Melhora das relações entre o Brasil e o mundo depende mais que a saída de Ernesto Araújo

Mudança exige nova postura da política externa para viés mais pragmático do que ideológico; chanceler pede demissão após desgastes dentro e fora do país

  • Por Gabriel Bosa
  • 29/03/2021 15h20 - Atualizado em 29/03/2021 18h28
José Dias/PRMinistro das Relações Exteriores pediu demissão nesta segunda-feira após acúmulo de desgastes dentro e fora do país

A saída de Ernesto Araújo do Itamaraty abre um vácuo no comando de uma das áreas mais estratégicas do país, sobretudo no momento que o Brasil passa pelo pior momento da pandemia do novo coronavírus e precisa do auxílio internacional para a importação de vacinas e insumos. Por si só, a mudança da figura desgastada do chanceler após mais de dois anos de polêmicas e tensões com os principais parceiros comerciais do país é vista como positiva, mas os seus efeitos serão calibrados de acordo com a postura do próximo ocupante do Ministério das Relações Exteriores indicado por Jair Bolsonaro (sem partido). Analistas ouvidos pela Jovem Pan são enfáticos ao apontar que o desembarque de Ernesto Araújo não terá efeito para melhorar a visão da comunidade internacional sobre o Brasil se não for acompanhado de uma guinada institucional para uma política externa muito mais focada no pragmatismo do que em questões ideológicas. “Todas as suas posições foram referendadas por um núcleo próximo de Bolsonaro, ele nunca foi um dos ministros que representou alguma autonomia”, afirma José Maria de Souza Júnior coordenador do curso de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco, citando a influência dp assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, e do filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). “O impacto vai depender de como o novo chanceler vai lidar com esse núcleo e como a política externa será conduzida a partir de agora.”

A falta de pragmatismo levou o Brasil a se indispor com China e Estados Unidos, os principais parceiros comerciais e figuras antagônicas da geopolítica mundial. As pontes com os chineses foram queimadas desde o início do governo Bolsonaro, e se intensificaram após a crise da Covid-19, com forte atuação de Ernesto Araújo. Já as relações com os norte-americanos começaram a ruir durante a disputa entre Donald Trump e Joe Biden pela Casa Branca. Além de demonstrar apoio público ao republicano derrotado durante a campanha, o Brasil foi um dos últimos países a desejar os parabéns para o novo presidente após a vitória nas urnas. Esta visão pouco frutífera para os interesses do país é constantemente apontada como a marca principal de Araújo à frente do Itamaraty. “Pode até haver ideologias, mas a diplomacia serve para os interesses do país. O conceito básico é construir relações, não destruir pontes”, avalia Roberto Dumas, professor de economia do Insper. “O Brasil tem os seus interesses, assim como todos os outros países também tem. Mas é preciso avaliar antes de ir respondendo as coisas com as vísceras”, diz.

O governo federal ainda não se manifestou sobre a saída de Araújo. Entre os mais cotados para assumir o comando do Itamaraty estão o embaixador brasileiro na França, Luiz Fernando Serra, o almirante Flavio Rocha, atual secretário especial de Comunicação Social, e Nestor Foster, embaixador do Brasil nos EUA. Para analistas, independente do nome escolhido, não se pode esperar grandes transformações nas Relações Exteriores. “O chefe continua o mesmo, achar que vai vir alguém completamente diferente é ingenuidade”, afirma Dumas. Apesar de seguir a cartilha de Bolsonaro, Souza Junior diz que é preciso encontrar formas de se posicionar no cenário internacional sem gerar mais desgastes à imagem do país. “O Brasil precisa buscar convencer de uma forma mais sistemática, através de meios institucionais e amarrações densas. É sentar e negociar, não se pode fazer política externa com bravata.”