Um ano de Covid-19: Saiba o que mudou no enfrentamento da pandemia no Brasil

Uso obrigatório de máscaras, tratamentos precoces e adoção do lockdown em mais de seis Estados estão entre as principais mudanças na corrida contra o coronavírus

  • Por Caroline Hardt
  • 26/02/2021 07h00
EFE/Fernando Bizerra Jr/ArchivoApesar do alívio econômico, a reabertura gradual também trouxe o relaxamento das medidas sanitárias e muitos impactos

Um dia após ultrapassar a marca de 250 mil mortes pela Covid-19, o Brasil completa nesta sexta-feira, 26, um ano do primeiro caso confirmado da doença no país. O primeiro registro de contaminação pelo coronavírus aconteceu na cidade de São Paulo, envolvendo um homem, de 61 anos, recém-chegado de uma viagem à Lombardia, na Itália. Na época, a região italiana enfrentava avanços significativos do coronavírus, sendo o foco das contaminações na Europa, com 300 casos confirmados. Depois do primeiro registro, novas contaminações foram confirmadas nos dias seguintes, assim como o aumento gradual da transmissão da doença. Em um ano, mais de 10 milhões de pessoas foram infectadas pelo Sars-CoV-2 no país e 251.498 brasileiros morreram em decorrência da infecção. Medidas de isolamento foram adotadas, flexibilizadas e reestabelecidas; o uso da máscara de proteção, antes não recomendado pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS), se tornou obrigatório; inúmeros remédios e tratamentos foram testados —  sem sucesso —  para a prevenção à doença. Em 365 dias, enfrentamos duas ondas da pandemia, confirmamos a incidência de três novas cepas do vírus no Brasil e atingimos, segundo algumas autoridades, o pior momento de transmissão da doença. Nesse contexto, a Jovem Pan conversou com especialistas em saúde para entender as mudanças nos protocolos sanitários e nas formas de enfrentamento à pandemia no Brasil ao longo do último ano.

Quarentena

Um dos primeiros protocolos contra a crise sanitária que se alastrava no Brasil —  e no mundo —  foi o surgimento das medidas de restrição, que incluíram a adoção de uma quarentena no país. Dos cinemas às universidades, todos segmentos tiveram as atividades brutalmente interrompidas por um longo tempo. Essa situação se prolongou até meados de julho, quando os primeiros Estados começaram a adotar planos de flexibilização e reabertura das atividades econômicas, severamente afetadas pela pandemia. Entre relaxamentos e novas restrições, shoppings foram reabertos, bares e restaurantes voltaram com atendimento ao público, cinemas lançaram novos filmes e cogitaram até a volta dos torcedores aos estádios – o que não aconteceu. Apesar do alívio econômico, a reabertura gradual também trouxe o relaxamento das medidas sanitárias e muitos impactos: praias lotadas, festas clandestinas, comércios de rua e bares com aglomerações e concentração de pessoas.

Como resultado, um ano depois, a situação pandêmica mudou pouco e a quarentena se mostra ainda mais necessária. Em meio ao crescente avanço do coronavírus pelo Brasil, com a já confirmada segunda onda de infecções, autoridades sanitárias e comitês de saúde continuam reforçando a importância do isolamento social para diminuir a transmissão do vírus e, consequentemente, o aumento de casos, internações e óbitos pela Covid-19. Estados como São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Goiás, Paraíba, Ceará e Piauí possuem cidades que adotaram a volta de medidas restritivas, como lockdown e toques de recolher noturnos. Com novas cepas, baixos índices de isolamento e aumento de casos, autoridades reforçam que a quarentena ainda não acabou. “O que temos que discutir não é se as regras de isolamento valem, elas são super importantes e têm uma eficácia fantástica. O problema é que somente as atividades regulares, como o comércio, bares e restaurantes, conseguem ser fiscalizados, a clandestinidade, não. Não adianta questionar que não vale a pena fazer restrição, lockdown, toque de recolher, isso funciona. O problema é conseguir atingir pessoas que estão fazendo atividades clandestinas”, explica Alexandre Naime Barbosa, chefe de infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), citando os desafios para a manutenção das medidas de isolamento um ano após o começo da pandemia.

Fechamento da Escolas

Embora a adoção da quarentena, das medidas de distanciamento social e isolamento continuem valendo um ano após o primeiro caso da Covid-19 no Brasil, o entendimento sobre a paralisação de alguns setores da sociedade mudou, como é o caso das escolas. Inicialmente, comitês de saúde e autoridades optaram pelo fechamento da educação e a interrupção das aulas presenciais para diminuir a transmissão do coronavírus. Naquela época, autoridades acreditavam que as crianças, potenciais assintomáticas, poderiam facilmente transmitir o vírus para membros da família, o que aumentaria a propagação da doença. Um ano depois, profissionais de saúde consideram que a avaliação foi “um erro”, embora admitam que, naquele momento de desconhecimento do vírus, o fechamento de todos os setores da economia era a melhor medida a ser adotada.

