Guedes sofre o maior momento de pressão desde o início do governo

Segundo aliados, desafetos usam offshore para desgastar imagem do ministro; aumento dos gastos públicos com proximidade das eleições encontra resistência no chefe da equipe econômica e desagrada classe política

  • Por Gabriel Bosa
  • 13/10/2021 15h04
MARCELO CHELLO/CJPRESS/ESTaDÃO CONTEÚCO Ministro da Economia, Paulo Guedes, sofre pressão política após divulgação de participação em offshore

A divulgação de participação em uma empresa sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, famoso paraíso fiscal, elevou a pressão sobre o ministro da Economia, Paulo Guedes, ao maior nível desde que ele assumiu o posto, em janeiro de 2019. O chefe da equipe econômica nega qualquer irregularidade e afirma que a sua sociedade em uma offshore estava declarada às autoridades e à Comissão de Ética Pública. Guedes, que está em viagem aos Estados Unidos para uma série de reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do G20, foi convocado pela Câmara dos Deputados para prestar esclarecimentos. A data da audiência ainda não foi confirmada. À Jovem Pan, aliados do ministro afirmam que desafetos — incluindo pessoas próximas ao governo — estão usando a repercussão para desgastar a imagem de Guedes. O motivo seria a resistência do responsável pela Economia em defender o teto de gastos. Rumores em Brasília nos últimos dias indicavam a sondagem do ex-secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, para assumir o ministério. Almeida, no entanto, afirmou que não existiu abordagem alguma de emissários do governo federal.

Segundo auxiliares, a proximidade das eleições aumenta os esforços da classe política para elevar os gastos com obras e investimentos. O movimento visa agradar as bases para garantir novo mandato ou cacifar a imagem de candidato na disputa de 2022. Aos aliados, Guedes tem afirmado que não vai ceder às pressões e que se mantém no cargo. A única condicionante para ele desembarcar seria justamente o rompimento da atual política de respeito ao teto de gastos e o compromisso com as contas públicas. A prorrogação do auxílio emergencial simboliza os movimentos de tensão. Enquanto alas governistas defendem a extensão dos pagamentos, a equipe econômica se opõem e afirma não haver o caráter de imprevisibilidade que justificaria a abertura de um novo crédito extraordinário para cobrir as despesas. Os debates sobre o benefício, que encerra no fim deste mês, ainda estão mobilizando membros da União e do Legislativo.

Além do ministro da Economia, a série de documentos divulgados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) revelou que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, era sócio de outro empreendimento fora do país até agosto de 2020. A legislação brasileira permite a abertura de offshores, como são chamadas empresas hospedadas em países ou territórios com taxação baixa ou isenção de impostos, desde que os dados sejam repassados à Receita Federal. O Código de Conduta da Alta Administração Federal, no entanto, proíbe que servidores de alto escalão mantenham investimentos, dentro ou fora do país, que possam ser afetados “por decisão ou política governamental a respeito da qual a autoridade pública tenha informações privilegiadas, em razão do cargo”. Guedes afirmou que as críticas fazem parte do “barulho” político e devem aumentar conforme a proximidade do ano eleitoral. Guedes e Campos Neto negam irregularidades. Os advogados de ambos já protocolaram petições na Procuradoria-Geral da União (PGR) para esclarecer os fatos.