Procuradores pedem suspensão de recomendação de cloroquina para pacientes com Covid-19

A recomendação consta em nota informativa do Ministério da Saúde publicada no dia 20 de maio

  • Por Jovem Pan
  • 30/05/2020 17h45 - Atualizado em 30/05/2020 17h46
CADU ROLIM/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDOCloroquina, Hidroxicloroquina

Procuradores de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Sergipe enviaram recomendações e ofícios ao Ministério da Saúde, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Conselho Federal de Medicina (CFM) contra nota informativa do governo Jair Bolsonaro que adotou o uso da cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19.

A Procuradoria também aponta a falta de testes para o novo coronavírus no País.

De acordo com o Ministério Público Federal, o Ministério da Saúde não respeitou o processo legal de registro de medicamentos estabelecido pela Anvisa e de incorporação de tecnologia no Sistema Único de Saúde. A recomendação do governo federal estendeu o uso das drogas para pacientes que estejam com casos leves e moderados de Covid-19 – anteriormente, as duas substâncias ganharam aval da agência somente para pacientes graves.

Os procuradores apontam que a nova abordagem do governo federal não atende aos critérios mínimos de segurança, eficácia e monitoramento de pacientes durante o uso, contrariando a resolução da agência.

A Procuradoria também aponta que a incorporação da cloroquina e da hidroxicloroquina de forma célere pode ser feita pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS, mas é preciso comprovar a eficácia, segurança e custo-efetividade do tratamento.

Estudo publicado pela revista Lancet conduzido com mais de 96 mil pacientes internados apontou que o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina em pacientes com o novo coronavírus, mesmo quando associado a outros antibióticos, aumentou do risco de morte e de arritmia cardíaca dos infectados pela Covid-19. A pesquisa é a maior já realizada até o momento sobre os efeitos da droga.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também suspendeu os ensaios clínicos que estavam sob sua coordenação em todo o mundo até a confirmação de que a cloroquina e a hidroxicloroquina são seguras para pacientes.

A nota informativa do Ministério da Saúde foi publicada no dia 20 de maio e liberou o uso da cloroquina a todos os pacientes de Covid-19 no País. O documento autoriza a prescrição da droga desde os sinais iniciais da doença, embora não haja comprovação científica de sua eficácia.

A Procuradoria também indicou que, de acordo com a resolução do governo, somente pacientes que testaram positivo para o novo coronavírus devem fazer uso da cloroquina. No entanto, o plano de testagem nacional não é capaz de atender a demanda no início de sintomas, sendo apenas testados os casos mais graves.

Outro ponto que relaciona a falta de testes e o uso do medicamento é a incapacidade do SUS de monitorar adequadamente as pessoas tratadas com cloroquina.

Os procuradores apontam que, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, em alguns casos é essencial que sejam feitos pelo menos três eletrocardiogramas ao longo do tratamento. Se o paciente não está internado, o acompanhamento da condição torna-se difícil e expõe o paciente ao risco de reações adversas.

*Com informações do Estadão Conteúdo