“Não há dúvidas de que foi um erro [estabelecer rigorosas medidas de isolamento]. Hoje, percebemos que restringir da forma que fazíamos pode ser ruim. Cada vez mais a gente vai aprender a se adaptar para proteger a saúde e a economia. Caso contrário, setores vão ter impactos trágicos, e não é isso que se deseja”, disse o secretário estadual da Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn, em entrevista à Jovem Pan. Por isso, agora, em 2021, mesmo com o aumento de casos da Covid-19 e a imposição de novas medidas restritivas, governadores e comitês de saúde optaram pela manutenção do ensino presencial, com adoção do sistema de rodízio entre os alunos, aplicação de protocolos de segurança, como uso constante de máscaras, disponibilização de álcool gel e distanciamento, e monitoramento de possíveis casos positivos entre os professores, funcionários e estudantes da rede de ensino.

Uso de máscaras

Amplamente condenado nos primeiros meses da pandemia, o uso de máscaras foi outro protocolo sanitário que mudou drasticamente ao longo do último ano. Em meados de março de 2020, com aumento da demanda por suprimentos hospitalares, diversos países enfrentaram escassez de equipamentos de proteção individual (EPIs), como as máscaras. Considerando o cenário, o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, lembra que, inicialmente, a recomendação das autoridades era, de fato, a não adoção do item de proteção pela população. “A gente recomendava que as máscaras deveriam ser para profissionais da saúde e indivíduos sintomáticos. Uma das lições aprendidas com a pandemia foi justamente essa, a de que a doença também é transmitida por indivíduos que estão na fase pré-sintomática. Ou seja, que não começaram, mas vão desencadear os sintomas, e pelos assintomáticos. Hoje, sabemos que 58% dos casos de transmissão acontecem por indivíduos que ainda não manifestaram sintomas.”

Além da falta de suprimentos, também existia o desconhecimento sobre os possíveis benefícios da utilização de máscaras alternativas, feitas de pano, por exemplo, para a proteção contra o coronavírus. “A gente aprendeu que qualquer método de barreira, de alguma maneira, impede que uma quantidade maior de vírus seja liberada no ambiente. Quem usa se protege da aquisição e também de transmitir quando está sem sintomas. Mas é claro que profissionais com alto grau de exposição, especialmente os que trabalham com pacientes infectados, com situações de maior circulação do vírus, principalmente por aerossol, dentro de hospitais, incubação ou coleta de exames, precisam usar máscaras que tenham capacidade de filtrar melhor as partículas virais”, explica Kfouri. Um ano depois, além de considerar obrigatório o uso de máscara em ambientes públicos, alguns segmentos da sociedade, como as companhias aéreas, já exigem o uso de determinados modelos, que podem garantir maior proteção dos passageiros. Nesse sentido, o infectologista reconhece que modelos como N95, KP95 e PFF2 possuem proteção maior, mas lembra que a adesão do item ao rosto é mais importante do que o material em si. “Mais eficiente do que ter duas, três ou quatro camadas, é a adaptação no rosto. Não só o uso correto, mas uma máscara bem adaptada ao rosto funciona melhor.”

O Coronavírus

A mais importante mudança, nesse último ano de pandemia, foi o amplo conhecimento adquirido pelos médicos, pesquisadores e demais profissionais da saúde sobre o Sars-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19, e suas implicações para os infectados. Embora a doença no Brasil tenha sido diagnosticada quase dois meses após a China relatar o primeiro episódio da contaminação, pouco se sabia sobre o vírus. Assim, entender as características do coronavírus, como sua fácil transmissão e adaptação, foi uma das descobertas mais importantes do último ano, explica Alexandre Naime Barbosa, que também é consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia. “Vírus que muita gente desprezou, inclusive a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) achou que não seria tão transmissível, principalmente em relação à adaptação, tornando-se ainda mais fácil de transmitir do que o vírus original. Vírus que está se adaptando ao ser humano, e isso leva ao cenário de maior número de óbitos, visto que a vacinação, principalmente no Brasil, está em ritmo de tartaruga. Como não temos uma população vacinada nem a colaboração da população, o trabalho do vírus é facilitado. Já imaginamos que o cenário até o final do ano não seja nada otimista.”

Além de uma característica mais transmissível, o especialista também cita como mudança do último ano o entendimento da Covid-19 como uma doença não apenas respiratória. “Uma doença que começa com uma infecção no sistema respiratório, vai para o pulmão e ela dissemina pelo corpo, tem repercussões no coração, sistema nervoso. A Covid-19 tem potencial para ser uma doença sistêmica.” Essa característica, em especial, torna a enfermidade mais perigosa e pode explicar o surgimento de diferentes sequelas nos pacientes, como falta constante de ar, redução da capacidade pulmonar, insuficiência cardíaca, perda de memória, olfato, paladar e cabelo, depressão, ansiedade e problemas digestivos. 

