Gasolina e diesel sofrem 5 reajustes apenas em 2021 e devem aumentar mais; entenda

Sequência de altas é reflexo da valorização do petróleo, ao mesmo tempo que o real se mantém fraco ante o dólar; especialistas afirmam que novos preços devem ser anunciados neste mês

  • Por Gabriel Bosa
  • 11/02/2021 13h53 - Atualizado em 11/02/2021 15h53
PAULO LIEBERT/ESTADÃO CONTEÚDOReajustes acompanham valorização do petróleo no mercado internacional e enfraquecimento do real ante o dólar

Em pouco mais de 40 dias desde a virada do ano, a Petrobras já anunciou três aumentos de preço para a gasolina nas refinarias e dois para o diesel. Em 18 de janeiro, a estatal aumentou a gasolina em 7,6%, e no dia 26 teve um novo acréscimo de 5%, mais 5% no diesel. O último anúncio foi nesta segunda-feira, 8, com aumento de 8% na gasolina e 6% no diesel. Ou seja, em dois meses, a gasolina já subiu 20,6% e o diesel 11% no valor cobrado nas refinarias. De sobra, no mesmo intervalo a Petrobras divulgou dois aumentos para o Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), popularmente conhecido como gás de cozinha, somando alta de 11%. A sequência de reajustes é reflexo da valorização do petróleo no mercado internacional, ao mesmo tempo que o real se mantém fraco ante o dólar. Como esse cenário não dá sinais de regressão no curto prazo, especialistas são enfáticos ao afirmar que novos reajustes estão a caminho, e devem acontecer ainda neste mês.

O movimento da Petrobras é justificado pela valorização do barril de petróleo no mercado internacional desde o segundo semestre do ano passado, quando o mercado financeiro começou a projetar o crescimento da economia mundial em 2021. Essa especulação fez o valor do petróleo brent — usado como referência para a Petrobras —, pular de US$ 23 o barril em março de 2020, no auge da crise gerada pela Covid-19, para US$ 54 em janeiro, segundo levantamento da LCA Consultores. O otimismo com a recuperação da economia deve fazer o barril bater média de US$ 59 neste mês, dando margem para novos reajustes na gasolina e diesel. “Não há fôlego para manter esse ritmo de crescimento até o fim do ano. Estes ajustes estão acontecendo e terão mais impacto no curto prazo”, afirma Fábio Romão, economista sênior da LCA.

Apesar dos postos de combustíveis não repassarem todo o percentual de reajuste aos consumidores, a cada nova mudança na refinaria, sobe o valor nas bombas. Em maio de 2020, o preço médio da gasolina estava em R$ 4,01, enquanto o diesel custava R$ 3,20. Dados da LCA mostram que o preço da gasolina saltou para R$ 4,61 em janeiro, enquanto o diesel foi para R$ 3,68. Com os novos reajustes, a gasolina deve chegar a chegar a R$ 5 a partir de maio, e se manter nesse valor até dezembro. Já o diesel deve rondar a casa de R$ 3,90. Os desafios logísticos para a imunização e a falta de insumos para a produção de vacinas devem arrefecer o otimismo do mercado financeiro nas próximas semanas, desinflando a especulação que faz o valor do petróleo disparar. A previsão é que o preço do barril já baixe para pouco mais de US$ 57 em março e fique na linha de US$ 55 a partir de abril até o fim do ano. Ao mesmo tempo, o dólar, que atualmente ronda R$ 5,40, deve começar a perder força ante o real. Economistas e entidades do mercado financeiro ouvidos pelo Banco Central estimam o câmbio a R$ 5,01 ao fim deste ano, segundo o Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira. “Os novos reajustes não terão mais a mesma intensidade. Como há a questão da defasagem entre o anúncio na refinaria e na bomba, é possível que os preços se estabilizem para os consumidores até abril”, afirma Romão.

A série de aumentos no curto espaço de tempo pressionou o governo federal. Na última semana, Jair Bolsonaro (sem partido) convocou o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, para explicar publicamente os reajustes. Nesta segunda-feira, Bolsonaro voltou a falar no assunto ao dizer que as mudanças iriam criar uma “chiadeira com razão”, mas que não tinha poder de intervir na política de preços. Como resposta às pressões, sobretudo de caminhoneiros que chegaram a ensaiar um movimento paradista no início do mês, o governo federal estuda enviar ao Congresso um projeto de lei que muda a taxação dos estados sobre os combustíveis. O economista Edmar Almeida, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que o atual cenário de incertezas gera muita volatilidade no mercado, e que o governo e a população devem estar preparados para novos aumentos. “Estamos vivendo um momento muito especulativo no mercado de commodities. A ansiedade com o que pode acontecer no futuro causa essa alta no mercado internacional. Ainda há espaço para o petróleo subir, mas não com sustentabilidade”, afirma.

Se para a maior parte da sociedade a margem de reajustes é vista com apreensão, empresários que compram combustíveis no mercado internacional enxergam a expectativa com alívio. No último reajuste, a Petrobras acrescentou R$ 0,13 por litro no valor do diesel e R$ 0,17 no litro da gasolina. Segundo Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), as condições do mercado internacional e câmbio dariam margem para alta de R$ 0,33 por litro de diesel nas refinarias e R$ 0,15 por litro de gasolina, além dos valores já anunciados. Para Araújo, essa diferença é sinal de interferência do governo na estatal e afasta investidores do mercado brasileiro. “Além do impacto aos acionistas, essa retenção dificulta os investimentos, uma vez que a empresa de controle estatal pratica preços abaixo do mercado. Dificilmente os investidores vão colocar dinheiro em uma empresa que sofre pressão política”, afirma.