mês, o Brasil registrou 204 casos das variantes mais graves, sendo 184 relativos à P.1 e 20 diagnósticos à B.1.1.7. Ainda com relação ao território nacional, não há registro da circulação da variante descoberta na África do Sul.

“Saber a quantidade de cepas descobertas até agora não é o mais importante porque devemos ter em mente que, a partir do momento que o novo coronavírus surgiu na China, começamos a ter mutações que geraram algumas diferenças entre os vírus. Como o Sars-CoV-2 é um vírus de RNA, que possui um processo de replicação mais simples, ele não efetua correções para os erros produzidos em sua reprodução. O vírus continuará se replicando, por isso é possível que novas mutações apareçam”, esclarece a infectologista Melissa Valentini. Segundo ela, não necessariamente as variantes são piores, apenas apresentam características distintas entre si. A cepa do Reino Unido, por exemplo, possui maior transmissibilidade, mas não há evidências de que ela possa ser mais letal. A variante brasileira, por sua vez, carrega mutações que tornam o coronavírus mais contagioso e mais resistente aos anticorpos da doença – o que pode aumentar a reincidência da Covid-19 em indivíduos já contaminados.

As novas cepas são mais perigosas?

Já que o Sars-CoV-2 possui um caráter de replicação aleatório, não é possível afirmar que suas mutações apresentam características que oferecem mais perigo aos seres humanos. Há mutações que enfraquecem e eliminam o vírus, assim como existem outras que deixam o agente infeccioso mais forte e resistente. “Ainda é cedo e faltam estudos para avaliarmos se algumas cepas são mais graves ou leves que outras. Inclusive, ainda devem surgir novas variações. A variante do Reino Unido, por exemplo, apresenta maior potencial de transmissão e, com isso, mais pessoas podem ser infectadas e hospitalizadas. No entanto, um estudo divulgado pelo governo britânico aponta que ‘provavelmente’ a cepa é mais letal do que a original, acarretando em um aumento de 40% a 60% no risco de hospitalização e de óbitos. Por outro lado, até o momento, não há pesquisas que comprovem maior letalidade da variante brasileira. Devemos esperar os resultados de mais estudos”, diz a infectologista Melissa Valentini.

As vacinas disponíveis contra a Covid-19 são eficazes frente às variações?

Os cientistas ainda investigam o grau de eficácia das vacinas contra as variações do coronavírus. Estudos publicados no periódico New England Journal of Medicine, no meio de fevereiro, sugerem que as vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna podem proteger as pessoas das novas variantes do coronavírus. Neste mês, no dia 24, a eficácia do imunizante da Johnson & Johnson contra a variante da África do Sul foi atestada pelo órgão regulador de medicamento dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA). Apesar de não serem conhecidas as taxas oficiais de proteção de algumas das vacinas contra Covid-19, Jean Francalino garante que, independente da variante contraída, as vacinas seguem possuindo a capacidade de reduzir o desenvolvimento de quadros graves de saúde, ou seja, de minimizar as chances de complicação da doença. “Mesmo quando as vacinas contra a Covid-19 entrarem para o calendário nacional de vacinação, o vírus continuará sofrendo mutações, como ocorre com a gripe. Isso não significa que os sintomas serão diferentes ou que formas mais graves surgirão. As pessoas devem se vacinar porque estes imunizantes carregam a capacidade de decodificar uma importante parcela do material genético, combatendo assim a maior parte do vírus — independente das variações específicas que carreguem. As vacinas podem não combater 100% do material genético do vírus que sofreu mutação, mas auxiliam o próprio corpo do indivíduo infectado a produzir anticorpos específicos contra estas mutações”, afirma.

Como identificar se fui contaminado pelo vírus original ou uma variante?

Segundo Valentini, os exames usados para diagnosticar a Covid-19 não são capazes de detectar se o agente infeccioso é o Sars-CoV-2 original ou alguma variante do vírus. Entre eles estão os testes RT-PCR (Reação em cadeia da Polimerase) e sorológicos, que detectam os anticorpos presentes no sangue. “Os sintomas não variam entre as cepas, geralmente são muito semelhantes aos do coronavírus, que são os sintomas básicos de uma síndrome respiratória, como a coriza, dor de cabeça, febre, dor de garganta, falta de ar e mal estar. Apenas o sequenciamento genético, realizado em laboratórios por pesquisadores, é capaz de avaliar o vírus. Neste procedimento, o pesquisador extrai o material genético do vírus e sequencia todos suas ‘partezinhas’ para identificar se trata-se da Sars-CoV-original ou de alguma cepa que está circulando na população”, afirma.

Há alguma forma de evitar a contaminação por uma nova cepa?

Da mesma maneira que “tratamentos precoces” não funcionam para evitar a contaminação pelo Sars-CoV-2 original, o bioólogo reitera que usar medicamentos como forma de prevenção não é eficaz contra as variantes do vírus. “Neste presente momento, não há nenhuma outra orientação que favoreça o controle da disseminação da doença além da adoção de medidas profiláticas vinculadas aos protocolos de sanitização e da vacinação. Usar a máscara de proteção, lavar as mãos e higienizá-las com álcool em gel, além de priorizar o isolamento social, continuam sendo os principais fatores que auxiliam na contenção da Covid-19. Além de não ajudarem na proteção, medicamentos como cloroquina, ivermectina e azitromicina podem agravar os quadros de saúde de pessoas contaminadas.”

Quem já foi infectado pela Covid-19 pode se contagiar por uma nova variante?

A infectologista Melissa Valentini alerta que, mesmo quem já foi infectado deve continuar se protegendo, já que a reinfecção pode acontecer. “Quem já se contagiou com o novo coronavírus pode sim ser contaminado por uma variante. Inclusive, na literatura médica há relatos de pessoas que pegaram o Sars-CoV-2 original e depois se contaminaram com uma variante em Manaus. Apesar de não termos muitas informações, sabemos que algumas cepas carregam uma carga viral mais alta e possuem um maior poder de contágio. Por exemplo, por isso estão recomendando o uso de máscaras mais eficazes ou, até mesmo, o uso de duas máscaras de proteção na Europa, onde as variantes circulam com maior intensidade”, conclui.

Confira a quantidade de casos das variantes da Covid-19 por região:

Tabela das variantes Covid-19 por região

Imagem: Tabela/Jovem Pan com informações atualizadas pelo Ministério da Saúde em 20 de fevereiro de 2021