Tratamento Precoce

Além de falar sobre a importância de conhecer melhor o Sars-CoV-2 e a Covid-19, Alexandre Naime Barbosa também cita as mudanças nos tratamentos da doença. Ao longo do último ano, diferentes fármacos foram testados em pacientes com casos leves, moderados e graves da contaminação. Nesse caminho, marcado por muitos debates — inclusive políticos — sobre o assunto, nenhum estudo chegou a comprovar a eficácia de medicamentos para casos leves da Covid-19, mostrando, inclusive, piora nos quadros de pacientes que fizeram a utilização dos remédios. “Descobrimos que muitas medicações propostas de forma apressada acabaram não mostrando eficácia contra formas leves da Covid-19, que acontece em 85% das pessoas, que é como um resfriado ou uma síndroma gripal. Várias drogas foram colocadas, mas estudos clínicos mais abrangentes mostraram que esses medicamentos não têm nenhum tipo de ação para impedir que a Covid-19 leve evolua para caso mais grave. Medicações como hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, vitamina C, vitamina D, zinco, várias poções mágicas que as pessoas vinham tentando, até ozônio retal propuseram… Infelizmente, nenhuma delas mostrou eficácia.”

Renato Kfouri lembra que a testagem dos medicamentos aconteceu após pesquisas preliminares mostrarem sucesso para combate ao vírus, o que não foi confirmado nas etapas seguintes. Segundo ele, embora controversos pela falta de dados, o uso era justificado.  “No começo, quando você tinha quadros graves [da Covid-19], sem nenhum tratamento antiviral, nenhuma droga capaz de matar o vírus, muita coisa foi tentada, e com razão. Os chamados tratamentos compassivos. O que se pensou, no primeiro momento, foi em drogas que, dentro de laboratórios, tinham alguma ação na inibição da multiplicação do vírus: droga para malária, HIV, hepatite, vermes. Algumas delas foram testadas na prática, era absolutamente compreensível o uso desses medicamentos com esse caráter. Ao mesmo tempo, os estudos foram se acumulando e mostrando que a grande maioria não tem nenhuma ação no tratamento da Covid-19.”

Alexandre Naime Barbosa explica que, nesse caso, não é uma questão política a utilização dos medicamentos. Embora seja um “desejo de todos”, um ano depois, não existem ainda alternativas de tratamento precoce da Covid-19 que impeçam o agravamento da doença. “O problema é que não existe nenhuma comprovação científica, isso que a gente entendeu no último ano. Não há medicamentos que sejam eficazes no tratamento precoce para casos leves.” Em contrapartida, para casos graves da doença, a ciência já conseguiu avançar com estudos que comprovam a eficácia dos corticoides para diminuição de óbitos. ” A gente aprendeu que, para pacientes que estão hospitalizados e precisam de alta quantidade de oxigênio, o corticoide pode salvar vidas, mas apenas para pessoas que tenham a fase pulmonar, ou seja, tenham a Covid-19 grave ou a Covid-19 crítica. Para casos leves, o uso de corticoide pode até piorar o prognóstico”, disse. Renato Kfouri também cita resultados positivos do uso do antiviral remdesivir, de corticoides e de anticoagulantes para diminuir as internações e a mortalidade de pessoas com quadros graves.

Vacinas

O conhecimento e entendimento sobre as vacinas contra a Covid-19, tão aguardadas neste último ano, também sofreram algumas mudanças nos últimos 365 dias. Para o infectologista Alexandre Naime Barbosa, essas alterações se deram, especialmente, na quebra de expectativas quanto à eficácia dos compostos para impedir a circulação do vírus. Embora sejam eficazes contra casos graves, hospitalizações e óbitos pela doença, os imunizantes não inibem a transmissão. “Esperávamos uma vacina que impedisse a circulação do vírus, que impedisse quadros leves, não foi o que aconteceu. Essas vacinas impedem quadros graves, hospitalizações, óbitos, o que obviamente é uma coisa muito boa, mas não impedem a circulação do vírus. As pessoas podem ter formas leves e transmitir a doença”, disse. Naime Barbosa considera que o erro foi de ter uma “expectativa muito alta” para compostos produzidos tão rápidos. “Foi um erro nosso imaginar que pudéssemos desenvolver vacinas completamente eficazes em relação a não permitir a circulação do vírus. As vacinas são muito boas para evitar hospitalizações, óbitos e internações em unidades de terapia intensiva.”

A boa notícia, segundo Naime Barbosa, é que o desenvolvimento dos imunizantes — extremamente seguros — aconteceu em um tempo recorde e por diversos laboratórios, o que pode permitir uma vacinação a nível mundial mais rápida. Até sexta-feira, 26 de fevereiro, data em que o Brasil completa um ano de pandemia, pouco mais de 6 milhões de brasileiros foram imunizados contra a Covid-19, o que representa ainda menos de 3% da população. Segundo o monitoramento “Our World in Data” (Nosso Mundo em Dados, em tradução livre), da Universidade de Oxford, países como Israel (53,1%), Reino Unido (26,9%), Bahrein (16,8%), Chile (16,3%), Estados Unidos (13,5%)  e Sérvia (12,6%) são os territórios mais avançados na campanha de vacinação contra a doença.