Novo Ensino Médio pode aprofundar desigualdades e impulsionar mão de obra barata

Alvo de intensos questionamentos, reforma educacional entra em vigor em 2022 e vai permitir que os alunos escolham temas de maior interesse para estudo; críticos falam em exclusão de disciplinas

  • Por Caroline Hardt
  • 02/01/2022 13h00 - Atualizado em 02/01/2022 17h06
Secretaria de Educação de São Paulo/Divulgação Aluno em aula na pandemia A partir do ano que vem, os alunos poderão escolher áreas que desejam se aprofundar, que são os chamados itinerários formativos

As mudanças propostas para o chamado Novo Ensino Médio entram em vigor neste ano. A implementação da reforma educacional tem caráter obrigatório em âmbito nacional. Ou seja, todas as escolas brasileiras, tanto as públicas quanto as privadas, terão que se adequar às mudanças previstas na lei 13.415, que define as diretrizes e mudanças. Embora o texto tenha sido aprovado em 2017, durante o governo de Michel Temer, a efetiva transformação do ensino deve começar em 2022, de forma escalonada e progressiva. A proposta é que, a partir de agora, alunos da primeira série do ensino médio já tenham acesso ao novo modelo, que traz aumento da carga horária e a criação dos itinerários formativos, considerados como o principal ponto de virada da educação. Mas, na prática, o que muda no Novo Ensino Médio?

De maneira obrigatória, a partir deste mês, as escolas terão que oferecer no mínimo 1000 horas anuais de ensino, o que representa um adicional de 200 horas ao ano na comparação com o atual currículo. Além disso, os programas de ensino serão redesenhados e divididos da seguinte forma: Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é conjunto de temas e disciplinas que serão iguais para todos os alunos, e os itinerários formativos, que são grandes áreas de aprofundamento que deverão ser ofertadas aos estudantes. Ou seja, diferente do modelo atual, a partir do ano que vem, os alunos poderão escolher áreas que desejam se aprofundar, como linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional, segundo o seu interesse ou seu “projeto de vida”, explica Danilo Zanardi, coordenador pedagógico do ensino médio do Colégio Santo Américo, localizado em São Paulo.

“Se o aluno percebe que a carreira que ele vai seguir está mais ligada tecnologia, ele vai seguir a trilha de matemática e tecnologia, onde ele vai aprender análise de dados, programação de aplicativo. Tudo que tem a matemática como fundamento, mas que conversa com o mundo que ele vive”, afirma o coordenador, que vê com bons olhos a reforma do ensino. “Se vivemos em um mundo de pessoas diferentes, com interesses diferentes, habilidades, disposições, características biológicas, fisiológicas, psicológicas, emocionais e cognitivas diferentes, por que todo mundo tem que passar pelo mesmo ensino e aprendizagem”, questiona. Embora a adoção dos itinerários formativos traga a chance dos alunos aprofundarem em temas que são de seu interesse, uma das principais críticas à lei 13.415/2017 é possível exclusão de disciplinas fundamentais da base curricular. O temor é que matérias como educação física, artes, geografia e histórica, por exemplo, sejam deixadas de lado, o que prejudicaria a formação dos estudantes.

O professor de língua portuguesa Valmir Rogerio Faili, atualmente coordenador do Ensino Médio da Escola Champagnat de Presidente Prudente, cidade do interior paulista, nega, no entanto, que essa exclusão vá realmente acontecer. “O aluno não estudará apenas aquilo que escolher, ele terá uma formação geral obrigatória para cumprir ao longo do ensino médio e mais os itinerários formativos, que darão a oportunidade dele se aprofundar”, esclarece Faili, que avalia a mudança, já em andamento no colégio. “Há muito tempo se sonha com um novo formato de ensino médio, que é a etapa de escolarização com maior evasão. Então o ensino médio precisa ser mais atrativo e dialogar mais com os estudantes. […] O que eu vejo de negativo é a implementação irresponsável. Se não houver um estudo, bastante cautela e diálogo, se o projeto de vida dos alunos não for contemplado, aí teremos mais do mesmo e não fará sentido para o estudante”, conclui.

Novo Ensino Médio x abismo educacional

A implementação do Novo Ensino Médio vai acontecer em meio a um contexto de desigualdades educacionais afloradas pela pandemia de Covid-19, que levou ao fechamento massivo das escolas. Às vésperas do início da nova modalidade, aumentam os questionamentos sobre como a mudança pode aflorar o abismo da educação brasileira e, a longo prazo, se traduzir em menor acesso dos alunos ao ensino superior. O professor e pesquisador Renato Casagrande pontua que um dos pontos mais criticados da reforma é a polêmica oferta do itinerário profissionalizante. “Falam que vai reduzir a formação geral do indivíduo e prepará-lo para o mercado de trabalho. É um risco que nós corremos dele [aluno] ter um ensino médio mais fraco, não poder ingressar em uma universidade e partir para o mercado de trabalho como uma mão de obra barata. Hoje, o ensino profissional tem que ser além da carga horária. Com a nova proposta, o ensino técnico faz parte da carga, então o estudante vai ter um menor ensino universal.”

Casagrande também menciona as dificuldades enfrentadas pelas escolas para colocar em prática os itinerários formativos, considerados o coração do Novo Ensino Médio, o que pode ampliar as desigualdades. “Os Estados estão optando por um ou dois itinerários. Ou seja, não é o aluno que vai optar, é a escola. Vão escolher o itinerário com maior interesse geral ou, no interior, vai ter muito técnico. Isso vai condenar esses alunos a estarem em desvantagem em relação aos outros, que terão uma formação universal, mais êxito no Enem ou que vão passar nos vestibulares mais concorridos. A mudança é boa, mas a implantação dela não dá segurança nenhuma. Não vejo que nós estamos preparados para isso”, conclui. Assim como ele, o coordenador pedagógico Danilo Zanardi, reconhece que, em uma análise geral, a tendência é que a nova modalidade privilegie parte dos estudantes. “As escolas particulares, que tenham condição de oferecer um ensino mais específico e ainda preparar para o vestibular, vão sair muito na frente das escolas públicas. Infelizmente, então a tendência é essa desigualdade aumentar, pelo menos de início.”