Teich detalha divergência com Bolsonaro: ‘Eu me preocupava com a polarização’

  • Por Jovem Pan
  • 24/05/2020 20h30
Dida Sampaio/Estadão ConteúdoO ex-ministro da Saúde Nelson Teich e o presidente Jair Bolsonaro

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich falou pela primeira vez, em detalhes, sobre a saída do governo em meio à pandemia do novo coronavírus. Em entrevista neste domingo (24) à GloboNews, Teich confessou que “existia uma diferença muito clara” entre ele e o presidente Jair Bolsonaro “na forma de abordar o problema”, admitiu que o protocolo de uso da cloroquina em casos leves de Covid-19 “teve um peso” para que ele tomasse a decisão de deixar o cargo e revelou: “eu me preocupava com a polarização”.

“O problema não é a cloroquina, o problema são as suas escolhas. Quando eu foco em um remédio como esse, eu estou polarizando e não posso polarizar. Eu me preocupava com a polarização”, afirmou Teich, antes de admitir que era contra a autorização do medicamento por parte do Ministério da Saúde para pacientes em estágios iniciais da doença. Segundo o ex-ministro, o Brasil teria uma resposta sobre a comprovação científica da eficácia do medicamento em até um mês, e, por isso, ele achava melhor esperar para tomar uma decisão.

“Se tem uma coisa que eu não sei se funciona, não posso gastar dinheiro nisso, porque eu tenho pouco dinheiro… Tenho que gastar dinheiro no que eu sei que funciona. O presidente achava que era melhor antecipar, e eu achava melhor que não. Para mim, eu tinha que esperar para tomar alguma decisão. Então, houve uma divergência. Mas o presidente é a pessoa escolhida, votada… Se eu escolho um caminho que é diferente do dele, que era o de esperar um resultado final (dos estudos científicos sobre a cloroquina), quem tem de sair sou eu”, acrescentou.

O ex-ministro ressaltou, no entanto, que, apesar das divergências referentes ao uso da cloroquina, em nenhum momento se sentiu pressionado por Bolsonaro. “Eu conversava com o presidente, por mais que tivesse problema com ele. Não tinha pressão. Era uma conversa, mas quem decidia era eu. Então, eu não iria aceitar ser pressionado”, afirmou. “O fato de haver uma divergência não quer dizer que haja um conflito. A gente sempre sentava e conversava, por mais difícil que fosse a conversa. Foi uma saída confortável”, definiu.

Teich afirmou ainda que, após a publicação de um estudo que mostra que a cloroquina aumenta o risco de mortalidade em pessoas com casos leves de Covid-19, é preciso haver um “reposicionamento” por parte das entidades que autorizaram a utilização do remédio nesse tipo de situação. Segundo ele, cria-se “uma confusão” quando se deixa a cargo do médico a decisão de se receitar ou não o medicamento.

“Não dá para deixar na mão do médico essa decisão. É grande demais para deixar na mão dele… Ainda não existe um estudo definitivo sobre a cloroquina”,afirmou o ex-ministro. “Você saiu de um momento inicial, de teste in vitro, que parecia funcionar, e tem agora uma evolução que caminha para um aumento na mortalidade. Então, hoje, a gente tem de rever. Os conselhos têm de se reposicionar, porque, nesse momento, não se pode deixar duvida sobre o que se pensa, não pode deixar duvida em todo mundo. Tem que rever”, finalizou.