Praça Roosevelt vira palco de aglomerações nos finais de semana: ‘Roleta-russa do vírus’

Moradores cobram fiscalização das autoridades e pedem que o espaço público seja cercado; a ideia é fechar o local após as 20h

  • Por Caroline Hardt
  • 15/05/2021 10h00
NELSON ANTOINE/ESTADÃO CONTEÚDOMoradores reclamam das aglomerações semanais na Praça Roosevelt; nas redes sociais, internautas relatam com perplexidade a situação

Mesmo com constantes recomendações das autoridades municipais, estaduais e de saúde, a cidade de São Paulo continua registrando focos de aglomerações em meio à pandemia de Covid-19. Um dos locais mais utilizados para esses encontros proibidos, especialmente pelos jovens, é a Praça Franklin Roosevelt, localizada no bairro da República, na região central da capital paulista. Apesar das reclamações dos moradores e das denúncias às forças de segurança, feitas ininterruptamente há um ano, o local continua sendo um lugar onde as pessoas se aglomeram. Vendo a cena, até “parece que a pandemia sequer existe”, explica Marta Porta, moradora da região e presidente da Associação dos Moradores do Bairro da Consolação (Amacon). Ela explica que o local é tradicionalmente muito frequentado, mas a situação saiu do controle nos últimos meses. “Quando começou a pandemia, entre março e abril do ano passado, detectamos uma diminuição de pessoas. Mas em maio, quando coincidiu com o fechamento de parques e espaços públicos, todo mundo decidiu que na Praça Roosevelt ninguém pega Covid-19. Me indigna ver pessoas de mais de 30 anos sem máscara, aglomeradas, passando garrafas de boca em boca”, disse à Jovem Pan. Os encontros, que estão proibidos durante a crise sanitária, acontecem semanalmente às sextas, sábados e domingos. Segundo Marta Porta, a aglomeração começa por volta das 17h30 e se estende por toda a noite, chegando a durar até a madrugada.

Além de ser um possível foco para transmissão do coronavírus, as aglomerações também dificultam o trânsito na região e geram até mesmo bate boca entre os jovens, os moradores e os agentes de segurança. “Eles começam a ficar violentos, jogam coisas contra a Polícia Militar, ameaçam. Eles bebem, têm uma quantidade grande de drogas à noite, você consegue ver claramente os caras fumando maconha, passando os pinos de crack. Teve morador que falou: ‘Gente, por favor, além de tudo tão vocês vão levar Covid-19 para suas casas’. Eles riam na cara dos moradores. Eles debocham mesmo, é triste. Você pode ser ignorante, mas zoar de uma situação, rir de uma situação tão grave?”, relata. Indignada com a situação, ela afirma que denuncia a aglomeração de pessoas semanalmente às autoridades competentes, mas sem sucesso. “Nunca tivemos pessoas da prefeitura fazendo campanha para falar sobre o uso de máscara. Quando tínhamos, eram guardas civis, mas depois de setembro, sumiram. Por que não vem um fiscal da Vigilância Sanitária para multar as pessoas sem máscara? Se existe o decreto que pode ser multado em R$ 500, por que não eles não vêm?”

Outros moradores também reclamam das aglomerações semanais na Praça Roosevelt. Nas redes sociais, internautas relatam com perplexidade a situação. “Moro na Praça Roosevelt e fico pasmo de ver o tanto de aglomeração em feriados e fins de semana. Agora mesmo está bombando, como se não houvesse pandemia”, escreveu o gerente de contas Vinícius Madeira, no Twitter. Para ele, há uma incompreensão das pessoas com a gravidade da Covid-19. . “Se fosse no início, que não conhecíamos muito a doença e tinha a ilusão que só matava gente mais velha, até daria para entender. Mas a gente está vendo pessoas jovens pegando, tendo quadros graves e morrendo. É literalmente uma roleta-russa do vírus, você se expõe e vê no que vai dar, conta com a sorte”, relata. Para ele, as aglomerações representam o egoísmo das pessoas mesmo diante da pandemia. “É não abrir mão de nada na vida, ‘não posso abrir mão do rolê essa semana’ e as pessoas acabam se submetendo a isso”, afirmou.

Assim como Vinícius, outra moradora da região, Elaine Ortis comenta que as aglomerações também acontecem durante as práticas de exercícios. “Piorou bastante nos últimos meses, desde a última restrição que foi feita pelo governo, as pessoas aglomeram demais. São pessoas que praticam esportes também, passeiam com cachorros, todos sem máscaras. Muitos bebem demais, tem caixa de som, é bem barulhento. Inclusive, nesta última restrição, começou um início de pancadão, mas a polícia dispersou”, relata. “Sensação de raiva, tristeza, indignação e vergonha, porque eu não consigo entender o motivo de as pessoas não entenderem quão grave é essa doença e o quanto essas atitudes só nos distanciam de voltar ao normal”, disse. “É ignorância e falta de humanidade e empatia das pessoas.

Direito de ir e vir

Para tentar diminuir as aglomerações na Praça Roosevelt, os moradores da região solicitaram à Prefeitura de São Paulo, por meio de um ofício, o cercamento do espaço público. A ideia é que o local seja fechado após as 20h para evitar os encontros. No entanto, em resposta aos cidadãos, a gestão municipal informou que a ideia é inviável, já que afetaria o “direito de ir e vir” das pessoas. A reportagem questionou a Prefeitura de São Paulo a respeito da possível interdição do local, mas não obteve resposta até momento. Para Marta Porta, além de um descaso das autoridades municipais, as aglomerações são fruto de uma falta de consideração das pessoas. “É gente que não tem pai, não tem vó, não tem irmãos? Juro que não entendo, é muito difícil. São pessoas que não têm sentimento com a família. As pessoas que vêm à Praça Roosevelt fazer aglomeração são sem sentimentos e sem amor à família. Não é possível, deve ter alguma manta de CoronaVac aqui que as pessoas acham que não pegam Covid-19, algo como uma bolha.” Ao ser questionada sobre as aglomerações e relatos dos moradores, a Polícia Militar informou, por meio de nota da Secretaria de Segurança Pública, que “atua em apoio aos órgãos estaduais e municipais que são competentes para fiscalização e adoção de providências”, ressaltando que entre a segunda e a terça-feira desta semana foram realizadas três ações em 39 pontos de aglomeração, prendendo “23 criminosos, sendo 17 procurados pela Justiça”.