Quando vai acabar a obrigatoriedade do uso de máscara no Brasil? Especialistas respondem

Mesmo com avanço da vacinação e da flexibilização de regras sanitárias, infectologistas afirmam que o país não deve acabar com a exigência neste ano

  • Por Caroline Hardt
  • 19/09/2021 08h00
EFE/ Rayner Peña REstados Unidos chegaram a anunciar do uso de máscaras, mas algumas regiões norte-americanas precisaram recuar pelo avanço da variante Delta

Em meio ao avanço da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, Estados e municípios começam a relaxar medidas sanitárias, com o fim da restrição de horário do comércio, a retomada de jogos com torcida e os eventos-teste. Ao mesmo tempo, outros países já permitem a entrada de brasileiros imunizados sem a necessidade de quarentena e a realização de festas com grande presença de público. Nesse caminho, no entanto, um assunto tem dividido especialistas e se tornado um desafio para as nações: a obrigatoriedade do uso de máscaras. Os Estados Unidos chegaram a anunciar o fim do item de proteção, mas algumas regiões norte-americanas precisaram voltar atrás e retomar a exigência após um aumento de casos da doença em função da variante Delta, considerada mais transmissível. Nesse sentido, é possível falar em suspensão do uso de máscaras ainda em 2021? Com pouco mais de 36% da população imunizada com duas doses da vacina, o Brasil já pode planejar uma flexibilização?

Na visão do diretor da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI), Evaldo Stanislau, o Brasil, assim como outros países com situação epidemiológica semelhante, sequer deveria cogitar o fim do uso de máscaras neste momento, especialmente em lugares fechados. Segundo o infectologista, embora os índices de casos da Covid-19 e de mortes em decorrência da doença estejam em um ritmo de desaceleração no país, a pandemia ainda não acabou e os protocolos sanitários devem seguir em vigor. “É completamente equivocado, é uma temeridade o Ministério da Saúde, o ministro falando em qualquer estudo de retirada de máscara. Falta bom senso nessa fala, porque mesmo pessoas vacinadas podem se infectar, eventualmente adoecerem e podem transmitir o vírus. Então, devemos continuar falando do uso de máscaras sobretudo nos ambientes fechados e nos abertos com aglomeração.”

Ao longo da semana, o ministro Marcelo Queiroga afirmou que o Brasil caminha para a suspensão da utilização de máscaras. Anteriormente, em 11 de agosto, o chefe do Ministério da Saúde já havia dito que o fim do uso do item de proteção vai acontecer ainda em 2021. A fala se repetiu na última quinta-feira, 16, quando o ministro disse, em transmissão nas redes sociais ao lado do presidente Jair Bolsonaro, que “quem quiser, usa” a máscara, mas há uma “mania de querer criar lei para tudo”, fazendo referência à obrigatoriedade. A proposta de acabar com a exigência é amplamente defendida por Bolsonaro, que diversas vezes já pediu “de maneira reiterada” a Queiroga que aponte possíveis datas para acabar com a imposição. Para que isso aconteça, Queiroga disse que é necessário que o “contexto epidemiológico seja favorável a essa ação e a nossa campanha [de vacinação] avance mais”. No entanto, segundo os infectologistas, esse “momento positivo” não deve acontecer neste ano. “Em 2021 certamente não [será extinto o uso de máscaras]. Em 2022, se nós atingirmos um nível de transmissão comunitária baixo, aí sim é possível”, pontua Stanislau.

Assim como o diretor da SPI, Jorge Garcia Paez, infectologista do Grupo São Cristóvão Saúde, acredita que o uso de máscaras deve prevalecer ainda por um bom tempo. Para ele, a discussão sobre o fim da exigência é atualmente impossível. “Ainda temos uma transmissão de vírus na comunidade, fomos um dos países mais afetados pela pandemia por falta de políticas públicas adequadas. Então, isso não deve ser cogitado”, afirma o especialista. Ele pontua que a utilização do item é “muito simples”, por isso, cabe à população ter a consciência de que a medida sanitária é eficaz para conter a Covid-19. “Novas variantes significam que ainda tem transmissão do vírus, então o risco de pessoas se infectarem, de evoluírem com complicações, até óbitos, ainda existe. Assim, todas as medidas não farmacológicas, como o uso da máscara, distanciamento social, físico, evitar locais fechados, mal ventilados vão persistir por muito tempo. Não existe um prazo para diminuir ou flexibilizar essas medidas.”

Qual a previsão para o fim da exigência?

Na visão dos infectologistas, o Brasil só pode iniciar a discussão sobre um possível fim do uso de máscaras quando o país registrar níveis baixos de transmissão comunitária, o que seria entre os níveis 1 e 2 da escalada da Organização Mundial da Saúde (OMS), que vai até 7. A receita para que isso seja possível está na manutenção dos protocolos sanitários, incluindo distanciamento, uso de máscaras, aumento da imunização, com pelo menos 80% da população com o esquema vacinal completo e a testagem em massa, que até hoje não acontece no país e poderia traduzir os verdadeiros níveis de contágio e de casos assintomáticos. Enquanto isso não ocorre, a diretriz é que o Brasil mantenha o uso de máscara obrigatório e se atentem à flexibilização precipitada das medidas sanitárias, explica Paez. “As medidas têm sido flexibilizadas mais por questão política e econômica do que por critério científico, porque as infecções continuam, o risco continua e a vacinação não está em uma porcentagem ideal. Então, vamos ter que continuar com essas ações por um bom tempo ainda. Devemos continuar usando as máscaras para nos prevenirmos e para cuidar dos outros.”