Transplantes de órgãos diminuem na pandemia e voltam ao patamar de 2017

Procedimentos de córnea, por exemplo, chegaram a sofrer queda de 53% em 2020; pessoas que morreram por complicações da Covid-19, na maioria das vezes, não podem ser doadoras

  • Por Camila Corsini e Guilherme Strabelli
  • 27/03/2021 12h00
Northwestern MedicinePessoas que entraram em óbito por causa da Covid-19 na maioria das vezes não podem ser doadoras

Dezenove anos depois de seu primeiro transplante, o comerciante Fernando Henrique Salomão, 41, voltou à fila para receber um novo órgão depois de ter sido infectado pela Covid-19 em dezembro de 2020 e ter perdido seu rim para a doença. Natural de Bragança Paulista, no interior do Estado de São Paulo, Fernando relata que a notícia de que teria de voltar à fila de transplantes mexeu negativamente com ele, destacando que o contexto da pandemia do novo coronavírus torna as expectativas ainda mais baixas. “A minha sensação é que realmente não há o que ser feito. Ela (a pandemia) acabou atrapalhando um contexto geral e, consequentemente, os doadores de órgãos acabaram diminuindo. E isso, para a gente que está na fila, é um desespero. Porque a gente sempre fica aguardando aquela ligação. A ligação de que tem um órgão para a gente retornar a uma vida o mais próxima do normal possível”, diz Fernando.

A situação vivida pelo comerciante também é a realidade de outras milhares de pessoas. No Brasil, de acordo com dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), cerca de 40 mil estão atualmente à espera de fazer a cirurgia e ter um novo órgão. O ritmo da realização dos procedimentos estava acelerado até o começo da pandemia, quando as doações entraram em declínio rapidamente. O número de transplantes de órgãos realizados em 2020 caiu 12,3% em relação ao ano anterior e se igualou aos patamares de julho de 2017, quando 15,8 procedimentos por milhão de habitantes eram feitos anualmente. Desde 2013 o número estava em constante ascensão — de 13,2 no ano até 18,1 em 2019.

Em 2020, o impacto foi grande levando em conta o ano anterior. Entre os procedimentos mais afetados, estão: córneas (-53%), pulmão (-39%), rim (-25%), coração (-17%), pâncreas (-12,5%) e fígado (-10%). De acordo com o editor do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) e membro da ABTO, Valter Duro Garcia, alguns procedimentos foram adiados para não expor nem o doador vivo e nem o transplantado aos riscos da Covid-19. Além disso, alguns órgãos não são considerados de tanta urgência — como é o caso da córnea. Todos os dados são do registro da ABTO.

Fato é que pandemia trouxe também dificuldades para esses procedimentos, visto que pessoas que morreram por complicações do coronavírus na maioria das vezes não podem ser doadoras. Após a morte do senador Major Olímpio, no último dia 18 de março, por Covid-19, o debate entrou em questão novamente. O parlamentar do PSL era grande defensor do tema e desejava ter seus órgãos doados. A avaliação médica chegou a ser anunciada pela família nas redes sociais, mas os profissionais não permitiram o procedimento por causa das consequências da doença. “Hoje, se uma pessoa morre por Covid-19 e ainda está com o coronavírus, não pode ser doadora. Depois de 30 dias que passou a doença, ela pode ser doadora. Isso é o que vale atualmente”, explica Garcia.

Falta de acolhimento

O publicitário Alexandre Barroso, 62, transplantado três vezes e administrador do grupo “Transplantei… e daí?” no Facebook, explica que a taxa de recusa aumentou durante a pandemia, mostrando que o panorama se inverteu em comparação com 2019, por exemplo. “A gente tinha um número crescente de doação de órgãos acontecendo com muita velocidade para cima naquele ano, depois de muito tempo de trabalho. Santa Catarina e Paraná, por exemplo, tinham uma recusa de 40%, o que significa um aceite, um ‘sim’, de 60% e isso é uma evolução. Agora inverteu e temos o quadro contrário”, afirma Alexandre.

