Copom inicia a última reunião do ano com expectativa de elevar os juros a 9,25%

Banco Central deve fazer novo acréscimo de 1,5 ponto percentual na Selic em meio ao agravamento das expectativas para a inflação em 2021 e 2022

  • Por Jovem Pan
  • 07/12/2021 15h32
EDUARDO DUARTE/ESTADÃO CONTEÚDOPesquisa organizada pelo Banco Central indica nova deterioração da estimativa para a economia doméstica

Começou nesta terça-feira, 7, a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de 2021. O encontro vai se estender até esta quarta-feira, 8, com o resultado sendo divulgado após às 18h30. O consenso dos analistas é por uma nova alta de 1,5 ponto percentual na Selic, elevando a taxa básica de juros da economia brasileira para 9,25% ao ano. Caso se confirme, vai ser o maior patamar na passagem de um ano para o outro desde o fim de 2016, quando a Selic foi a 13,75%. O atual ciclo de aceleração dos juros iniciou em março deste ano com a alta de 2% — o menor valor da história — para 2,75%. O Copom fez mais dois acréscimos de 0,75 ponto nas reuniões de maio e junho, elevando a Selic para 4,25%. A disseminação das pressões inflacionárias ao fim do primeiro semestre levou a autoridade monetária a aumentar a dose a partir de agosto ao fazer duas altas de 1 ponto percentual e jogar os juros para 6,25% em setembro. O quadro ficou ainda mais agravado com o apoio do governo federal na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, e o Copom reagiu com o aperto da política monetária para alta de 1,5 ponto percentual no encontro de final de outubro, contratando nova alta da mesma magnitude para esta última reunião.

O novo ciclo de alta deve se estender para 2022, segundo as previsões do Boletim Focus, a pesquisa semanal do BC com mais de uma centena de bancos, casas de análise e outras instituições. O mercado estima que o Copom eleve a Selic a 11,25% ao fim do primeiro trimestre e a estabilize nesse patamar até a virada do ano. Para 2023, os analistas estimam o início de uma nova temporada de corte nos juros, trazendo os juros para 8%, enquanto para 2024 a taxa deve ser reduzida para 7% ao ano. As recentes altas da Selic levaram a taxa para o nível contracionista, ou seja, quando o patamar dos juros prejudica o desenvolvimento da economia. O principal remédio para trazer a inflação para baixo também desestimula as atividades ao “aumentar” o preço do dinheiro e desestimulando a tomada de crédito e investimentos. A alta dos juros em 2021 levou à sucessivos cortes na expectativa para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e 2022. Ao fim de dezembro, o mercado financeiro estima que a economia irá expandir 4,71% — ante expectativa de crescimento de 5,1% do governo federal. Já para o ano que vem, a estimativa foi rebaixada para avanço de 0,51% — com entidades prevendo até queda do PIB —, enquanto o Ministério da Economia mantém a expectativa em 2,1%.

selic nov11

A aceleração dos juros ocorreu em paralelo ao avanço da inflação de formas mais forte e persistente que o previsto. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi a 10,73% no acumulado de 12 meses na prévia de novembro — o último dado antes da reunião do Copom. Em outubro, a análise completa mais recente, o IPCA foi a 10,67% em 12 meses, mantendo o indicador acima de dois dígitos na trajetória iniciada no mês anterior, quando foi a 10,25%. Este foi o resultado mais expressivo para o período desde janeiro de 2016, quando foi a 10,71%. A aceleração da inflação é puxada principalmente pela variação de preços administrados, como a energia elétrica e os combustíveis, em meio ao quadro de forte desvalorização do real ante o dólar, alta no preço das commodities e os rescaldos da crise hídrica. O mercado financeiro projeta que o IPCA encerre o ano em 10,18%, segundo previsão do Boletim FocusO resultado é basicamente o dobro do teto da meta de 5,25%, com centro de 3,75% e piso de 2,25%. A constante revisão para a variação de preços deste ano já contaminou as expectativas de 2022. Para o ano que vem, a mediana da pesquisa feita pelo Banco Central aponta inflação a 5,02%, levemente acima da meta de 5% perseguida pelo BC, com centro de 3,50% e piso de 2%.

A disseminação dos efeitos negativos para o próximo ano acendeu um sinal no Banco Central. “A expectativa de inflação começa a ver 2022 com uma desancoragem inicial parecida com 2017. O Banco Central entende que é muito importante atuar nessa desancoragem”, disse Roberto Campos Neto, presidente da autoridade monetária, em um evento com empresários da construção civil no fim do mês passado. Campos Neto afirmou que o IPCA está perto do topo e projeta a queda da variação de preços a partir do próximo ano, contrariando previsões anteriores. “Em algum momento nós imaginávamos que [o auge da inflação] fosse em setembro, mas os choques de energia vieram de forma consecutiva e surpreendendo a todos”, disse, ao citar também o impacto dos combustíveis na variação dos preços. “Acabou tendo esse elemento de energia surpreendendo e se espalhando mais nas cadeias, principalmente quando a gente olha a parte industrial.” Campos Neto creditou o aumento da inflação doméstica ao avanço dos preços em escala global diante da manutenção elevada da demanda por bens e o aumento do consumo de energia elétrica. “Nós entendemos que em algum momento iríamos ter uma combinação de inflação local com inflação importada, uma coisa que não aconteceu na história recente do Brasil em nenhum governo, e seria mais difícil de mensurar e de reagir”, afirmou. Apesar dessa alta mais intensa e disseminada, o presidente do BC afirmou que a entidade “tem um instrumento” para trazer o índice para o centro da meta “no horizonte relativamente não muito longo”.