Ele também diz que, além do efeito prático da Covid-19, que afasta potenciais doadores, a falta de acolhimento das famílias também prejudica o andamento da fila de transplantes. “Hoje, as famílias não estão sendo acolhidas de maneira correta. Diante do momento em que as pessoas sequer estão tendo acesso a hospitais, claramente as famílias recuaram ao pensar em doação. Você percebe que isso só funciona quando há capacitação de profissionais na hora de receber uma situação de emergência e de acolher essa família. Só há resultado se essa família for acolhida quando ocorrer um acidente por morte encefálica”, diz o publicitário.

O comerciante Fernando também explica que, além da queda no número de doadores, outros fatores têm dificultado o andamento da fila de transplantes. Ele criticou as medidas adotadas pelas autoridades em relação às cirurgias durante a pandemia e alertou que estão faltando medicamentos necessários para o período pós-transplante. “Já passei por vários tipos de governos e, independente de posição partidária, eu nunca passei por um descaso total como está sendo com esse governo. Não tem nenhuma ação eficaz que favorece, nesse governo ainda mais, a realização de transplante e o incentivo de transplante”, desabafa.

“E ainda pior, estamos lutando contra a falta de medicação. Eu faço parte de grupos de transplantados no Facebook que estão desesperados diariamente por não terem acesso aos medicamentos que são indispensáveis para a manutenção do novo órgão. A pessoa fica meses, anos em uma fila dependendo de máquina para sobreviver. Quando consegue um órgão, chega o governo e não compra medicação, e deixa faltar remédios que a gente não pode ficar sem”, afirma Fernando.

Legislação

No Brasil, é permitida a doação de córneas, coração, pulmões, rins, fígado, pâncreas, ossos, pele e medula — o que pode salvar a vida de oito pessoas. Os dados mais recentes sobre o tema indicam que o Brasil é o segundo país que mais realiza transplantes no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Ainda assim, 42% das família não autorizam o procedimento com o ente querido. Isso acontece porque, ainda que o possível doador manifeste sua vontade em vida, a família é a responsável pela decisão final.

No Congresso, pelo menos dois projetos de lei tentam mudar isso — um deles, o PL 3.176/2019, foi proposto pelo próprio Major Olímpio. O texto torna a doação presumida — ou seja, após o óbito, uma pessoa maior de 16 anos será considerada doadora até que se prove o contrário, independente da posição da família. A matéria está parada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sob relatoria do senador José Serra desde dezembro de 2019. Já o PLS 405/2012, do senador Humberto Costa, também considera a decisão pessoal registrada nos documentos de identificação dos brasileiros, como o RG. O texto também está parado na CCJ desde 2019, sob relatoria do senador Rogério Carvalho.

Perspectivas para o futuro

Analisando a situação da fila de transplantes atual no Brasil, Fernando diz que sua perspectiva para o futuro a curto prazo “não é muito boa”, explicando que, assim como ele, diversas pessoas estão retornando à fila por causa da Covid-19 e que esse aumento, aliado à falta de ações do governo, gerarão estragos irreversíveis. “Cada vez mais pessoas perdendo órgãos, cada vez mais pessoas precisando das máquinas para sobreviver, e com essa pandemia, da mesma forma que eu perdi meu rim transplantado, outras pessoas também estão perdendo. Nesse ano de 2021 e no próximo eu acredito que a gente vai ficar estagnado, porque é um descaso absoluto do governo. Então esses estragos não serão reversíveis. A gente vai perder muitas pessoas”, diz o comerciante.

Fernando complementa: “A gente luta o máximo que pode, mas depender do governo, que não está seguindo como deveria seguir, olhar para quem deveria olhar e indicar o que deveria indicar, é desastroso. A gente caminha para um abismo”. A previsão de Alexandre é ainda mais dura, uma vez que o publicitário acredita que a situação ficará instável por alguns anos. “Muito provavelmente nada disso vai terminar antes de 2025, na minha opinião. E o que vai se fazer daqui até lá? Continuar mantendo as portas das unidades de transplantes fechadas? As próprias equipes de transplantes foram realocadas para a frente de trabalho contra a Covid-19. E como é que faz com as pessoas que estão à espera de um coração, de um pulmão, de um fígado?”, questiona Alexandre.